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10, outubro 2018 10:18
Por admin

 

Onde estará nossa consciência?

Arnaldo Mourthé

Mergulhamos no mundo do caos. Lá se foram as referências que nos orientavam. Esta é apenas uma situação de transição, rápida, pois o caos não tem sustentação. Preparemo-nos para mudanças. Mas que mudanças? Há algumas opções. Uma está clara, o retorno ao reino das trevas, a maior expressão saída das urnas do dia 7 de outubro. A porta de retorno à barbárie está aberta. Aqueles que querem viver o mundo da violência e do egoísmo já têm um portal para entrarem. Boa viagem! Não faltarão emoções, medo, ódio, angústia, disputas diversas, dominadores e dominados. O amor será um luxo. Será o império da lei do mais forte, onde a guerra será a glória para o vencedor. Ai dos vencidos! Esse portal convida-o para a aventura, com bilhete de ida, mas sem retorno previsível. Atenção para os riscos!

Haverá também outro portal. Este de luz, para aqueles que preferem o amor, a paz e a fraternidade. Mas seu acesso é individual. Cada um de nós deve abri-lo dentro de si mesmo. Ele estará à nossa disposição, mas só abrirá para aqueles que praticarem o amor ao próximo, ou incondicional. Muitos poderão ajudá-lo a encontrá-lo, mas ninguém está credenciado a empurrá-lo para dentro dele. A escolha é sua. Ele é a opção pela liberdade, sua e do outro.

Na primeira opção você terá sua oportunidade de aprender aquilo que lhe foi oferecido nesta sua aventura no planeta Terra, mas você a perdeu porque seu egoísmo não o permitiu reconhecer o direito do outro e o amor ao próximo. Você se fechou no seu mundinho mesquinho e permitiu que a miséria, a ignorância, o sofrimento, a violência se abatessem sobre tantos outros. Isso deformou a sociedade, fez prosperar a desigualdade e a opressão a ponto do Planeta não resistir a todos seus descalabros. Ele adoeceu e reagiu febrilmente a tanto descalabro, expulsando de dentro de si os males que lhe foram impostos pelo egoísmo e desatinos dos humanos, contra seus semelhantes e contra a Natureza. Seu equilíbrio precisa ser restabelecido. Para isso é necessária a paz entre os homens, que só será possível através da prática do amor e da fraternidade.

O quadro caótico que agora atravessamos é consequência dos nossos desatinos no descumprimento dos princípios e leis que regem o Universo. Não vem ao caso nesse artigo aprofundarmos        sobre essa questão, pois isso não nos permitiria complementar nosso raciocínio na análise objetiva do momento que vivemos no Brasil. O fenômeno que ocorre aqui também se apresenta pelo mundo afora, conforme as condições objetivas de  cada país ou região pelas mais diversas razões, inclusive culturais. Nossa análise se limita a nós mesmos, por conhecermos melhor nossa realidade, diferente para cada povo e nação.

Chegou a hora da verdade, caros amigos. Ela se revelará plena e claramente, de forma insofismável, mas poderá ser tarde demais para muito de nós, mergulhados em nossos pequenos e grandes vícios, levando vidas perdulárias e desrespeitosas para com os outros. As eleições que estamos assistindo são a exacerbação de nossas práticas sociais mais perversas, originárias de um modelo de exploração colonial predatório e escravista. Cada dia ele é mais predatório e espoliativo. A escravidão formal vem sendo substituída por uma sociedade de excluídos, que faz do nosso trabalhador um escravo do interesse financeiro do patrão sem rosto nem identidade conhecida, e descartável por não custar nada ao empregador. Cada um de nós é submetido à espoliação mais deslavada, por pessoas que nem conhecem nosso país. Pensem nisso.

Aqui cabe uma pergunta. Como foi possível alcançar esse grau de degradação? Ocorre que a humanidade vem sendo submetida há milhares de anos a condições de dominação e/ou de escravidão, através do poder originário da propriedade da terra e de meios de produção, acompanhado de mitos e dogmas que lhe foram incutidas através de ilusões e mentiras criadas para impedir que ela tomasse consciência da realidade. Os instrumentos foram os mais variados ao longo da história. No presente, esse trabalho é feito por um complexo de meios de comunicação que envolve a mídia, a escola, o poder estatal constituído, doutrinas viciosas e até as religiões. O poder constituído, e o oculto que tudo domina, conta com instrumentos poderosos de controle da nossa mente e de repressão, dentre os quais os institutos de pesquisa que acompanham a evolução de nosso pensamento, os serviços de informação, as polícias e as forças armadas.

O descalabro a que chegamos ocorreu pelo egoísmo sem limites manifestado no poder, hoje concentrado no capital financeiro internacional. Tudo é decidido, em última instância, por um pequeno grupo de pessoas organizadas em sociedades secretas. Esse grupo que produziu as grandes guerras mundiais, e de dominação pelo mundo afora, administra uma fortuna que, em dezembro de 2015, equivalia a 2,55 vezes o PIB mundial, segundo levantamentos do FMI. Essa era a soma das dívidas públicas e privadas no mundo. Esse valor só cresce. Na iminência de um colapso financeiro mundial seus chefes arquitetaram um mundo totalmente sob seu controle. Toda a geopolítica mundial gira em torno desta questão, que não vem a público tão claramente pelo temor, ou interesses, dos que a conhecem. Estamos vivendo sob um regime do medo, o terror das sombras.

Levando-se em conta essas informações, muitas coisas ficam esclarecidas, inclusive o comportamento dos últimos governos do Brasil que o colocaram na condição de não poder honrar seus compromissos financeiros, mesmo destruindo os serviços públicos, levando a população à miséria e alienando nossos patrimônios público e privado, a título de reparar o irreparável. Essa situação virá a público com um governo democrático que terá de explicar com todas as letras esses fatos macabros. O colapso financeiro será inevitável. Bancos serão fechados, e bilionários irão para a cadeia. Por isso eles estão tentando eleger um maluco, violento e preconceituoso, presidente da República. Sem nossa liberdade eles terminarão sua obra macabra, transformando o celeiro mundial que é o Brasil em colônia. Em seguida viria a América do Sul e depois outras regiões. Uma demência inacreditável, mas que pode ser conhecida através da pesquisa, até mesmo pela internet. Quase todos esses dados estão lá.

A eleição de 2018 para presidente da República é uma fraude do capital financeiro internacional para dominar o Brasil pela via da nossa complacente democracia dos banqueiros. O alerta está feito. Se elegerem o Xerife para armar os seus e liquidar seus adversários, se assim ele considerar necessário, a catástrofe será completa. Depois disso só nos restará clamar aos Céus.

Rio de Janeiro, 09/10/2018.

06, outubro 2018 1:59
Por admin

Em defesa da vida e da dignidade humana

Arnaldo Mourthé

Esta nossa eleição não é como as outras que conhecemos. Não se trata apenas de uma disputa entre setores da sociedade, representados por correntes políticas ou partidos, por esse ou aquele interesse, em um quadro de estabilidade aceito pela maioria da população. Ela trata de questões mais profundas, de direitos fundamentais do ser humano, dos quais destacamos os direitos à vida, à liberdade e à igualdade, dentre muitos outros.

Estamos ameaçados de perdermos conquistas ancestrais, ensinadas pelos grandes pensadores e líderes religiosos da antiguidade, além daquelas republicanas com origem há quase três milênios no mundo helênico, no Mar Mediterrâneo. Tudo isso em nome de uma Ordem, que se revela em desordem e violência, e um Progresso, que só serve aos poderosos, enquanto espalha a miséria, a ignorância e o sofrimento para a maioria da população. Os brasileiros obtiveram grande parte dessas conquistas em período muito curto, da Revolução de 30 até o golpe de estado de 1964. Dentre elas o voto feminino, as leis trabalhistas e sociais, a Justiça Eleitoral, a escola e a saúde públicas de boa qualidade e as indústrias de base estatais que impulsionaram a economia brasileira, mas que agora vêm sendo privatizadas a preço de banana, como se nós brasileiros não fôssemos competentes para nos autogovernar.

Esse risco enorme tem como única justificativa a figura da corrupção, praticada pelas próprias elites que, a título de combatê-la, querem demolir nosso Estado e destruir nossa Sociedade. Isso se chama fascismo, sistema político antidemocrático criado por Mussolini, que inspirou Hitler, na Alemanha, Franco, na Espanha e Salazar, em Portugal, cada um com suas características próprias, mas todos opressores, genocidas e causadores de guerras que continuam na nossa triste memória. O nosso fascismo tem um componente pior que os citados acima, ele é contra a Nação brasileira. Denigre nosso povo e suas origens. Despreza as mulheres e nossa diversidade cultural, abre nossas fronteiras à espoliação estrangeira. Além de retrocesso histórico é perverso, mergulha a Nação no obscurantismo e na violência.

Mas, não é preciso desesperar por causa de tudo isso. As crises são também momentos de oportunidades. Você, caro concidadão, pode, com seu voto, mudar tudo isso nos dois turnos desta eleição, derrotando o candidato fascista, basta escolher corretamente, no primeiro turno, o candidato que derrotará o fascista no segundo turno. Somente um deles tem condição de fazê-lo. Seu nome é Ciro Gomes, o número 12. Quem diz isso são vocês mesmos eleitores, através das pesquisas de intenção de votos. Mas é preciso que ele chegue ao segundo turno para derrotar o fascista. O outro candidato, mesmo que seja de sua preferência, perderá a eleição. Nesse caso seu inimigo alcançará o poder. Depois disso só apelando a Deus, porque você não fez sua parte na defesa de sua família, de seu povo, de sua Nação. Não se deixe iludir pela paixão. Se você quer justiça para com seu líder, o caminho é um só: derrotar o fascista.

Nunca um povo teve a oportunidade de resolver seu destino com apenas seus votos. Seja inteligente e leal para com os seus. Derrotemos o fascista para construirmos uma nova sociedade de Paz e Fraternidade no nosso querido Brasil.

Rio de Janeiro, 06/10/2018.

03, outubro 2018 11:07
Por admin

Aos católicos eleitores de Haddad e a outros iludidos por aí

Arnaldo Mourthé

Há pouco mais de uma semana escrevi o artigo: Questão de bom senso! É Ciro ou o caos! Nele analiso as contradições do voto do eleitor nesta eleição truncada, cortina de fumaça para esconder nossa realidade perversa. Voltaremos depois a essa questão.

O quadro político que vivemos está orientado para que não se expresse a verdadeira vontade do nosso povo: caminhar para uma sociedade mais justa de forma ordeira e pacífica. Ou seja, na qual sejam resolvidos nossos graves problemas humanos/sociais, com o diálogo aberto e sincero, baseado na verdade e na fraternidade. Tudo foi armado para que se acirrasse os ânimos e fossem ampliados os conflitos sociais e políticos. Assim, a verdade, escondida por falsidades de toda ordem e pela propaganda enganosa, não se revela. Podemos então sermos manipulados como boiada levada para o abatedouro, no caso mais precisamente para uma condição de colonos ou escravos de pequenos grupos de poderosos donos do dinheiro, diga-se de passagem, sem lastro ou simplesmente falso, como os juros da dívida pública.

