Arquivos de setembro, 2016

26, setembro 2016 12:36
Por admin

Educação ou adestramento?

Arnaldo Mourthé

Se refletirmos sobre a reforma da educação do Ensino Médio, instituída de forma imperial, através de uma Medida Provisória, podemos chegar a uma série de conclusões interessantes. A primeira coisa que nos vem à memória são os Atos Institucionais, baixados pela ditadura militar. A segunda é a estranheza de colocar 50% da carga horária dos estudantes, em apenas três matérias. A terceira é encontrar entre essas matérias privilegiadas uma língua estrangeira, como se a nossa não nos fosse suficiente para comunicarmos entre nós e com a humanidade: um reconhecimento explícito de inferioridade. A quarta é ser essa língua o inglês, quando nossos vizinhos mais próximos e mais identificados conosco falam o espanhol. A quinta é preterir a história, a geografia, a educação física e as atividades culturais, em prol de uma segunda língua, que é de interesse apenas de uma minoria, que tem nos Estados Unidos da América do Norte sua referência, acima da própria Pátria. A quem serve todos esses enganos, se é que o são? Talvez o objetivo seja aumentar nosso grau de dependência e de submissão a uma nação estrangeira e aos interesses que ela representa, e que não são os nossos.

Será se não existem outras opções de reformas do ensino? Claro que existem, e elas são as mais variadas. Cito, por exemplo, os Cieps (Centros Integrados de Educação Pública) criados no governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro sob a inspiração do genial professor e antropólogo Darcy Ribeiro. Essas escolas formaram centenas de milhares de cidadãos que deram, e ainda dão, grandes contribuições ao Brasil e ao seu povo. Por que não consultá-los, ou a alguns deles, que seja, sobre o que eles pensam de uma reforma de ensino. Quando os Cieps foram criados uma fabulosa campanha foi orquestrada contra eles. Alegava-se que as construções eram muito caras, uma mentira. Na verdade temia-se a educação do povo, por razões as mais diversas. Hoje podemos melhor compreender tudo isso, e essa Medida Provisória esdrúxula nos ajuda. Não se tratava apenas de combater o investimento na educação. Era preciso evitar que se formassem cidadãos. Esses são um perigo para os que pretendem que nossa condição seja colonial e não soberana.

Essa é a questão: não educar o aluno, mas adestrá-lo, para ele ser submisso a interesses, a vontades, a nações, a certos grupos financeiros que querem nos dominar, mas não apenas a nós, mas a todo o Planeta.

Devemos dizer um não à submissão e às intervenções descabidas nas nossas vidas e na nossa maneira de ser, de pessoas inabilitadas e defensoras de interesses contra a nossa nação, e que infelizmente nos governam. Simples assim!

Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2016

15, setembro 2016 10:22
Por admin

Nova Tríplice Aliança, ou “primavera” Latino-americana?

Arnaldo Mourthé

Voltamos aos tempos imperiais. Em 10 de agosto de 1864 o Brasil invadiu o Uruguai. Essa guerra foi feita em aliança com o Partido Colorado, com apoio velado da Argentina, contra o presidente Aguirre e seu Partido Blanco. O pretexto invocado foi o de solucionar conflitos de fronteiras que envolvia interesses de comerciantes e proprietários de terras. Afinal o Império do Brasil precisava demonstrar sua hegemonia na região. Ela durou até 20 de fevereiro de 1865.

O Paraguai e o Uruguai, governado por Aguirre, eram aliados. Vizinhos, eles tinham interesses comuns além da necessidade do Paraguai ter acesso ao mar pelo Rio da Prata.  Solano Lopes, presidente do Paraguai, reagiu à intervenção brasileira. Em  11 de novembro de 1864 foi aprisionado em Assunção o barco a vapor brasileiro Marquês de Olinda, que transportava o presidente da província de Mato Grosso, Frederico Carneiro de Campos, que foi preso. Pouco depois, o exército do Paraguai invadiu a província de Mato Grosso. Em maio de 1865, o Paraguai fez várias incursões armadas em território argentino. Estava delineado o quadro daquilo a que se apelidou Guerra do Paraguai. Vejamos como eu abordei, sinteticamente, esse trágico e constrangedor evento, no meu livro História e Colapso da Civilização.

