Que o Museu Nacional seja o último patrimônio do Brasil a ser queimado!


Que o Museu Nacional seja o último patrimônio do Brasil a ser queimado!

Arnaldo Mourthé

Dia 2 de setembro. Um nova data da coleção das tragédias nacionais. O fogo devastou o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Terá sido acidental o sinistro? Não o foi. Ele era previsível, dado o descaso das autoridades para com a coisa pública. Ainda há a hipótese que tenha sido criminoso. A proliferação das chamas foi de uma rapidez difícil de ser compreendida. Basta observar o prédio do alto. Um edifício com aquela extensão não poderia ser todo alcançado pelas chamas em tão pouco tempo, considerado o relato de quem acionou o corpo de bombeiros e a presteza do atendimento à chamada: seis minutos. Mas essa é uma questão de polícia, embora seja de nossa responsabilidade investigá-la. A proporção do evento e seus significados nos impõe esse cuidado.

O Museu Nacional não é um caso isolado. Ele é um ponto de uma enorme série de eventos que visam destruir nossos patrimônios públicos, para desorganizar nossa sociedade, a fim de prepará-la para aceitar a submissão ao atual candidato a ser nosso senhor. O primeiro senhor foi a Coroa portuguesa, que o fez através das Capitanias Hereditárias, que implantaram a escravidão no Brasil, primeiro dos índios, o que não conseguiram viabilizar, depois dos africanos capturados ou comprados dos reis tribais que os capturavam de outras tribos. Instituiu-se um sistema escravista que se manteve por 350 anos. Depois foram os barões, da cana, do ouro e do café, que constituíram uma casta, que deixou como descendentes uma elite  calhorda que insiste que o Brasil é propriedade dela.

Dos senhores de engenho aos barões do café, as castas que dominavam o Brasil pela concessão ou propriedade das terras viveram da aliança com o explorador estrangeiro, cortes, traficantes de escravos e mercantilistas de toda espécie, para a espoliação do povo brasileiro e do nosso território, pródigo em madeiras, produtos agrícolas, ouro e pedras preciosas, e minério de toda espécie.

Houve um momento que a população se viu tão humilhada e espoliada, que se lembrou dos Inconfidentes Mineiros e revoltou-se. Isso foi na segunda década do século XX. Começou com a greve geral em São Paulo em 1917, onde já havia um embrião da classe operária nascida da recente industrialização e da urbanização consequente. Na segunda década do século XX, a indignação manifestou-se nas revoltas dos tenentes pelo Brasil afora, e nos movimentos dos intelectuais, cuja maior expressão foi a Semana da Arte Moderna de São Paulo, em 1922.

O Brasil amadurecera para tomar conta de seu destino. A crise econômica de 1929, que se iniciou nos EUA, faliu cafeicultores e banqueiros. Os “barões do café” desesperado tramaram manterem-se no poder para aplicar uma política financistas que os beneficiasse e os tirasse da crise, com mais sacrifícios da população trabalhadora, operários e classe média. Fraudaram a eleição a favor de seu candidato. A população se indignou e os estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais decidiram intervir. Houve a Revolução de 30, que deu um rumo ao Brasil buscando a industrialização e a proteção do trabalhador, através de uma política social, priorizando a educação, a saúde e a legislação social, através das leis trabalhistas e da Previdência Social, e da extensão às mulheres do direito ao voto.

A elite calhorda desbancada do poder não se conformou. Aliou-se a interesses estrangeiros e, juntos, investiram contra os presidentes progressistas, especialmente, Getúlio e Juscelino. Uma conspiração alimentada pela corrupção levou Getúlio ao suicídio e, mais tarde, tentou impedir a posse de Juscelino. Quando sua tentativa da elite de voltar ao poder tropeçou no rompante de Jânio, que ela conseguiu eleger contra o general Lott, mas que não conseguiu governar por contradições internas de seus apoiadores. Sobrou o governo para Jango que tentou resgatar a política social e de desenvolvimento de Getúlio. Veio o golpe de Estado com apoio ostensivo das corporações internacionais e do próprio governo dos EUA. Depois disso todos conhecem a história. A ditadura, com sua atrocidade e obscurantismo, e os governo que vieram depois, controlados pelos deputados corruptos da elite e pelo capital financeiro que financiou desde FHC à tragédia nacional de hoje. Daí para cá começou a ser queimado nosso patrimônio.

Tudo começou o ataque sistemático à Constituição de 1988, que Ulisses Guimarães via como a “Constituição Cidadão”, mas FHC como um obstáculo a seu projeto de entregar o Brasil ao controle da capital financeiro internacional, classificando todos que a apoiavam de “dinossauros”, no sentido de pré-históricos. Para ele a história deveria começar com o neoliberalismo que escraviza todos aos interesses do capital financeiro. Implantou um projeto de “queima” do patrimônio nacional, público e privado. O capital financeiro comprou tudo, como o os votos dos congressistas para as reforma da constituição, incluindo a da reeleição, e a mídia, que já era dominado em grande medida pelas corporações controladas por ele.

A corrupção torou-se endêmica, infiltrando no público e no privado, especialmente na mídia, que tornou-se dócil e manipulada para enganar a população. Criou-se condições  favoráveis para desmantelar o poder político, submetido ao corruptor, o aparelho de Estado e a economia nacional, que passou a ser fornecedora de “commodities” , minerais e alimentos, que geram os dólares que voltam para sua origem como pagamento dos lucros e juros obtidos pelo capital estrangeiro, sem fronteira e sem lastro: dinheiro falso. Foi criada uma monumental dívida pública para aprisionar os governantes ao capital financeiro e para consumir o orçamento, obtido através de impostos pagos pelo trabalho mal pago do brasileiro.  Os juros da dívida foram comendo todos os impostos e destruindo os serviços públicos. O patrimônio público se  deteriora e as pessoas ficam desassistidas. O déficit orçamentário torna-se volumoso, o que serve de argumento para vender todos os patrimônios públicos. Até o que está debaixo da terra ou do mar, como o petróleo. Querem privatizar o sistema elétrico e com ele as nossas águas fluviais. Fala-se até um privatiza o aquífero Guarani, uma das maiores riquezas da Terra. É a política da terra arrasada. Os números do desmonte espanta o mais pacato do cidadão. As pessoas não reagem porque não conhecem nossa realidade, e não têm nem capacidade para acreditar no que está acontecendo.

O desmonte vai além do patrimônio. Atinge toda a sociedade, a todas as famílias, a todas as pessoas. Mesmo os privilegiados, pois estão deixando de ter uma Pátria. Eles aceitam a condição de vassalos do dominador, o capital financeiro internacional. A saúde, a educação, a cultura,  a qualidade vida, a natureza, a moral, tudo se degrada. A ética não é mais  considerada, pois não há mais respeito ao outro. A mídia é o segundo maior instrumento dessas atrocidades, depois do dinheiro da corrupção.

Esperemos que, ao ver queimado o Museu Nacional, a população acorde de seu sono, que parece eterno, e que dê um não a tudo isso. Que a intelectualidade acomodada no seu aparente conforto acorde também. Ela não escapará ao desmonte. Não serão apenas aqueles que perderam seus empregos as vítimas do capital financeiro nacional e internacional. Seremos todos nós. Está na hora de decidir. Nós ou eles?

Rio de Janeiro, 03/9/2018

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