Tudo parece dar certo para esses senhores sem face e sem alma. Mas não é bem assim. Há aqueles que não foram iludidos, ou alienados como dizem alguns, por essa máquina de lavagem cerebral que envolve poderosas instituições e uma mídia mercenária. Há ainda, e haverá sempre, pessoas lúcidas que viveram os horrores da ditadura e não se dobraram à prepotência nem à perfídia. Nós somos hoje os testemunhos vivos da história. Outros, que se foram, deixaram seus depoimentos em arte e verso para a eternidade. Não seremos iludidos nem deixaremos passar em branco as manipulações para enganar a opinião pública, nem a hipocrisia que permite a muitos passar por “gente fina”, enquanto apoiam  toda sorte de injustiças e perversidades.

Voltemos nossa atenção aos católicos que acreditam seguir os ensinamentos do Mestre Jesus e praticar as virtudes que ele nos ensinou. A maior delas foi “amar ao próximo como a si mesmo”, ensinamento que no espiritualismo é conhecido por “amor incondicional”. Essa virtude é a da compaixão, que dificilmente é praticada por causa do egoísmo gerado por nosso individualismo que rege nossa sociedade perversa. É esse individualismo que faz com que o cidadão deixa de sê-lo, ao abandonar sua unidade com os demais, aqueles com iguais direitos e deveres, por maior que seja a nossa diversidade. Esta se transforma em conflito que pode chegar à guerra, que destrói o próprio ser humano e o que ele construiu.

Essa deformação de nosso comportamento está acontecendo agora conosco, o que eu mostro no artigo referido acima, demonstrando que apesar de termos uma visão do interesse comum quando avaliamos a intenção de voto no segundo turno das eleições nós inviabilizamos essa possibilidade de satisfação de nossa vocação em defesa do Brasil em uma disputa irracional, com base no voto contra o outro, no lugar daquele em favor de uma causa justa e coletiva. Nós estamos jogando no lixo nossa oportunidade de sermos a comunidade de uma nação soberana, e tornando-nos presas fáceis de forças perversas que buscam a qualquer preço nos submeter.

O próprio Mestre Jesus que citamos acima, deixou, há dois mil anos, a fórmula para superarmos essa situação quando disse: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, mas preferimos escolher a mentira que nos escraviza. Mas isso não é culpa de cada um de nós em particular. Nós vimos sendo, há milênios, preparados para sermos assim. E já o fomos quando nós – enquanto a turba ignara de Jerusalém – escolhemos libertar Barrabás no lugar de Jesus, último recurso usado por Pilatos para amenizar seu ato desumano de lavar as mãos, diante do fundamentalismo dos sacerdotes do Templo. Esse ato de lavar as mãos vem sendo usado desde então de forma sempre dramática. Citemos apenas alguns casos:

O Vaticano repetiu o gesto de lavar as mãos, muitas vezes.  Fez acordo com Mussolini em 1938, evento que ficou expresso na construção, em Roma, da ‘via della Concilizione”. Tentou convencer a Polônia a ceder território seu a Hitler e lavou as mãos quando da invasão desse país, na ilusão de que o fuhrer destruiria o regime Soviético. Apoiou abertamente o golpe militar de 1964 no Brasil, liderando o movimento fascista “Pátria, Família e Propriedade” contra João Goulart, como se ele fosse comunista. Depois se arrependeu e apoiou a anistia, que favoreceu especialmente os militares criminosos. Vale lembrar seu compromisso histórico com o movimento “Tortura nunca mais”.

Agora, de novo, quer se colocar à margem da nova investida fascista nesta eleição, apesar de todas as manifestações do Papa Francisco em defesa da diversidade e contra a discriminação e a violência. Enquanto isso, o Bispo Macedo, protegido e protetor do capital financeiro internacional, desembarca com seu fundamentalismo religioso no outro fundamentalismo político, militar e econômico, para forçar a continuidade da bipolarização da eleição entre este e o PT. Não há santo nessa história. Os dois tratam de seus próprios interesses, enquanto conciliam com a mãe de todas as crises e do caos que nos ameaça, o capital financeiro internacional. Só não vê quem não quer. Aqueles que, embora não sejam beneficiários diretos do caos, se sentem seguros na sua falsa zona de conforto ajudam a demolir a Nação brasileira, a aprofundar a crise e a jogar a população na miséria e no abandono.

Acordem católicos! Chegou a hora da separação do joio do trigo. Quem anunciou isso foi o próprio Jesus Cristo. Chegou a sua hora de escolher: ser joio ou ser trigo? Entregar o país e seu povo indefeso ao fundamentalismo, ou reagir e fazer prevalecer o desejo da maioria da população: a unidade do povo brasileiro. Somente colocando Ciro no segundo turno derrotaremos o fascista e os fundamentalismos que o cercam. Teimar em manter o Haddad na disputa é suicídio. Além de não vencer o fascista, ele não tem a menor condição de enfrentar a diversidade que encontraria no governo, pois seu partido está comprometido até o pescoço com o capital financeiro e a corrupção que ele produziu. Informe-se antes de aceitar o suicídio.

A escolha é sua, a responsabilidade pelo que virá também. Não adiantará chorar sobre o leite que você mesmo derramou. Depois não venha colocar o culpa no outro. Não há mais espaço para a hipocrisia.

Rio de Janeiro, 03/10/2018.

21, setembro 2018 6:15
Por admin

Questão de bom senso! É Ciro ou o caos!

Arnaldo Mourthé

Em 13/9/2016, publiquei um artigo sobre a crise política de então, do qual transcrevo alguns trechos abaixo:

… “Se observarmos atentamente as posições das pessoas nas suas participações em manifestações ou através da imprensa, verificamos que as posições são na sua grande maioria contrárias a alguma coisa e não a favor de outras coisas.”… “Todas as posições poderão ser plenamente justificadas separadamente. Mas o conjunto delas demonstra uma tendência para a negatividade e não pela afirmação que se manifestaria por reivindicações claras”… “Tudo isso indica que é necessário que os brasileiros comecem a pensar mais positivamente, ou seja, a favor do atendimento de suas necessidades, inclusive da sua própria segurança e da Nação, em vez de buscar culpados pelo caos que vivemos sem qualquer conhecimento das causas mais profundas de tudo isso.”…

            … “Diante desse quadro, sugiro que passemos a pensar mais nas nossas necessidades e nas formas de atendê-las, a partir de melhores salários, na escola para nossos filhos, na saúde honesta e gratuita, como ocorre nos países europeus, no desenvolvimento econômico voltado para os interesses nacionais e na soberania da Nação brasileira que o povo nas ruas pediu em junho de 2013. Mas como obter tudo isso? Devemos trabalhar todos em função de programas de atendimento de nossas necessidades e de nossas vontades na medida da possibilidade de cada um.”

Mas não foi o que ocorreu. A paixão da luta gerada pelo impeachment da Presidente, fez cegar a maioria da população, que de lá para cá troca insultos, ofensas e acusações, ora fundadas ora não. A Nação havia sido dividida ao meio na eleição de 2014. De um lado o candidato da burguesia, que atendia os interesses dos mais agraciados. Do outro, a candidata mais popular, autointitulada de esquerda, que também defendia os interesses da grande burguesia, mas se cobria com o manto de uma política populista compensatória para aliviar o sofrimento dos mais pobres massacrados pelas elites e pelo capital estrangeiro.

Os dois enganaram o eleitorado e deu no que deu. A Nação dividida caminhou para o colapso. Estamos vivendo a pior de todas as crises, e muitos dos seus efeitos foram potencializados negativamente por nossa desunião. Estamos inertes em face de inimigos poderosos que constroem nossa dominação.

Agora, nas vésperas da eleição presidencial, o quadro dessa divisão se manifesta de forma dantesca. Parece o “inferno de Dante”. Parte da população tomou consciência dos riscos do radicalismo inconsequente que impera ainda entre nós. Vejamos como isso se manifesta nas pesquisas de intenção de voto dos eleitores. Os dois candidatos que representam os dois lados da divisão de 2014 polarizaram as eleições pelo caminho mais estapafúrdio, o da negatividade. Eles não são candidatos de programas construtivos. Alimentam-se da negação do outro, da forma mais grotesca, porque sem qualquer fundamento construtivo. Não entraremos aqui em questões políticas que só alimentaria a polarização, mas no seu aspecto destrutivo, das instituições, da Nação, e da sociedade que as criou. Qualquer que seja o resultado da eleição, a favor de um ou de outro dos polarizados será um desastre. Qualquer homem comum pode verificar isso. Vamos apenas dar alguns sinais para evidenciar isso.

A última pesquisa de opinião do IBOP já indica um fato que arrepia o analista. O percentual de rejeição dos dois primeiros colocados nas pesquisas, aqueles que polarizam a campanha, cada um se colocando como o bem, enquanto o outro representa o mal. A intenção de votos para os dois no segundo turno é menor que sua rejeição pelo eleitorado. Isso quer dizer que, mantida essa situação, o futuro presidente seria recusado pela grande maioria dos brasileiros. Como enfrentar a gigantesca crise que atravessamos com um presidente sem o respaldo da população. Não faremos qualquer observação sobre a pessoa ou a representação política dos candidatos. Apenas relatamos o juízo que o eleitor faz deles. Os dois que estariam no segundo turno se a eleição fosse hoje não representam o eleitorado brasileiro.

Isso não quer dizer, necessariamente, que a eleição seja a negação da instituição que os políticos e juristas gostam de chamar de Estado de Direito. As pesquisas de intenção de voto mostram apenas que o sistema eleitoral é  falho e pode produzir uma aberração, mesmo que na contagem de votos não haja fraude.

O interessante é que a pesquisa de outra entidade, a Datafolha, confirma  a do IBOP, com pequena divergência nas hipóteses de outras candidaturas no segundo turno, que não seja necessariamente os dois primeiros colocados na pesquisa. No confronto entre cada um dos primeiros colocados nas pesquisas com o candidato Ciro Gomes, este ganha dos dois. Na da Datafolha, posterior à do IBOP, a diferença a favor de Ciro é maior. Para um analista atento, isso significa que Ciro tende a crescer e que há pelo menos em torno de 30% do eleitorado com  bom senso no Brasil, número de migrações para Ciro, no segundo turno, de eleitores que hoje  votam em outros candidatos pelas mais variadas razões.

Esse fenômeno só ocorre de forma clara com o candidato Ciro Gomes. Ele evidencia a preocupação dos eleitores com a vitória de qualquer dos dois que polarizaram a eleição. Mas de nada adianta esse bom senso depois do desastre ocorrer no primeiro turno, pois estariam no segundo turno somente os dois atuais primeiros colocados no primeiro.