Entre 1864 e 1870, o império se viu ocupado com a Guerra do Paraguai, consequência de conflitos de interesses entre comerciantes e pecuaristas nas fronteiras, que envolveram as nações platinas. Aproveitando-se da sua condição de isolamento no interior do continente sul-americano, o Paraguai desenvolveu-se autonomamente. Ele alcançou melhores índices de prosperidade e de bem-estar social que seus vizinhos. Superou o analfabetismo, desenvolveu e diversificou sua indústria e formou um exército profissional, bem treinado e bem equipado. Apesar de ter uma população diminuta, menos de um milhão de habitantes, o Paraguai fez frente à Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, Argentina e Uruguai. No final da guerra havia perdido mais de 70% de sua população. Mas os seus adversários pagaram alto preço por isso, em homens e materiais. O Brasil voltou a endividar-se com a Inglaterra, que o financiou interessada a liquidar a independência do Paraguai. Esse endividamento criou novos laços de dependência do Brasil com o Império Britânico. Este capitulo da nossa história é uma mancha que o império nos deixou.

Agora o Brasil volta à sua postura imperial, a de intervir nos assuntos internos das outras nações. Desde sua posse como presidente interino, Temer insiste em intervir nos assuntos internos da Venezuela. Isso foi manifestado nas primeiras palavras de José Serra como ministro das relações exteriores,. Logo que foi efetivado, o governo voltou-se violentamente contra a Venezuela, acompanhando os governos reacionários da Argentina e do Paraguai, e tentando aliciar o Uruguai para sua aventura. de colocar a Venezuela contra a parede, ameaçando-a de expulsão do Mercosul, se ela não aceitar as condições, que os três governos chamam de “democráticas”.  Impedem-na de assumir seu cargo de direito no comando da instituição, e ameaçam  expulsá-la, caso não cumpra os seus ditames autoritários e imperiais.

Aproveitando-se do fato da Venezuela enfrentar uma terrível crise financeira, cuja causa foi a redução do preço do petróleo, sua principal receita em divisas,  em cerca de 50%, essa nova Tríplice      Aliança, agora tendo o Paraguai no lugar do Uruguai, tenta desmoralizar o governo venezuelano sob a acusação da falta de direitos humanos e de democracia.

Mas se compararmos a situação da Venezuela com a do Brasil, o quadro brasileiro é mais dramático que o venezuelano. Senão vejamos:

Se há falta de comida na Venezuela é por escassez de divisas para comprá-la. Mas falta também aos brasileiros uma alimentação adequada, que o faz desnutrido. E isso se dá porque exportamos alimentos para gerar divisas, que são de novo exportadas pelas empresas e investidores estrangeiros que se locupletam com subsídios governamentais para sua indústria e juros escandalosos para seus investimentos financeiros.

Se Maduro não ouve as ruas, o governo brasileiro está pior do que ele. Se fossem ouvidos os gritos de junho de 2013, teríamos mais e melhores serviços públicos e menos desempregados que temos hoje. Os serviços têm seus recursos desviados para pagar juros de um endividamento misterioso a taxas inaceitáveis por qualquer nação administrada por patriotas. Menos desempregados porque não teríamos aceitado a política econômica de dependência escandalosa ao capital internacional, que manipula nossa economia e impede investimentos públicos, pois os recursos do Tesouro são desviados para o pagamento de juros. Ao todo, os desvios são de cerca de metade do orçamento da União. Apesar disso os recursos do orçamento não cobrem a totalidade dos juros, o que obriga a emissão de novos títulos da dívida aumentando-a exponencialmente, o que a fez impagável.

Se a Venezuela tem dificuldades financeiras visíveis que leva sua população à penúria do desabastecimento, nós temos uma dívida pública impagável que está solapando, não só nossas finanças como nosso mercado incapaz de consumir o que produz nossa indústria, apesar de sua grande capacidade ociosa.

Mas por que é tão evidente a crise na Venezuela e a nossa vem sendo disfarçada há tanto tempo? Muito simplesmente porque estamos vendendo todo o nosso patrimônio a título de resolver um problema financeiro que não tem solução, porque a dívida pública que o produz só faz crescer. Já a Venezuela não se vendeu. Aí está a diferença. Os daqui são vendilhões, os de lá não.

Alega-se para afirmar a falta de respeito aos direitos humanos a prisão de um jornalista. Quantos aqui vão para a cadeia por protestar contra os descalabros e a corrupção nos governos e dos governantes? Alega-se que são arruaceiros! Até que esses existem. Mas não arruaceiros vão também para a cadeia só por protestar e enfrentam “bombas de efeito moral”, que assim são chamadas mas que ferem e que cegam como aconteceu a poucos dias em São Paulo com uma estudante.

Diante deste quadro, por que tanta campanha contra a Venezuela. Simplesmente porque seus dirigentes tem a coragem de enfrentar o capital financeiro internacional, fomentador e financiador de guerras como aconteceu e ainda acontece na chamada “primavera árabe”. Vejam por exemplo o que acontece na Síria, onde foi fomentada uma guerra só porque o governo de Assad não aceitou a submissão do seu país aos interesses criminosos das empresas de petróleo e dos bancos internacionais, para a exploração do gás que ali existe em quantidade.

Será que começou a “primavera latino-americana”? Tudo indica que sim. E o governo Temer está enterrado até o pescoço, nessa criminosa empreitada. E dessa vez a consequência não será apenas certa dependência a alguma metrópole, o que já temos em excesso, mas a perda de nossa dignidade e de nossa soberania. Mas isso, nós, o povo brasileiro não permitiremos. Quem viver verá.

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2016

13, setembro 2016 3:22
Por admin

Não há apenas uma luzinha, mas um farol, no fim do túnel

 

A posse da ministra Carmem Lúcia na Presidência do STF começou com um pronunciamento aparentemente singelo em relação ao Poder. Foi quando declinou do cumprimento estrito do protocolo de referir-se em primeiro lugar à maior autoridade presente ao evento, o presidente Michel Temer, para dirigir-se ao Cidadão brasileiro, fonte única do poder republicano.

Mas qual é o significado desse ato inusitado. Para cortarmos caminho, podemos afirmar que é o prelúdio da possibilidade do restabelecimento dos princípios republicanos, aos quais se referiu também o decano Celso de Mello, que podem ser encontrados no livro de Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social, é um grande acontecimento.

A República, nascida junto com a cultura helênica, foi objeto de estudos dos dois maiores filósofos gregos Sócrates e Platão. Ela é a instituição mais aperfeiçoada que a humanidade encontrou para organizar a sociedade sob as condições de Paz, Fraternidade e Prosperidade. Isso porque ela se baseia no princípio da liberdade inata do ser humano, que é a fonte legítima da soberania do povo e da nação. Essa questão é analisada de forma sublime no livro citado acima e foi abordado por mim sob os seus aspectos históricos e políticos em dois de meus livros, História e colapso da Civilização e A Crise, este recentemente lançado. Nele quando trata do tema “O Mensalão”.

Ter uma presidente da Suprema Corte que coloque no lugar certo a origem e a legitimidade do poder é de suma importância neste momento doloroso e caótico que atravessamos. Que assim seja.

13/9/2016

Ser contra ou a favor? Eis a questão!