Esclareço que não tenho compromissos eleitorais nem trabalho para nenhum dos candidatos. Optei por ficar fora do jogo eleitoral, por razões que não cabe aqui explicar. Mas pela minha experiência de mais de meio século de política no Brasil, e fora dele – em comprimento de missões políticas – não me permite alhear-me desse evento fundamental para o Brasil, em momento tão doloroso. Se as pessoas de bom senso, mobilizadas nas  campanhas periféricas e, até mesmo, alguns daqueles que apoiam os candidatos rejeitados pela maioria da população não reverem suas posições, aliando-se com Ciro, provavelmente teremos uma catástrofe: um país ingovernável por falta de confiança da população nos seus representantes. Já estamos vivendo o mais doloroso momento do Brasil agravado pelo desgoverno que está destruindo nosso Estado e nossa Sociedade, ou seja, nossa Nação.

Apelo a todos para a uma reflexão. Cometido o erro que apontamos, não adiantará chorar sobre o leite derramado.

Rio de Janeiro, 21/9/2018.

18, setembro 2018 6:05
Por admin

 

A transmutação

Arnaldo Mourthé

A condição caótica que a humanidade atravessa ultrapassa a compreensão da maioria das pessoas. Tudo que parecia ter uma lógica, mesmo que ela não atendesse nossas expectativas, já nos parece confuso e contraditório. Nossa percepção está correta: tudo está confuso e contraditório. Isto é, nossa competência tornou-se insuficiente para analisar as situações, mesmo aquelas às quais estávamos habituados. Os que se consideravam sábios, são os mais confusos. Suas observações, consideradas anteriormente sábias, tornaram-se frágeis, incapazes de explicar aquilo que anteriormente eles pareciam dominar no plano teórico, da razão. Quando insistem nos seus supostos conhecimentos, tornam-se dogmáticos, autoritários e irrecorríveis, avessos ao contraditório.

O futuro parece-nos nebuloso, mesmo indecifrável. Seria o “fim dos tempos”? Essa expressão, encontrada em textos bíblicos, e repetida por muitos sem qualquer reflexão, assusta alguns. Há quem tire proveito disso “vendendo” o Céu para pobres crentes. O “Fim dos tempos” não é o fim do Mundo. Trata-se realmente de certo tempo, certa época, certa condição. O termo Apocalipse, usado como catástrofe, não tem esse significado da sua origem, que é Revelação. Um momento de revelação, onde a verdade será conhecida. Simples assim. Esse é o novo tempo do fenômeno da transmutação, a superação de uma condição para alcançar outra condição superior.

O fato é que vivemos um tempo de mudanças radicais. Alguns podem não saber, mas tudo que existe, da luz mais sutil à matéria mais densa, é energia. Foi esse conhecimento que levou Einstein a formular a relação entre matéria e energia na sua conhecida fórmula E=mc², que permitiu aos cientistas construírem a bomba nuclear, triste decisão. Sendo tudo energia, como podem existir tantas coisas diferentes? Simplesmente pelo nível de vibração da energia. A cada nível de vibração ela se manifesta de uma maneira diferente, da matéria mais inerte à luz mais sutil. Há muitas coisas que não conseguimos compreender, pois nosso saber está restrito à condição na qual vivemos e a nossas experiências. A partir de certo nível de vibração da energia é possível ocorrer a vida como nós a conhecemos, os micro organismos, as plantas, até o ser racional que é o homem. Mas há vida além dessas que conhecemos. São os espíritos nas suas mais diversas expressões. Tudo isso forma o Universo ou os universos, como formulam alguns.

Sem esses conhecimentos e outros que podemos alcançar não é possível interpretar de forma correta o que ocorre no Planeta Terra. A crise que vivemos no Brasil está em todo o Planeta, em manifestações tão diversas que alguns não percebem a crise. Isso porque ela não é só financeira, econômica, institucional, ética e moral, mas uma crise de mudanças de condições vibracionais do próprio Planeta, e mais que isso, de parte do Universo. Entretanto, isso não significa que nós não tenhamos responsabilidades na crise que vivemos, porque nossa ignorância trava sua solução. Nós fazemos parte do Planeta. Nossos pensamentos, que são vibração energética, atuam sobre a Natureza e, sobretudo, sobre as outras pessoas imobilizando-as nos seus pensamentos errôneos e dogmas, crenças infundadas. Essas pessoas mantêm a vibração da condição anterior, na qual vivíamos, impedindo que a nova condição de vibração superior se imponha alterando as conflituosas que nos mantêm indefesos diante do egoísmo dos dominadores, que fazem de nós joguetes e nos escravizam.

O caos que estamos vivendo ainda existe devido à nossa ignorância que nos leva a atitudes negativas, principalmente ao conflito com os outros, nossos semelhantes e com a própria Natureza. Hoje, no Brasil, esse conflito se manifesta na sua forma mais expressiva nos embates eleitorais. No acirramento das vontades, sem verdadeiros fundamentos, gerados por nossas ilusões. Essas nos são impostas, desde nosso nascimento quando nos deparamos com preconceitos que nos são incutidos de forma sistemática por um sistema perverso, ao qual não escapam nem as pessoas de boa vontade e nossos familiares que nos criam com tanto amor. A alienação é sistêmica. Não vou citar exemplos para não ofender a pessoas de boa fé, nas suas mais variadas crenças que incluem pensamentos errôneos inoculados nos seus cérebros, de tal forma que parecem a mais pura verdade.

Prezados amigos. Parece que o Apocalipse catástrofe chegou para nós, mas isso é apenas mais uma ilusão. O que chegou é a Revelação. É a esta que Jesus de Nazaré se referia ao afirmar conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Essa libertação implica em outro fenômeno a que ele se referiu como a separação do joio do trigo. Está apenas em nossas mãos  alinharmos com a fraternidade e conseguirmos nossa libertação, ser o trigo, ou com o egoísmo e escolher ser o joio.

Rio de Janeiro, 14/9/2018.

07, setembro 2018 10:35
Por admin

“O quinto dos infernos”

Arnaldo Mourthé

Nos primórdios da colonização do Brasil D. João III decidiu conceder a exploração do território a pessoas de sua confiança e com posses, capazes de fazer os investimentos necessários a tamanha empreitada. Isso se deu nos anos de 1534 a 1536. Assim foram criadas as capitanias hereditárias, concessões territoriais aos donatários, seus governadores, com o poder de explorarem suas riquezas, mas sem direito de propriedade das terras. Para tal ele usou dois instrumentos jurídicos, a Carta de Doação, que concedia a posse e a Carta Foral, que explicitava direitos e deveres dos donatários. Foram doze donatários para as quinze capitanias criadas. A eles foi conferido o direito de escravizar os índios, para os trabalhos na lavoura ou para enviá-los a Portugal, nesse caso em número limitado. Lhes era garantido o direito de cobrar 10% sobre as pedras e metais preciosos retirados de seu território e o dever de recolher mais 20% para a Coroa portuguesa. A liberdade do donatário era enorme. Ele administrava e explorava o território, tinha o poder de subconceder terras para exploração a terceiros e de combater os intrusos ou os índios que impedissem as ações de colonização.

No período da exploração do ouro na região das Minas, de onde veio o nome do Estado, Minas Gerais, foi mantido o tributo de 20% do valor de todo ouro ali extraído. A riqueza era enorme. Apenas a região das Minas produzia mais ouro que todo o resto do mundo. Daí a riqueza do Império português. Ouro preto era a segunda maior cidade do Império, depois de Lisboa. Era também a segunda maior cidade das Américas, depois da cidade do México,  construída sobre a capital do Império Asteca. O Brasil não apenas financiou a expansão do Império português como enriqueceu os banqueiro da Inglaterra e dos Países Baixos. Dali adveio a força do sistema financeiro mundial  que hoje invade o mundo por toda parte na tentativa de dominá-lo.

Com a redução das minas de aluvião, as catas, e o impedimento da criação de indústrias necessárias para a produção de equipamentos para a perfuração de minas e buscar o ouro nas entranhas da terra, como mais tarde se fez e até hoje se faz. Houve uma grave crise econômica nas áreas de mineração. A indignação dos mineiros produziu o momento independentista Inconfidência Mineira, que todos nós devemos conhecer. Mesmo assim o quinto do ouro foi mantido a ferro e fogo. Os catadores se arruinavam e a economia se estagnava. Quando da cobrança do tributo, o contribuinte costumava dizer: “Vai buscar o quinto nos infernos”. Daí surgiu a expressão “quinto dos infernos”, o imposto cobrado para a Corte portuguesa, título deste artigo.

Apesar dos tributos à Corte e dos 350 anos de escravidão o Brasil se fez Nação. Mas nossa nação está sendo demolida pelo novo “quinto dos infernos”, que são os juros da dívida pública brasileira. Os Inconfidentes de insurgiram contra a cobrança do quinto do ouro. Mas o Brasil continuou a trabalhar para manter-se e crescer, além de alimentar os vampiros internacionais. Não fosse essa espoliação seria uma das nações gigantes do Planeta. Mas a espoliação cresceu exponencialmente. Nós não pagamos apenas o “quinto do ouro” e dos outros metais e pedras preciosas. Nós pagamos “o quinto dos infernos” sobre tudo o que nós produzimos, mercadorias ou serviços. Essa situação fez com que nossos serviços públicos se deteriorassem e nosso patrimônio, público e privado, vendido ao capital estrangeiro. Somos hoje uma nação ocupada pelo capital financeiro, fonte da epidemia de corrupção que demole e desagrega o País. Se você duvida do que afirmei acima, informe-se sobre a dívida pública e suas consequências, e a participação do capital estrangeiro na nossa economia.

A queima do Museu Nacional não foi por omissão ou descaso de gestores ou funcionários. Pelo contrário, eles se sacrificaram durante muitos anos para mantê-lo funcionando. Ela foi produzida pela demolição do Estado e da Sociedade, de forma deliberada pela ganância dos investidores e a corrupção de políticos e formadores de opinião.

Nós já nos referimos à Inconfidência Mineira. Lembremo-nos também dos abolicionistas que combateram a escravidão. Foram muitos. Para representá-los, transcrevo abaixo pequenos trechos de dois poemas de Castro Alves, “Navio negreiro” e “Vozes d’África”.

 

Navio negreiro

Senhor Deus dos desgraçados!  
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados  
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz? 

                        *

Vozes d’África

Deus ó Deus! Onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

A resposta virá, embora muitos não creem. E é para já!

Rio de Janeiro, 05/9/2018.

 

03, setembro 2018 7:08
Por admin

Que o Museu Nacional seja o último patrimônio do Brasil a ser queimado!