Arnaldo Mourthé

Estamos atravessando um momento inusitado no Brasil, embalados por uma crise que escapa à compreensão de quase todos e nos coloca opções estranhas, como esta do título deste artigo. Mas por que isso ocorre? Talvez por nossa perplexidade diante do quadro atual da nossa sociedade, da nossa economia e da nossa política. Muitas coisas, com as quais não concordamos, estão acontecendo ou, simplesmente, reveladas nas investigações do Ministério Público e da Polícia Federal envolvendo políticos antes e ainda poderosos, e  empresas e bancos de grande porte. Parece até um anúncio do apocalipse.

Vejamos os fatos concretos. Vivemos um processo de impeachment da presidente da República, que, apesar de já julgado pelo Congresso ainda é objeto de ações no Supremo Tribunal Federal. Paralelamente vivemos uma crise econômica que abala toda a sociedade, em especial as partes já afetadas pelo desemprego ou pela falência, e ainda uma crise institucional que envolve vários aspectos, inclusive vários processos ou denúncias de corrupção no congresso nacional, e autoridades em todos os níveis de poder.

Qual é a reação da opinião pública em relação a tudo isso, que podemos definir como um quadro caótico, envolvendo as instituições e toda a sociedade? Se observarmos atentamente as posições das pessoas nas suas participações em manifestações ou através da imprensa, verificamos que as posições são na sua grande maioria contrárias a alguma coisa e não a favor de outras coisas. Isso se verifica nitidamente em relações aos fenômenos relacionados acima de cassação de mandatos, sejam parlamentares, sejam do executivo. No caso do impeachment da Presidente, os argumentos dos favoráveis a ele são nítida e naturalmente pela cassação, portanto contrários à sua permanência no poder. Mas o que nos intriga é a posição em defesa da Presidente que se manifesta de forma mais nítida e numerosa pela negatividade, chamando o processo de golpe, que a favor dela, alegando sua inocência. Todas as posições podem ser plenamente justificáveis colocadas separadamente. Mas o conjunto delas demonstra uma tendência para a negatividade e não pela afirmação que se manifestaria por reivindicações claras, como a própria inocência, se é que existe, e as causas primeiras de tudo isso que não foram aventadas em nenhum momento do processo por nenhum dos que se confrontavam.

Nenhuma das partes falou da causa principal da crise, aquela que gerou o déficit público que, por sua vez levou às “pedaladas fiscais”, e ao atraso de pagamento aos bancos. Não se referiu em nenhum momento à ligação insofismável do déficit público com o pagamento generoso de juros aos portadores de títulos públicos, e ao escândalo de seu crescimento exponencial. Qual a conclusão a que podemos chegar, em face desse quadro nebuloso? Há uma tendência em ser contra o que está aí e ao que se faz ou se pretende fazer, gerada pela situação social caótica a que chegamos.

Tudo isso nos leva a pensar que é necessário que as pessoas passem a pensar mais positivamente, ou seja, a favor do atendimento a suas necessidades, inclusive da segurança própria e da Nação, que em buscar culpados pelo caos que vivemos sem qualquer conhecimento das causas mais profundas de tudo isso.

Diante disso sugiro que passemos a pensar mais nas nossas necessidades e nas formas de atendê-las, a partir de melhores salários, na escola para nossos filhos, na saúde honesta e gratuita, como ocorre nos países europeus, no desenvolvimento econômico voltado para os interesses nacionais, e na soberania da nação brasileira que o povo nas ruas pediu em junho de 2013. Mas como obter tudo isso? Devemos trabalhar todos em função de programas de atendimento de nossas necessidades e de nossas vontades na medida de sua possibilidade.

Para que isso seja possível é preciso que façamos já uma coisa, sem a qual tudo irá por rio abaixo. A auditagem da dívida pública brasileira, para localizar tudo que há de falsidade e de ilegalidade nela. Essa dívida não só está esfacelando os serviços públicos, educação, saúde, transporte, segurança pública, mas também nossas instituições e nossa sociedade. A nação brasileira está-se esfacelando, e a principal causa desse esfacelamento são os juros pagos, não apenas com recursos dos impostos que pagamos, como através da emissão de novos títulos que a transformou em uma bola de neve, capaz de engolir todo o nosso patrimônio nacional como nossa soberania. Pense nisso e ajas em consequência.

Nosso lema deve ser: Pela cidadania e pela soberania nacional: auditagem da dívida pública.

Rio de Janeiro, 11/9/2016

03, setembro 2016 3:21
Por admin

É urgente um professor de matemática para o COPOM

Arnaldo Mourthé

            Vivemos no Brasil uma grave crise que se manifesta sob formas diversas, econômica, política, aumento da violência, falência dos serviços públicos, mas também no comportamento ético e moral no seio da sociedade.

A cada momento um aspecto da crise manifesta-se de forma mais nítida, o que leva os analistas a interpretações diferentes sobre sua natureza. Um dos aspectos que mais choca é o econômico que ressalta o grave problema do desemprego que humilha os cidadãos e é produzido pela retração da economia.

Daí a ênfase dada a essa questão quando o assunto é a crise. Enquanto isso, dá-se crédito aos economistas, particularmente aos financistas, quando se busca explicações sobre ela. Mas serão eles os mais aptos para analisá-las? Se assim é, torna-se necessário que eles aprendam matemática. Senão vejamos.

Propõe-se a retomada do crescimento como o motor de superação da crise. E, de fato, assim é. Mas como fazê-lo? Alguns dizem que é preciso incentivar os investimentos para gerar empregos e fazer crescer a produção. O jogo de palavras dos economistas e políticos faz crer que eles têm razão. Mas, de novo, como fazê-lo?

Como investir na produção quando a taxa de lucro da indústria e do comércio é inferior aos juros pagos pelo Tesouro Nacional nos seus títulos? Esse é o argumento dos mais sensatos, e eles têm razão quando se trata da recuperação econômica. Outra forma de fazê-lo seria o investimento público. Mas como, se as contas da União e dos estados estão em déficit? Para equilibrá-las a União precisa de autorização legislativa para cobrir esse déficit, o que é feito colocando-se no mercado mais títulos públicos, aumentando a dívida e concorrendo com os investimentos produtivos, por terem rendimentos garantidos e maiores que os deles. Há um processo vicioso que os economistas, políticos e autoridades de plantão não conseguem resolver.

Mas a solução é simples, matemática e única. Reduzir os juros da dívida pública a tal ponto que tornem mais interessantes os investimentos no setor produtivo, o que resolve também o problema do déficit orçamentário da União. Isso repercutirá nos estados, fazendo com que todas as contas possam chegar onde deveriam, no equilíbrio entre receitas e despesas.

É certo que essa é uma questão política de fundo em um país que se sente incapaz de fazer face aos interesses do grande capital internacional, se submetendo a eles. Sim, a crise econômica é uma questão política. Mas da Grande Política, da Política Republicana da Soberania das Nações.

Mas o que tudo isso tem a ver com a matemática?

O desenvolvimento da humanidade se deu a partir do momento em que um humanoide, nosso ancestral, iniciou seu processo de transformação em homem ao criar um instrumento, uma pedra amarrada na ponta de um bastão, uma marreta, que se transformou mais tarde em machado. Nesse processo o homem tornou-se mais competitivo no reino animal, superando as outras espécies com os instrumentos e armas que ele criou. Isso lhe permitiu produzir mais alimentos que a simples coleta de frutos e folhas para sua subexistência, produzindo excedentes às suas necessidades de sobrevivência. Isso levou ao crescimento da população e o desequilíbrio da natureza a seu favor e contra as espécies que passaram a ser sua caça. Foi esse excedente que permitiu o desenvolvimento da humanidade, criando as tribos, cidades e impérios, enfim, a civilização.