Arnaldo Mourthé

Dia 2 de setembro. Um nova data da coleção das tragédias nacionais. O fogo devastou o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Terá sido acidental o sinistro? Não o foi. Ele era previsível, dado o descaso das autoridades para com a coisa pública. Ainda há a hipótese que tenha sido criminoso. A proliferação das chamas foi de uma rapidez difícil de ser compreendida. Basta observar o prédio do alto. Um edifício com aquela extensão não poderia ser todo alcançado pelas chamas em tão pouco tempo, considerado o relato de quem acionou o corpo de bombeiros e a presteza do atendimento à chamada: seis minutos. Mas essa é uma questão de polícia, embora seja de nossa responsabilidade investigá-la. A proporção do evento e seus significados nos impõe esse cuidado.

O Museu Nacional não é um caso isolado. Ele é um ponto de uma enorme série de eventos que visam destruir nossos patrimônios públicos, para desorganizar nossa sociedade, a fim de prepará-la para aceitar a submissão ao atual candidato a ser nosso senhor. O primeiro senhor foi a Coroa portuguesa, que o fez através das Capitanias Hereditárias, que implantaram a escravidão no Brasil, primeiro dos índios, o que não conseguiram viabilizar, depois dos africanos capturados ou comprados dos reis tribais que os capturavam de outras tribos. Instituiu-se um sistema escravista que se manteve por 350 anos. Depois foram os barões, da cana, do ouro e do café, que constituíram uma casta, que deixou como descendentes uma elite  calhorda que insiste que o Brasil é propriedade dela.

Dos senhores de engenho aos barões do café, as castas que dominavam o Brasil pela concessão ou propriedade das terras viveram da aliança com o explorador estrangeiro, cortes, traficantes de escravos e mercantilistas de toda espécie, para a espoliação do povo brasileiro e do nosso território, pródigo em madeiras, produtos agrícolas, ouro e pedras preciosas, e minério de toda espécie.

Houve um momento que a população se viu tão humilhada e espoliada, que se lembrou dos Inconfidentes Mineiros e revoltou-se. Isso foi na segunda década do século XX. Começou com a greve geral em São Paulo em 1917, onde já havia um embrião da classe operária nascida da recente industrialização e da urbanização consequente. Na segunda década do século XX, a indignação manifestou-se nas revoltas dos tenentes pelo Brasil afora, e nos movimentos dos intelectuais, cuja maior expressão foi a Semana da Arte Moderna de São Paulo, em 1922.

O Brasil amadurecera para tomar conta de seu destino. A crise econômica de 1929, que se iniciou nos EUA, faliu cafeicultores e banqueiros. Os “barões do café” desesperado tramaram manterem-se no poder para aplicar uma política financistas que os beneficiasse e os tirasse da crise, com mais sacrifícios da população trabalhadora, operários e classe média. Fraudaram a eleição a favor de seu candidato. A população se indignou e os estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais decidiram intervir. Houve a Revolução de 30, que deu um rumo ao Brasil buscando a industrialização e a proteção do trabalhador, através de uma política social, priorizando a educação, a saúde e a legislação social, através das leis trabalhistas e da Previdência Social, e da extensão às mulheres do direito ao voto.

A elite calhorda desbancada do poder não se conformou. Aliou-se a interesses estrangeiros e, juntos, investiram contra os presidentes progressistas, especialmente, Getúlio e Juscelino. Uma conspiração alimentada pela corrupção levou Getúlio ao suicídio e, mais tarde, tentou impedir a posse de Juscelino. Quando sua tentativa da elite de voltar ao poder tropeçou no rompante de Jânio, que ela conseguiu eleger contra o general Lott, mas que não conseguiu governar por contradições internas de seus apoiadores. Sobrou o governo para Jango que tentou resgatar a política social e de desenvolvimento de Getúlio. Veio o golpe de Estado com apoio ostensivo das corporações internacionais e do próprio governo dos EUA. Depois disso todos conhecem a história. A ditadura, com sua atrocidade e obscurantismo, e os governo que vieram depois, controlados pelos deputados corruptos da elite e pelo capital financeiro que financiou desde FHC à tragédia nacional de hoje. Daí para cá começou a ser queimado nosso patrimônio.

Tudo começou o ataque sistemático à Constituição de 1988, que Ulisses Guimarães via como a “Constituição Cidadão”, mas FHC como um obstáculo a seu projeto de entregar o Brasil ao controle da capital financeiro internacional, classificando todos que a apoiavam de “dinossauros”, no sentido de pré-históricos. Para ele a história deveria começar com o neoliberalismo que escraviza todos aos interesses do capital financeiro. Implantou um projeto de “queima” do patrimônio nacional, público e privado. O capital financeiro comprou tudo, como o os votos dos congressistas para as reforma da constituição, incluindo a da reeleição, e a mídia, que já era dominado em grande medida pelas corporações controladas por ele.

A corrupção torou-se endêmica, infiltrando no público e no privado, especialmente na mídia, que tornou-se dócil e manipulada para enganar a população. Criou-se condições  favoráveis para desmantelar o poder político, submetido ao corruptor, o aparelho de Estado e a economia nacional, que passou a ser fornecedora de “commodities” , minerais e alimentos, que geram os dólares que voltam para sua origem como pagamento dos lucros e juros obtidos pelo capital estrangeiro, sem fronteira e sem lastro: dinheiro falso. Foi criada uma monumental dívida pública para aprisionar os governantes ao capital financeiro e para consumir o orçamento, obtido através de impostos pagos pelo trabalho mal pago do brasileiro.  Os juros da dívida foram comendo todos os impostos e destruindo os serviços públicos. O patrimônio público se  deteriora e as pessoas ficam desassistidas. O déficit orçamentário torna-se volumoso, o que serve de argumento para vender todos os patrimônios públicos. Até o que está debaixo da terra ou do mar, como o petróleo. Querem privatizar o sistema elétrico e com ele as nossas águas fluviais. Fala-se até um privatiza o aquífero Guarani, uma das maiores riquezas da Terra. É a política da terra arrasada. Os números do desmonte espanta o mais pacato do cidadão. As pessoas não reagem porque não conhecem nossa realidade, e não têm nem capacidade para acreditar no que está acontecendo.

O desmonte vai além do patrimônio. Atinge toda a sociedade, a todas as famílias, a todas as pessoas. Mesmo os privilegiados, pois estão deixando de ter uma Pátria. Eles aceitam a condição de vassalos do dominador, o capital financeiro internacional. A saúde, a educação, a cultura,  a qualidade vida, a natureza, a moral, tudo se degrada. A ética não é mais  considerada, pois não há mais respeito ao outro. A mídia é o segundo maior instrumento dessas atrocidades, depois do dinheiro da corrupção.

Esperemos que, ao ver queimado o Museu Nacional, a população acorde de seu sono, que parece eterno, e que dê um não a tudo isso. Que a intelectualidade acomodada no seu aparente conforto acorde também. Ela não escapará ao desmonte. Não serão apenas aqueles que perderam seus empregos as vítimas do capital financeiro nacional e internacional. Seremos todos nós. Está na hora de decidir. Nós ou eles?

Rio de Janeiro, 03/9/2018

02, julho 2018 3:26
Por admin

Prezados amigos,

Realmente a situação do Brasil nunca foi pior que neste momento. Nossas instituições desmoronam. A população está perplexa diante da crise que nos assola, no poder, na moral, na economia. O Estado está falido. Não arrecada o suficiente para pagar os juros da dívida que acumulou ao longo das últimas cinco décadas, aceleradamente a partir de 1995, com o governo de FHC. Soma-se a ela a venda dos nossos patrimônios mais valiosos, desde então, e o desmonte dos serviços públicos. Os últimos governos cumpriram à risca o projeto de destruição do Estado brasileiro ali elaborado. Nenhum deles teve a coragem de resistir à entrega do país, para reduzi-lo a uma colônia do capital financeiro. Os escândalos que vemos vêm revelando isso.

O governo Temer, cria da aliança do PT com o PMDB contra o povo brasileiro, veio para decretar a falência do Brasil e entregá-lo impotente ao capital financeiro internacional que fez das nossas “elites” econômicas e políticas seus vassalos. Ele tudo corrompe, formadores de opinião, em especial, e todos que possam ser úteis a seus serviços macabros. Há uma grande indignação, mas as pessoas não sabem como encontrar uma saída. Os que poderiam resistir encolhem em sua condição de “conforto”, como se ele fosse possível no caos. Uma postura de cumplicidade. A maioria são “pobres coitados” iludidos. Grande parte deles está alienada: não têm noção da realidade pela desinformação sistemática, através dos meios de comunicação e outros.

Nesse quadro a extrema direita se mobiliza, numa atitude oportunista envolvendo caminhoneiros desavisados, para pregar a intervenção militar. São saudosistas da ditadura militar e ingênuos a serviço do que a humanidade criou de pior, o sistema financeiro internacional, dominado por uma sociedade secreta conhecida como “Cabala escura”. Seus dirigentes estão desesperados com a quebra próxima do sistema financeiro que usam para dominar o mundo. Seu projeto fracassou e seus dias estão contados. O que eles fazem são ações de desespero, que envolvem corrupção, guerras de conquistas e desmantelamento das instituições criadas pela humanidade criativa e respeitosa para com o próximo.

Não há solução para esse impasse que passe pela violência. Esta é uma de suas armas prediletas, junto com a corrupção e a desinformação, para manter a humanidade na obscuridade. Mantendo-nos ignorantes eles reinam, impondo o que querem. O grande exemplo moderno do combate a eles foi a luta de Gandhi pela libertação da Índia, baseada no apego à verdade e na não violência. O que os intervencionistas querem é o contrário disso: é o golpe violento, a desorganização da sociedade e a imposição de uma Nova Ordem Mundial, dos banqueiros, isto é, da “Cabala escura”.

Para refrescar a memória envio em anexo o capítulo de meu livro História e colapso da civilizaçãoAs ditaduras como solução para a expansão capitalista. Foi na ditadura que todo esse processo começou. FHC apenas o retomou, de forma mais sofisticada e o transferiu para Lula promotor dos governos Dilma e Temer.

Se você quer que seus descendentes tenham uma Pátria e uma vida digna, chegou a hora de informar-se para ter condições de defender nosso futuro como pessoas e como nação.

Um grande abraço,

Arnaldo Mourthé

 

Capítulo sobre as ditaduras 

As ditaduras como solução para a expansão capitalista

O êxito do golpe militar no Brasil levou os estrategistas americanos a adotar, nos países em que encontravam dificuldades para impor suas políticas de dominação, a mesma forma de intervenção. Deixaram, por uns tempos, sua máscara de arautos da democracia e da liberdade, para se associar às elites impatrióticas dos países periféricos, com o objetivo macabro de destruir seus projetos de desenvolvimento soberano. Logo depois, em 1965, foi desfechado o sanguinário golpe na Indonésia, que produziu cerca de 700 mil mortos (78). Em 1973 ocorreram os golpes do Chile e do Uruguai e, em 1976, da Argentina. Para melhor compreender a natureza dos regimes militares implantados por toda parte, sob inspiração e ajuda direta dos Estados Unidos, vamos analisar sumariamente o que foi a ditadura militar no Brasil.