Tudo isso foi construído com a produção de excedentes em relação às necessidades básicas da comunidade. Foi um pequeno percentual a mais na produção em relação às necessidades. Esse percentual foi investido e transformou-se em crescimento da população e foi também utilizado na criação de novos instrumentos e armas. Esse percentual, na sociedade moderna, transforma-se em lucro nas atividades produtivas e em receitas do Estado para atender a necessidades cada vez maiores e mais complexas da população.

O cálculo matemático é o seguinte:

Todo excedente é um percentual que se acrescenta ao já produzido anteriormente. A cada etapa há um acréscimo à riqueza que já possuímos que podemos chamar patrimônio. capital, ou PIB (Produto Interno Bruto) de uma nação, em função do aspecto que se está analisando. Tem-se assim uma acumulação de riqueza que movimenta e acompanha o processo civilizatório. Essa acumulação se faz pela anexação do excedente ao patrimônio inicial que vai se desenvolvendo juntamente com a civilização. Em cada etapa de seu desenvolvimento ela tem características próprias, como construções de cidades, templos, obras de irrigação e tantas outras que a humanidade foi criando através do tempo.

A história registra a apropriação dos excedentes de produção pelos chefes das tribos e mandatários, específicos para cada época e nível civilizatório, que determinaram seu uso conforme suas necessidades ou conveniências, ou ainda pelas pressões da população produtora da riqueza. Com o surgimento do capitalismo o excedente passou progressivamente para as mãos do capitalista, detentor dos meios de produção e da mercadoria produzida. Essa condição excepcional permitiu ao capitalista um enorme espaço de liberdade para orientar a utilização dos excedentes cada vez mais para satisfazer os seus interesses de riqueza e de poder.

Com o crescimento das cidades e mais tarde dos impérios e civilizações, desenvolveu-se paralelamente a importância da troca de mercadorias entre as comunidades e os povos. Para tal foi necessário criar um instrumento de troca que não obrigasse o escambo, ou seja, a troca direta de uma mercadoria por outra, que limitava enormemente o comércio. Fora-se estabelecidos padrões de valor que funcionaram como referência de troca, ou moeda. Mas essa moeda primitiva era também uma mercadoria, portanto possuía um valor intrínseco, como foi o caso do ouro e das pedras preciosas.

No capitalismo o excedente passou progressivamente para as mãos do capitalista, detentor dos meios de produção e da mercadoria produzida. Essa condição excepcional permitiu ao capitalista um enorme espaço de liberdade para orientar a utilização dos excedentes cada vez mais para satisfazer os seus interesses de riqueza e de poder. Fez-se o papel-moeda que substituía a mercadoria padrão. Inicialmente ele era garantido por reservas de valor, sendo o ouro o mais empregado. Entretanto, com o tempo mudanças ocorreram, com a hegemonia política cada vez maior da burguesia capitalista, sustentada pelo poder econômico. Sob seu poder a burguesia impôs ao Estado a emissão da moeda sem a garantia do padrão ouro.

Na atualidade, com essa facilidade surgiu a doutrina neoliberal, que dá à burguesia a liberdade de auferir lucros através de atividades não produtivas, como a especulação e a dívida pública. No nosso caso interessa-nos esclarecer sobre a questão da dívida pública. Como ela funciona?

O modo de produção capitalista usa rotineiramente o financiamento às atividades produtivas pelo sistema bancário, como necessidade do próprio sistema, por razões as mais diversas. Dessa forma o sistema financeiro participa da produção de bens associando-se aos produtores, seja como acionista ou através de financiamentos. No segundo caso seu capital é remunerado através de juros, que variam segundo as condições do mercado. Mas nesse caso o tomador precisa cuidar-se para que a taxa de juros paga seja inferior ou no máximo igual à sua taxa de lucros, ou que os empréstimos sejam pequenos em relação a seu capital, ou de curto prazo. Do contrário, com o tempo os juros terminam por devorar em parte ou todo seu capital. Como isso se dá?