Nós vimos que o golpe de Estado de 1964 foi executado por uma aliança do capital estrangeiro, das classes sociais brasileiras mais retrógradas e privilegiadas, e de um grupo de oficiais golpistas da forças armadas, que haviam estabelecido uma ligação privilegiada com os comandos americanos durante a Segunda Guerra Mundial. As alegações do perigo vermelho (comunismo) contra nossos valores cristãos, para justificar o golpe, foram analisadas e desmoralizadas, da mesma forma que as das armas de destruição em massa de Sadam, mais recentemente. Mas, no poder, os militares precisavam algo que justificasse tamanha iniquidade.

As primeiras ações do governo foram de repressão, muito além de qualquer justificativa de segurança do poder usurpado. Em 9 de abril de 1964, a junta militar, composta pelo general Artur da Costa e Silva, tenente-brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo e o vice-almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald, editou o Ato Institucional que concedia ao governo militar o poder de alterar a Constituição, investindo-se de Poder Constituinte. O mesmo ato convoca eleição indireta para a Presidência da República para 11 de abril, e se autodenomina Revolução, um acinte à verdade histórica com o uso da semântica como instrumento de fraude linguística. No dia seguinte foi publicada a primeira lista de cassações com 102 nomes, 41 deles deputados federais. Estavam ali as mais proeminentes figuras políticas, militares e intelectuais da sociedade brasileira. Essa brincadeira continuou por mais de cinco anos. Até 14 de outubro de 1979 foram editados dezessete Atos Institucionais, que destruíram a Constituição, atingindo profundamente os princípios republicanos de segurança, liberdade e equidade. A prática política passou a ser aos amigos tudo, aos inimigos a Lei tirânica, feita especialmente para eles. Foi um período negro da história do Brasil. Vejamos como isso ocorreu.

Os meses de abril e maio de 1964 foram de prisões em massa, arbitrárias e clandestinas. Mesmos os atingidos, como eu, não havíamos apreendido o alcance de todas aquelas brutalidades e aberrações. Aos poucos, foi-se desenhando para nós o quadro da tragédia nacional, dirigida por uma brutal interferência estrangeira nos assuntos internos do nosso país, cujo objetivo era moldar o mundo aos seus mesquinhos interesses. Até poucos anos atrás, muitos brasileiros quase nada sabiam sobre o que havia acontecido no Brasil no período da ditadura. Isso nos impõe algumas revelações pessoais e a rememorar alguns fatos que não deixam dúvidas sobre a natureza desumana e antinacional da ditadura. Vamos a eles.

Quando eu preparava um dossiê para solicitar minha anistia, nos termos do artigo 8° das Disposições Transitórias da Constituição, não consegui obter junto às autoridades de Minas Gerais um único documento que comprovasse minha detenção em abril de 1964. A alegação era de que os arquivos haviam desaparecido. Consultando todos os jornais de Belo Horizonte, no período de 1° de abril a 15 de maio, não encontrei nenhuma notícia sobre prisões em Belo Horizonte. Nesse período foram publicadas apenas duas notas sobre a matéria. Uma se referia a um ex-militar, que teria sido preso sob suspeita de ser ligado a Leonel Brizola. A outra tratava de especulações sobre o paradeiro do próprio Brizola. Como o documento que eu procurava tornou-se uma exigência da Comissão de Anistia, sob a alegação de que “qualquer ato de prisão deve ter uma decisão judicial” – seria isso ingenuidade? –, voltei às autoridades, dessa vez ao próprio secretário de Segurança Pública. Ele foi sincero. Afirmou que os documentos relativos às prisões haviam sido queimados por alguns policiais, ainda sob a proteção da ditadura, para evitar futuros processos das vítimas contra o Estado pelas arbitrariedades cometidas. Ele também disse haver um documento que listava os nomes das pessoas detidas, que fora feito para comunicação às autoridades militares.

Mediante um requerimento consegui receber parte do documento, que continha os nomes iniciados pela letra “A”. Datilografado com certa competência, no seu cabeçalho vem escrito:

 

RELATÓRIO, 30-7-1964. Relação dos esquerdistas e agitadores detidos pelas autoridades revolucionárias em BELO HORIZONTE, de 1° de abril até a presente data, todas registradas no DOPS.

 

Nele constam 51 nomes com inicial “A”. São profissionais liberais, comerciantes, professores, estudantes, operários, funcionários, sindicalistas, etc. Alguns de renome na cidade, mas nenhum deles mereceu uma linha sequer dos jornais de Belo Horizonte. Tudo se passava como se a vida transcorresse na mais absoluta paz e normalidade. Para mim, apesar de acostumado aos desmandos ditatoriais, à prisão, à tortura e ao exílio, foi um choque. Mas como? A imprensa não disse nada? Onde estava a tão decantada liberdade de imprensa?

Houve exceções, como foi referido no capítulo anterior. Assim como a bravura do Correio da Manhã, cujos proprietários, diretores, editores e jornalistas, pagaram o preço de perderem o jornal, o emprego e a liberdade. Mais tarde, alguns deles puderam ser encontrados no exílio, como a proprietária Niomar Moniz Sodré Bittencourt, seu irmão Edmundo Moniz e outros. Quando eu ainda me encontrava preso no Dops do Rio de Janeiro, um grupo de prisioneiros conseguiu passar para fora da prisão depoimentos sobre suas prisões e torturas sofridas. Esses depoimentos, de próprio punho, foram fotografados e publicados pelo Correio da Manhã de 18 de setembro de 1964. Os autores das denúncias foram: Raul Alves do Nascimento Filho, ex-diretor da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil; Avelino Capitani, fuzileiro naval; José Lima de Azevedo, estudante angolano; Antônio Geraldo Costa, cabo da Marinha; Arnaldo de Assis Mourthé, engenheiro; Severino Vieira de Souza, marinheiro; Leo Gomes de Oliveira, coreógrafo; Guido Afonso Duque de Norie, bancário do Banco do Brasil e estudante da Faculdade Nacional de Direito; Cosme Alves Ferreira Neto, industrial. Na apresentação das denúncias o Correio da Manhã fala da intenção do advogado de alguns desses prisioneiros, Ekel Luis Sérvio de Souza, de recorrer à Justiça,

 

[…] e coloca as fotocópias desses documentos à disposição do general Ernesto Geisel, chefe do Gabinete Militar da Presidência, que está investigando as denúncias sobre tortura nos estabelecimentos militares do país (22).

 

A tortura não foi contida, mas reduzida por um período de acomodação da opinião pública. Mais tarde ela voltaria mais brutal, quando os assassinatos políticos tornavam-se rotina para os órgãos de repressão da ditadura.

 

* * *

 

O Ato Institucional n. 2, editado em 27 de outubro de 1965, desbaratou os partidos políticos, abrindo caminho para a criação do sistema bipartidário, com a Arena e o MDB, popularmente apelidados de “partido do sim” e “partido do sim senhor!”. Os sindicatos estavam sob intervenção; o movimento estudantil entregue aos asseclas dos golpistas; a maior parte dos líderes políticos mais expressivos presos, exilados ou na clandestinidade. Abriu-se assim o caminho para a política econômica entreguista dos golpistas udenistas.

O ministro do Planejamento, Roberto Campos, conhecido defensor do capital estrangeiro, coordenou o projeto da reforma econômica. Suas principais medidas foram:

 

  1. a) Eliminar a estabilidade do trabalhador e criar o FGTS.
  2. b) Limitar o reajuste dos salários dos trabalhadores a 50% da taxa de inflação.
  3. c) Incentivar o mercado de capitais com a aplicação plena da correção monetária no cálculo de rendimento das Letras de Câmbio.
  4. d) Criar para o contribuinte do imposto de renda a opção de investir parte desse tributo devido, 10% para pessoa física e 5% para pessoa jurídica, recolhidos ao fundo 157, para aplicação em ações de “empresa de capital aberto”, nova figura jurídica também criada pela ditadura.
  5. e) Criar o Banco Central, para centralizar o controle do sistema bancário, e fazê-lo operar de acordo com a política econômica oficial.
  6. f) Criar o Banco Nacional de Habitação, para gerir os recursos do FGTS e, posteriormente, da caderneta de poupança.
  7. g) Permitir às empresas, nacionais e estrangeiras a captação no exterior de empréstimos em moedas conversíveis (84).

 

Vejamos os resultados dessas medidas, através das estatísticas do IBGE, da FGV e do Bacen.

– A concentração de renda aumentou. Em 1960, a metade mais pobre da população detinha 17,4 % da renda nacional. Em 1980 essa participação caiu para 12,6%. Um por cento da população mais rica ficou com 11,9% da renda nacional em 1960, que aumentou para 16,9% em 1980.

– A dívida externa líquida brasileira, que era de 2,5 bilhões de dólares em 1964, passou para 85,4 bilhões em 1985.

– O fluxo do capital estrangeiro para o Brasil, que vinha crescente com as vantagens oferecidas pelo governo, alcançou 1.794,7 milhões de dólares em 1981. Com a crise cambial que se iniciou naquele ano, ele foi caindo até chegar a 793,9 milhões em 1985. As remessas de capitais cresceram de 369,6 para 1.051,3 milhões de dólares, no mesmo período. Em 1981 o saldo do fluxo de capital foi positivo, de 1.425,1 milhões de dólares. Já em 1985 ele foi negativo, de -257,4 milhões de dólares.

– A Renda Líquida Enviada ao Exterior (serviços da dívida, lucros de empresas estrangeiras, etc.) passou de 1% do PIB em 1974 para 6,3% em 1983.

– A inflação medida pelo IGP acelerou de 41,2% em 1976 para 225,5% em 1985.

– Segundo o Dieese, o salário mínimo real caiu 38,9% entre 1964 e 1976.

A partir dessas estatísticas, e de outros dados não reproduzidos aqui, eu já havia chegado a algumas conclusões na década de 1980, que reproduzo a seguir.

 

Dessas medidas, resultou a mobilização da poupança privada, produzindo a concentração de capitais nas sociedades de capital aberto, dinamizando os investimentos industriais. O consumo cresceu com o crédito fácil. As construções, financiadas pelo BNH, se expandiram, atuando como principal motor da economia.

Dessa forma, o país saía da crise iniciada em 1959, com o esgotamento do modelo de substituição das importações, com maior concentração e centralização de capitais, com distribuição de renda mais injusta, com fluxo crescente de capital estrangeiro buscando os favores governamentais e a mão de obra cada vez mais barata. Deu-se início assim ao período do chamado “milagre brasileiro”, nascido no biênio 1967-68.

A crise de crescimento da economia foi superada, mas se manteve o latifúndio improdutivo, a miséria agravou-se no campo expulsando o camponês, que veio inchar as cidades; surgia a figura do “boia-fria”; a exportação de lucros das empresas estrangeiras aumentou; a devastação das matas acelerou-se; a poluição grassou; a qualidade de vida nas cidades maiores deteriorou-se; a dependência do petróleo importado aumentou com a industrialização acelerada; o trabalhador empobreceu com a redução de seu salário real, passando a viver do salário familiar, ajudado pela mulher e os filhos; as crianças e jovens abandonados vieram engrossar a delinquência juvenil e fornecer mão de obra para o crime organizado (84).

 

* * *

 

Vimos que a ditadura não passou no teste da política econômica e na sua prática social. Mas sua ação política foi mais desastrosa ainda. Ela criou uma ruptura na nossa história, cerceando a liberdade e bloqueando o processo de formação da nossa consciência de nacionalidade. O período anterior à ditadura foi demonizado, pintado com as cores preconceituosas da ideologia engendrada para justificar a guerra fria. A repressão foi o instrumento mais usado para alcançar seus objetivos, quando não faltaram a coação, a violência desnecessária, a tortura, a chantagem e o assassinato político. Nós vimos que a repressão dos primeiros dias da ditadura fora desproporcional à resistência ao novo regime. A população não estava satisfeita, mas os militares obtiveram um confortável apoio das camadas mais ricas da sociedade, e dos partidos que representavam os interesses dos empresários e dos proprietários de terras. A Igreja, através de seus setores mais reacionários, havia apoiado o golpe, na sua visão mesquinha do combate ao comunismo satanizado. Esses setores da sociedade levaram consigo parte significativa das classes médias no apoio à ditadura, que a imprensa alardeava ser uma revolução redentora.

As ações contra a ditadura, nos seus primeiros anos, foram praticadas por setores mais radicais da juventude e por militares punidos e perseguidos. Apesar de algumas ações armadas, esses grupos não ofereciam perigo para o poder. A mais importante dessas ações talvez tenha sido a do capitão Carlos Lamarca, ao retirar do quartel onde servia um caminhão de armas leves. Os revoltosos não tinham poder de fogo para enfrentar as forças armadas e não conseguiram o apoio necessário da população para ações mais eficazes. O crescimento da economia estava levando grande parte da classe média que se opôs ao golpe de Estado a acomodar-se, por seus bons salários e para evitar complicações com inimigo tão poderoso. Isso reduziu o espaço dos grupos de resistência nas cidades, o que os levou a agir a partir do campo. Entretanto, grupos poderosos dos quartéis e do governo viam, ou fingiam ver, inimigos por toda parte. Afinal, era preciso justificar tão brutal repressão.

Em março de 1968, militares radicais invadiram o restaurante estudantil do Calabouço para reprimir uma manifestação contra o aumento das refeições. O aspirante Aloísio Raposo, que comandava a tropa, disparou sua arma à queima-roupa contra o estudante Edson Luís de Lima Souto, de 17 anos, matando-o. No dia 2 de abril foi celebrada a missa de 7° dia em intenção a Edson Luís, na Candelária. A cavalaria da polícia investiu contra os que saíam da igreja, estudantes, populares, padres e jornalistas. Os movimentos de protesto se espalharam, tendo Edson Luís como bandeira. Numa assembleia estudantil na UFRJ foram presos 300 estudantes. A revolta ampliou-se. Para tentar contê-la as autoridades permitiram uma manifestação de estudantes na Cinelândia. Foram às ruas dezenas de milhares de pessoas, representando os setores mais dinâmicos da sociedade, estudantes, intelectuais, artistas, políticos. O ato de protesto ficou conhecido como a Marcha dos Cem Mil. A palavra de ordem abaixo a ditadura ecoou pelo centro do Rio e repercutiu por todo o país.

O ano de 1968 foi pródigo em manifestações em várias nações do mundo. Nos Estados Unidos Martin Luther King foi assassinado e grandes multidões se reuniram para protestar contra a guerra do Vietnã. Na França, manifestações estudantis multiplicaram-se contra a política repressiva do governo. A Universidade de Nanterre foi fechada depois de grandes conflitos entre estudantes e policiais. Elas ocorreram também na Espanha, Polônia, Bélgica, Itália, Alemanha ocidental. Na América Latina houve agitações no Uruguai, Argentina, Venezuela, México e Colômbia. Era um sinal do fim do Estado de Bem-Estar Social, e do agravamento da guerra fria. A euforia do pós-guerra dava lugar a uma dura luta pelo domínio econômico do mundo e de concorrência entre países, que se desdobraria no projeto neoliberal de dominação do mundo pelo capital financeiro internacional.

No Brasil, o Congresso foi contaminado pela agitação social. Pronunciamentos dos deputados Maurílio Ferreira Lima, Márcio Moreira Alves e Hermano Alves irritaram sobremodo os militares. Em 13 de dezembro de 1968, foi editado o Ato Institucional n. 5, que decretou a recesso do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores. Os três deputados citados foram cassados imediatamente e a eles se seguiram mais de uma centena de outros deputados federais e ainda maior número de deputados estaduais e vereadores em diversos estados da Federação.

 

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O AI-5 foi a ruptura dos militares com a sociedade civil. A partir daí a repressão seria muito mais dura, assim como a resistência da população contra a ditadura. A frente política, representada pelos parlamentares, envolvia um grande leque da sociedade. A ditadura que se dizia defensora da democracia e da liberdade havia deixado cair sua última máscara com o fechamento das casas legislativas. Os grupos de resistência clandestina à ditadura, impiedosamente reprimidos pela simples razão de negarem sua legitimidade e pedirem a restauração do regime democrático e de direitos sociais, foram colocados diante de um impasse. Acomodar-se a uma clandestinidade passiva ou reagir. Alguns, os mais jovens e mais radicais, optaram pela ação de guerrilha, alguns no campo, outros na cidade. Eles eram formados na sua grande maioria por estudantes, funcionários e operários, com seu natural vigor e destemor juvenil.

A gênese desses movimentos de ação armada está magistralmente relatada no livro Uma tempestade como a sua memória, a história de Maria do Carmo Brito, contada por ela mesma e pela escritora Martha Vianna (120). O livro é uma epopeia sobre os jovens colocados diante da iniquidade e submetidos aos mais brutais constrangimentos. Seus dramas, suas dúvidas, seu sentimento de responsabilidade social, sua dignidade, os levam a reagir, da forma que lhes foi possível, buscando a superação para salvar os princípios e defender os direitos nos quais acreditam. Do grupo de Maria do Carmo foram mortos seu marido, Juarez Brito, Carlos Alberto Soares e muitos outros. Os relatos recentes, publicados sobre as torturas e a tentativa de assassinato de Inês Etienne Romeu, que denunciou o médico Amílcar Lobo e a Casa da Morte de Petrópolis, mantida pela repressão militar, onde teria sido morto Carlos Alberto Soares (Beto), mostram o lado macabro da ditadura (19). Carlos Alberto mereceu uma menção especial da presidente Dilma Rousseff no seu discurso de posse.

Além do aumento da resistência política, os grupos de ação armada tornaram-se audaciosos e praticaram atos de ampla repercussão. As guerrilhas, do vale da Ribeira, em São Paulo, e do Araguaia, são exemplos dessas ações no campo. Nas cidades os atos de maior repercussão foram os sequestros de embaixadores. Do americano, em setembro de 1969, do alemão, em junho de 1970, e do suíço, entre dezembro de 1970 e janeiro de 1971. Os sequestros dos embaixadores tiveram um duplo objetivo para seus autores: liberar seus companheiros presos e divulgar a resistência interna no Brasil à ditadura. Eu assisti ao desembarque, em Argel, dos 40 presos políticos libertados em troca do embaixador alemão. Apenas as autoridades argelinas, das Nações Unidas, diplomatas brasileiros e imprensa, tiveram acesso a eles no aeroporto. A mídia internacional estava representada ali através de dezenas de enviados. Os franceses, especialmente, tinham um objetivo bem definido, seu herói da Resistência contra a ocupação nazista, Apolônio de Carvalho, elevado ao posto de coronel do Exército francês. No dia seguinte, grande parte do mundo podia conhecer a outra face do governo brasileiro de então, uma ditadura sanguinária.

Cumprido o protocolo de exames médicos e assistência psicológica, pudemos visitar os ex-prisioneiros. Eu tinha um objetivo especial, saudar minha amiga Maria do Carmo Brito. Na oportunidade conheci muitos deles. Alguns vieram a ser amigos diletos, como o capitão Altair Luchesi Campos, Fernando Gabeira, Apolônio de Carvalho e Ângelo Pezzuti. Este perderia a vida em um acidente de moto em Paris. Muitos daquele grupo viriam a ser figuras proeminentes da política e do jornalismo no Brasil, por méritos próprios e ajudados pela grande projeção internacional que tiveram a partir daquele evento. A luta armada não prosperou, nem foi decisiva no desenvolvimento do processo, mas mostrou para o mundo a natureza repressiva da ditadura e seu desgaste junto à população brasileira. A repressão tornou-se mais cruel e mais sanguinária, demonstrando a incapacidade política para buscar o diálogo com a sociedade civil e para dirigir o país. A partir do AI-5, o Brasil ainda viveria uma década de impasses e de agravamento do conflito político interno, até que o desgaste irremediável do governo e o medo de uma revanche levaram os militares mais lúcidos a buscar o caminho da anistia.

O AI-5, além de incentivar a ação de grupos armados, também ampliou a denúncia dos desmandos e da violência da ditadura. O jornalista e deputado cassado Márcio Moreira Alves foi para o Chile. Lá ele criou um boletim de notícias sobre o Brasil com o nome de Frente Brasileira de Informação. Necessitando ir para a França, país de sua esposa, ele teve a colaboração de Miguel Arraes para manter a edição do boletim a partir de Argel. Com o nome francês Front Brésilien d’Information, essa publicação ganhou corpo e era enviada regularmente a mais de novecentas personalidades formadoras de opinião de países da Europa, das Américas e de outros continentes. Ela ganhou credibilidade pela seriedade e qualidade das matérias publicadas, e passou a incomodar o governo brasileiro. Muitas de suas matérias foram publicadas em vários jornais de diversos países, com destaque para o jornal Le Monde, de Paris. O governo militar dizia haver um grupo de exilados denegrindo a imagem do Brasil no exterior. Entretanto, a questão era outra. Para a imprensa e políticos da Europa, os exilados representavam melhor o Brasil que seu governo ditatorial. A queda de braço da ditadura com a sociedade civil abrira diversas frentes de luta que minariam as forças do governo militar.

 

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Os casos escabrosos de violência gratuita chegaram à população, através da imprensa, em alguns casos que se tornaram clamorosos. Em 25 de outubro de 1975, Wladimir Herzog, jornalista, professor e dramaturgo, diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi convocado para um depoimento na polícia política. Ele era suspeito de ter relações com o Partido Comunista. No dia seguinte foi encontrado morto, enforcado com sua própria gravata, na cela onde estivera preso. A imprensa analisou os fatos e concluiu que ele fora assassinado, provavelmente durante a tortura a que fora submetido. O fato gerou uma enorme indignação na opinião pública. Em 16 de janeiro de 1976, o operário da empresa Metal Arte de São Paulo, Manoel Fiel Filho, preso por distribuir o jornal Folha Operária, foi morto sob tortura. Defender interesses trabalhistas era risco de vida naquele período negro da nossa história.