O lucro da atividade produtiva é a apropriação do valor não pago ao trabalhador, já que é  trabalho que gera o valor da mercadoria.  Desse lucro (bruto) são retirados os tributos arrecadados pelo Estado, que constituem os recursos do Tesouro. É do lucro retido pelo produtor que saem também os juros pagos ao banqueiro. Mas os banqueiros também emprestam ao Estado, e recebem em pagamento parte dos tributos arrecadados. Quando o sistema funciona assim, tudo corre normalmente como são definidas as regras do capitalismo. Mas o que estamos assistindo hoje é um endividamento público maior que a capacidade dos Estados de pagar os juros com os recursos da arrecadação. Isso faz com que haja aumento do endividamento através dos juros acumulados. Como isso se passa no Brasil?

A cada ano, há cerca de duas décadas, os recursos orçamentários não são suficientes para saldar os juros. Para pagar a totalidade dos juros os governos federais têm emitido novos títulos da dívida pública que são colocados no mercado financeiro. Essas novas emissões têm provocado um crescimento exponencial, fazendo com que a dívida assuma valores impagáveis com os recursos da arrecadação. Isso se deve principalmente a juros extremamente elevados, mas também à irresponsabilidade dos governantes. Isso vem comprometendo os serviços públicos, que se deterioram, e provocado uma desestabilização generalizada, seja das instituições, seja da sociedade. A crise política que estamos vivendo está inserida nesse contexto, como também o desemprego, a violência e a criminalidade cada vez maiores, e uma perplexidade nunca antes vista na população. Mas como o professor de matemática entra nesta história?

É preciso que as autoridades governamentais saibam fazer contas e principalmente o saibam os membros do COPOM, que são os responsáveis pela fixação dos juros pagos pelo Tesouro Nacional que têm reflexos em toda a atividade econômica e em toda a sociedade. O que se passa com a dívida pública brasileira, hoje superando os três trilhões de reais? Quando se paga juros com divisão do lucro como fazem as empresas privadas, ou o poder público quando esses juros são pagos por recursos arrecadados, opera-se simplesmente uma divisão de apropriação de riquezas dentro da sociedade. Mas quando se torna necessário emitir títulos para esse pagamento, essa emissão é dinheiro criado sem produção de riqueza. E sobre os títulos emitidos paga-se mais juros, porque o capital cresce com os juros não pagos. Assim, a  dívida cresce, com valores falsos, porque não correspondem à criação de riqueza. Isso se chama inflação, que não contamina totalmente os preços das mercadorias justamente porque eles não circulam, apenas são contabilizados a favor dos investidores.

Assim sendo essa dívida é impagável, a não ser que se emita dinheiro sem lastro para fazê-lo, produzindo uma inflação monumental. Por que os investidores, que sabem muito bem disso, deixam e até incentivam que isso aconteça. Muito simples, para submeter os governos e levá-los à alienação do patrimônio nacional, para honrar seus compromissos que, diga-se de passagem, não passam de uma fraude contábil e uma traição aos brasileiros e à nação brasileira.

Acontece que quando acumulamos os juros sob a forma de dívida, eles se transformam em capital gerando mais juros, numa equação matemática denominada exponencial cujo resultado é o infinito. Estamos, a cada dia tornando o país mais vulnerável, e se não acordarmos a tempo teremos perdido não só nosso patrimônio, como nossa soberania. Será isso que os últimos governos que tivemos queriam? Será isso que o novo governo quer?

Saibam todos que a fonte principal da crise brasileira tem nome e endereço:

COPOM – Banco Central, Brasília – D.F.

Rio de Janeiro, 3 de setembro de 2016

05, maio 2022 11:36

Bienal do Livro Rio 2021

13, novembro 2021 12:56

Mini Primavera dos Livros 2021

09, agosto 2021 12:10

Editora Mourthé na FLI BH 2021 - 4a Edição