A Arquidiocese de São Paulo passou a atuar junto às autoridades governamentais pedindo aplicação das leis de defesa da pessoa, e dando apoio às famílias de prisioneiros e de cidadãos mortos pela repressão governamental. Naquele mesmo ano, Dom Eugênio Sales, arcebispo do Rio de Janeiro e cardeal, começou a receber e dar auxílio a refugiados dos países vizinhos, que procuravam a sobrevivência no Brasil, fugindo da Operação Condor. Ele conseguiu enviar muitos deles para fora do país, na condição de refugiados, com cobertura das Nações Unidas e até do governo dos Estados Unidos. A matéria publicada pelo jornal O Globo, de 2/3/2008, com uma longa entrevista do arcebispo, refere-se a milhares de pessoas atendidas pela Cáritas, pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Eles eram argentinos, chilenos, uruguaios e paraguaios fugitivos de ditaduras em seus países, vitimados por golpes de Estado, na Bolívia em 1964, no Uruguai e no Chile, em 1973, e na Argentina, em 1976. A do Paraguai surgira bem antes, em 1954, iniciando o reinado de 35 anos de Stroessner.

A Operação Condor foi um acordo entre as ditaduras do Cone Sul, com participação do Brasil, para coordenar suas ações repressivas contra seus opositores. Ela mostraria sua face no Brasil em 1978, quando do sequestro de Universindo Rodríguez Díaz, sua esposa Lilian Celiberti e seus dois filhos, em Porto Alegre. A operação foi descoberta por jornalistas da sucursal da revista Veja no Rio Grande do Sul que, ao chegarem ao apartamento do casal para entrevistá-lo, encontraram os dois presos por agentes. As crianças já haviam sido levadas para o Uruguai. O casal ficou preso no Brasil por cinco anos, tendo sofrido torturas na prisão. Há também a grave suspeita de que o ex-presidente João Goulart fora morto por troca de medicamentos pelos serviços secretos argentinos, em 1976. Da mesma forma há suspeição que o “acidente” que matou Juscelino Kubitschek fora provocado, assim como a morte de Carlos Lacerda não fora natural. Esses três homens públicos, apesar das divergências dos dois primeiros com Lacerda, estavam discutindo uma forma de unir forças, a Frente Ampla, para substituir a ditadura por um regime democrático.

A Operação Condor produziu uma grande chacina nos países do Cone Sul, comparável a uma guerra de porte entre nações. Por ordem crescente, foram centenas de mortes no Uruguai e no Brasil, milhares no Paraguai, no Chile e na Argentina. Nesta última, há registros de cerca de 30.000 mortes, muito mais que os números de mortes produzidas pelos terroristas atuais, que serviram de justificativa para longas e dolorosas guerras. Mas para as elites dos países onde se instalaram essas ditaduras, os latino-americanos não contam tanto quanto os europeus ou americanos do norte.

Outro fato clamoroso foi a morte da estilista Zuzu Angel Jones, em 14 de abril de 1976, em “acidente” também provocado, o que foi provado em perícia técnica e reconhecida pela Justiça brasileira. Zuzu era mãe do militante Stuart Angel Jones, preso em 14 de junho de 1971, e dado como desaparecido. Zuzu, mãe zelosa, mulher de princípios, de fibra e corajosa, buscou saber sobre o ocorrido, descobrindo que seu filho fora preso e assassinado pelos serviços de segurança do governo. Ela exigiu o corpo do filho, que os militares negavam conhecer. Estilista de talento e original, Zuzu havia conquistado muitos admiradores nos Estados Unidos, pátria de seu ex-marido, Norman Jones. Entre eles havia personalidades da política e do cinema. Ela tinha a figura de um anjo como símbolo das suas criações. Como sinal de protesto contra a violência do governo militar, seu anjo passou a ser estampado acorrentado e amordaçado. Em um desfile no consulado brasileiro de Nova York, ela usou estamparia com motivos violentos, manchas vermelhas, pássaros engaiolados e guerra. Em uma visita de Henry Kissinger ao Brasil, ela conseguiu furar a segurança e entregar a ele uma carta com informações sobre a morte de seu filho. A reação do regime militar foi mandar matá-la. O corpo de Stuart jamais foi encontrado. A vida de Zuzu foi motivo do filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, de extraordinária beleza e sensibilidade.

Os horrores da ditadura eram ocultados pela mordaça à imprensa, mas havia formas de comunicação entre pessoas de confiança e organizações civis, que as divulgavam. Os fatos não chegavam a ser conhecidos por grande maioria da população. Mas as pessoas mais esclarecidas sabiam o que ocorria, embora não fizessem alarde delas. Todas temiam as consequências de enfrentar o monstro que ocupava o poder. Mas isso mudou, na medida da maior conscientização das pessoas. A opinião pública internacional, as posições da Igreja Católica, e principalmente o destemor das mães dos prisioneiros e desaparecidos, induziram as pessoas mais destemidas a tomar posição. Famílias de vítimas da ditadura criaram a organização Tortura Nunca Mais, que fez história. Em 1976, um grupo de mulheres de São Paulo, lideradas por Terezinha Zerbini, advogada e mulher do general Euryale de Jesus Zerbini, publicou um manifesto a favor da anistia ampla e geral, que foi distribuído em São Paulo e enviado a pessoas de confiança em outros estados. Logo depois elas registraram em cartório o Movimento Feminino pela Anistia, que floresceu em vários estados. Sua repercussão maior foi no Rio Grande do Sul, onde a corrente republicana era vanguarda no Brasil. Em 1978 o movimento pela anistia alcançava a quase totalidade da sociedade brasileira, invadia a universidade, que se mobilizou, o mesmo ocorrendo com os sindicatos e organizações profissionais. Em fevereiro daquele ano, ele recebeu um grande impulso, a criação do Comitê Brasileiro pela Anistia, fundado por advogados de presos políticos, com apoio da OAB. Mas a reação de setores militares era ainda muito forte, enquanto muitos parlamentares vacilavam entre o poder de pressão da sociedade civil e a força física do governo.

 

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Em 1978 surgiram indícios da proximidade da anistia e de nossa volta ao Brasil. Eram eles: a mobilização da oposição no Brasil, o apoio dado à anistia por inúmeros partidos e veículos de comunicação europeus e o esgotamento político e do modelo econômico do governo militar. Em consulta ao meu advogado, Oswaldo Mendonça, através de familiares, ficou esclarecido que minha condenação pela 1ª Auditoria da Marinha havia prescrito. Mas era necessário requerer o pronunciamento do Superior Tribunal Militar para minha volta segura antes da Lei da Anistia. Enquanto esperava a decisão do Tribunal, iniciei minha volta. Viajei de Maputo para Roma, no primeiro dia de 1979, onde aguardaria o desfecho do processo.

Quando ocorreu, em 1979, o Encontro dos Parlamentos Europeus e Americanos, no qual havia uma delegação brasileira, Marília e eu ainda estávamos em Roma. Assistimos a uma das sessões desse Encontro, acompanhados do nosso amigo e jornalista Araújo Neto, do Jornal do Brasil, na época decano dos correspondentes estrangeiros em Roma. Ali fomos convidados para uma reunião reservada de parlamentares italianos e brasileiros que ocorreria à noite no Hotel Colonna Palace. Os italianos queriam a presença de exilados, que nós representaríamos. Nessa reunião, o senador Franco Montoro fez uma exposição sobre a questão política da anistia, na qual insistiu sobre a rigidez dos militares para que os líderes políticos Leonel Brizola, Miguel Arraes e Luís Carlos Prestes não fossem anistiados. Ficou claro que os militares não queriam os líderes das correntes políticas que representavam os trabalhadores, o trabalhismo, o socialismo e o comunismo. Eles queriam uma anistia de faz de conta, sem lideranças populares fortes, para que continuassem a mandar as mesmas forças políticas, entreguistas e antidemocráticas. Os grandes líderes ficariam de fora, enquanto os que rasgaram a Constituição, os exterminadores e os torturadores seriam beneficiados. O pior é que ficou também claro que os parlamentares pensavam em aceitar essa hipótese, sempre em nome de um “êxito”.

Eu observava com preocupação o rumo da conversa, quando Marília voltou-se para Montoro e lhe perguntou:

– Vocês estão pensando que nós passamos o que passamos, inclusive quase dez anos no exílio para aceitar essa vergonha? Ou a anistia é para todos ou para ninguém!…

A intervenção foi como uma bomba. Nas entrelinhas todos entenderam. Se fosse preciso, nós passaríamos mais dez anos no exílio. O difícil seria os militares sustentarem-se no poder. Sem a anistia, como eles iriam responder por tantos desmandos e tantos crimes? A senadora socialista presente, da qual não me lembro mais o nome, pediu a palavra, dizendo que os parlamentares italianos estavam apoiando a anistia ampla, geral e irrestrita, a pedido de exilados, e que eles haviam refletido muito sobre isso. Mas se o apoio deles fosse inconveniente para os parlamentares brasileiros, eles se afastariam da questão. O clima ficou mais tenso. Os parlamentares brasileiros presentes, Montoro e Fernando Coelho, tomaram a palavra para dizer que não haviam sido bem interpretados. Aquela seria a posição dos militares, que pressionavam o Congresso a aceitar suas restrições. Apesar da hipótese de imprecisão de linguagem, por terem usado uma língua estrangeira, eles não convenceram. Mas havia uma certeza para eles, seria melhor enfrentar os militares.

 

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A Lei da Anistia de 1979 inicia oficialmente o processo de transição da ditadura para um regime democrático. Mas estávamos longe de conseguir recuperar o que fora destruído pela ditadura. As mentiras e a repressão alienaram a população. Sua memória política foi-se apagando, com a censura e a escamoteação da verdadeira história do Brasil. Havia a considerar também que aquela vitória era do povo brasileiro, mas sua liberdade seria ainda limitada. O imperialismo financeiro também era interessado na queda da ditadura. Seria mais fácil manipular um governo civil dócil, para difundir novos conceitos, quebrar resistências à desregulação do mercado e fazer vistas grossas à perda da soberania nacional, medidas necessárias à nova etapa de sua aventura da conquista do mundo. É importante observar que esse foi um fenômeno não apenas brasileiro, mas mundial.

Apesar de vinte anos de sofrimento e frustrações, sob o tacão da ditadura e do capital estrangeiro, nós, os anistiados e a maioria do povo brasileiro, tínhamos esperanças. Acreditávamos na retomada do projeto de desenvolvimento do Brasil com soberania e justiça social. Mas as elites e seus acólitos ainda dispunham de um coelho na cartola, o neoliberalismo. Poucas pessoas sabiam do significado dessa palavra no Brasil na década de 1980. As que sabiam ficaram caladas, pois, quando escrevi meu livro O capitalismo enlouqueceu, em 1998, não encontrei quase nada publicado no Brasil sobre esse assunto. O pouco que existia era incipiente. Não fossem os documentos obtidos por participantes da Semana Internacional de Iniciativas e Ações contra o AMI, Acordo Multilateral de Investimentos, ocorrida em Paris de 21 a 28 de setembro de 1998, meu livro seria muito mais pobre, por absoluta falta de informações. Mas no governo Sarney, em 1987, tentou-se aplicar medidas com base nessa política completamente desconhecida dos nossos ilustres intelectuais. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

 

30, maio 2018 6:02
Por admin

Prezados amigos,

O documento abaixo foi extraído do livro de minha autoria: Manifesto – por uma sociedade de Paz e Fraternidade, lançado em 16 de março deste ano. Ele é minha contribuição inicial para uma ampla discussão sobre a sociedade que deverá nascer da superação do estado de calamidade em que nos encontramos.

Rio de Janeiro, 30/5/2018.

Arnaldo Mourthé

 

Movimento Paz e Fraternidade

Associação para fazer do Brasil um país soberano e de justiça social

 

  1. Princípios
  • O amor ao próximo: a fraternidade
  • Defender a Soberania do Cidadão e da Nação
  • A Liberdade e a Igualdade são inatas no homem.
  • Reconhecer que somos todos iguais, independentemente do gênero, raça, cor, etnia, nacionalidade, grau de instrução ou atividade profissional. A diversidade é parte da essência da vida. Ela não é um defeito, mas uma virtude.
  • Garantida nossa Soberania, que é sagrada, nossa Nação estará aberta a todas as pessoas do mundo.
  • Todos os brasileiros têm direito a uma vida digna. A Sociedade é obrigada a fornecer-lhe condições de trabalho para sua sobrevivência, garantindo-lhes alimentação, educação de qualidade, assistência à saúde e moradia adequadas. O instrumento principal para a garantia dos direitos do Cidadão é o Estado.
  • Além de direitos, o Cidadão tem como deveres respeitar os princípios aqui definidos e contribuir com seu trabalho, desde que capacitado para tal, para o bem de todos e da Nação.
  • Todas as pessoas que tiverem impossibilitadas de trabalhar por qualquer razão, deficiência, vítimas de catástrofe ou violência, terão seus direitos garantidos pela Sociedade.
  • A educação é um instrumento para formar Cidadãos, pessoas conscientes de seus direitos e deveres.
  • . Respeitar a Natureza, não praticando ou promovendo atividades predatórias.
  1. Objetivos
  • Superar o caos produzido pelas crises econômica, social, institucional, moral e ética em que vivemos, respeitando os princípios definidos acima.
  • Criar condições de vida com dignidade para todos os cidadãos e instruí-los para uma convivência pacífica com seu semelhante.
  • Extirpar do Brasil a fome, o analfabetismo e o desemprego. Todo brasileiro terá oportunidade de trabalhar para atender às suas necessidades e as de sua família.
  • Reduzir a criminalidade e a mortandade das pessoas vítimas de violência e da irresponsabilidade, especialmente no trânsito.
  • Definir uma política econômica condizente com os princípios aqui definidos, com a consciência de que só o trabalho humano confere valor às mercadorias.
  • Por em prática uma política externa de respeito à soberania das nações, sem discriminação de qualquer natureza.
  • Toda nossa atividade diplomática será a favor da Paz e do entendimento entre as nações. O papel de nossas Forças Armadas será o de preservar a Soberania Nacional, garantir a Liberdade dos cidadãos e a defesa das nossas instituições.
  • Tornar o Brasil um país exemplar, modelo para a superação dos problemas internos das nações.
  1. Ações políticas imediatas
  •  Convocação imediata de uma Assembleia Nacional Constituinte.
  • A eleição dessa Assembleia ocorrerá em substituição às eleições para Presidente da República, Deputados Federais e Senadores, em outubro de 2008.
  • Logo que empossada, essa Assembleia elegerá um Presidente da Republica por um mandato temporário, até que sejam empossados os eleitos pela eleição que a ela determinará, e que se realizará após a promulgação da nova Constituição que será elaborada no prazo máximo de um ano.
  • Para restabelecer a paz social e a governabilidade, a Assembleia Constituinte revogará todas as reformas constitucionais que modificaram a Constituição de 1988, restabelecendo sua integridade até a promulgação da nova Constituição que a substituirá.
  • O Governo Provisório fica autorizado a rever todos os atos executados a partir da vigência da Constituição de 1988, que atentaram contra os interesses da Nação ou do Cidadão nos termos daquela Constituição, visando seu cumprimento estrito. 
  1. Programa emergencial
  •  Sustar o pagamento dos juros da dívida pública e realizar sua auditagem.
  • Anular todos os dispositivos legais do governo Temer contrários aos interesses dos brasileiros, especialmente dos trabalhadores, ou que alienaram ou alienem o patrimônio público ou da Nação, por vício de origem: a corrupção de membros do Poder Legislativo que lhes deu origem.
  • Submeter à revisão todos os atos dos governos de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, praticados sobe pressão de forças externas ao Brasil, ou com o uso da corrupção.
  • Utilizar os recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida pública para pagar os salários atrasados dos servidores do serviço público dos estados e dos municípios, e para desenvolver os projetos prioritários nas áreas de educação, saúde, cultura e infraestrutura. 
  1. Programa de desenvolvimento da Nação brasileira.

         Observação: Esta questão fica em aberto. Nosso programa será elaborado  através de ampla discussão entres as pessoas que aderirem ao Movimento Paz e   Fraternidade.

 

 

5:56
Por admin

Construindo o caos

Arnaldo Mourthé

A mídia e o governo se esforçam em nos convencer que a crise de abastecimento que estrangula o Brasil é uma questão setorial da nossa economia, que se manifesta através de um movimento de paralisação das atividades dos transportadores de carga. Essa é uma simplificação que não resiste à mais rudimentar das análises. A grande maioria da população percebe isso. Sua conclusão em geral é que a crise decorre da irresponsabilidade que impera no governo, além de ressaltar aspectos comportamentais como a corrupção de seus membros. Mas a questão é muito mais extensa e profunda. Há, nitidamente, a esgarçadura do tecido da sociedade pelo agravamento dos conflitos sociais. Esse fenômeno ocorreu em várias fases da história da humanidade, produzindo mudanças profundas nas coletividades e nas civilizações.

Essa minha visão se reforça com o próprio discurso dos governantes e da mídia mercenária. Eles ressaltam os “prejuízos” econômicos provocados pela paralisação. Fazem um grande alarde sobre a mortandade de aves os seus criatórios, onde são criadas em condições  que horrorizam os naturalistas. Elas são confinadas aos milhares, umas junto às outras, como em baladas de jovens. Só que por toda a curta vida, até terem o peso necessário para o abate rentável, para serem vendidas para o exterior, trazendo lucros para eles e dólares para serem exportados como lucros dos investimentos estrangeiros na produção de mercadorias questionáveis e na especulação, que inclui os juros da dívida pública, a sangria que está levando o Brasil ao caos.

Não são os caminhoneiros os responsáveis pelo caos. Ele vem sendo construído há muito tempo por uma elite calhorda, com cultura  escravista, e pelo capital financeiro predador e vampiro das nossas riquezas naturais ou produzidas por nosso trabalho, inclusive dos próprios caminhoneiros responsáveis pela  circulação da maior parte de nossas riquezas através do território nacional, para o consumo interno ou a exportação que nos escraviza.

No seu discurso os homens do poder lamentam a morte de pintinhos, não pela vida deles, que apenas foi antecipada em 45 dias do seu abate, com sua cabeça cortada. Mas, em nenhum momento consideram o sofrimento do nosso povo, sua morte precoce por desnutrição, descaso do poder público ou pela violência gerada pela sociedade perversa que eles criaram e cultivam

Vivemos hoje, no Brasil, um quadro de tensão social que ultrapassa todas as outras  registradas na nossa história. É muito maior que a do fim do sistema escravista, da proclamação da República ou da Revolução de 30. Ela não representa apenas uma mudança nas relações de poder entre classes sociais. É muito mais do que isso. Daí a perplexidade dos analistas, que não encontram instrumental teórico para compreendê-la, nem classificá-la nos conceitos restritos conhecidos por eles.

Venho, há muito tempo, tentando compreender os fenômenos novos que vêm ocorrendo na nossa sociedade. Fui buscar na história, e nos ensinamentos dos mestres do passado, explicações para questões que ultrapassam os pensamentos dominantes na sociedade que são, no campo político, representado pelas ideologias. Desse esforço de pesquisa resultaram três livros de minha autoria: História e colapso da civilização (2012), A crise (2016), O poder no Brasil e A perplexidade (2017), todos pela Editora Mourthé. Eles tratam respectivamente da história da humanidade, da economia, do poder e das instituições e, finalmente do pensamento e do comportamento humano incluindo questões da espiritualidade. Esses livros espelham o meu pensamento sobre as questões da evolução da humanidade, com seus altos e baixos, no mundo da dualidade. Não cabe em um artigo tratar dessa questão.

Essa introdução me permite avançar a análise que faço do fenômeno que ocorre agora no Brasil sob a forma de crise múltipla, econômica, moral e institucional, mas que atinge também todo o Planeta, nas mais variadas formas e intensidades, em função da cultura de cada povo e de seu desenvolvimento tecnológico.

Minha conclusão é que estamos vivendo um momento de ruptura da sociedade, que ultrapassa tudo que a história da humanidade registra. Isso ocorre pelo salto de consciência do ser humano, que passa a ter uma visão do mundo mais ampla do que aquela regida pelas leis da dualidade que a dialética estudou, permitindo a compreensão da evolução da sociedade pela contradição dos contrários, ou seja, dos interesses opostos nas relações entre as pessoas, classes sociais ou comunidades, inclusive  entre as nações.

É por isso que as classes dominantes já vêm, há algum tempo, se afastando do diálogo para resolver as pendências com o restante da população pelo equilíbrio, mesmo precário, dentro da sociedade. É por isso que o apelo pelas guerras se esgota nas relações entre as nações. Não há mais campo de manobra para a convivência desigual entre pessoas, classes sociais e nações. A consciência coletiva da humanidade tende a se opor às condições da dualidade. Não há mais espaço para discutir se é melhor a liberdade ou a igualdade. As duas condições são direitos inatos do ser humano, que passa a ter essa compreensão. A sociedade das disputas, da competição pela posse de bens ou de regalias, cede lugar à sociedade da fraternidade, da solidariedade, da cooperação, entre pessoas, grupos sociais e nações. Esse é o novo mundo que os grandes pensadores anteriores à nossa Era pregavam como o mundo real, da verdade, em contraposição ao mundo da ilusão criado pela mentira. Esse fenômeno pode ser sentido no descrédito das autoridades públicas prepotentes e dos meios de divulgação que escondem a verdade e difundem a ilusão.

De nada adianta o esperneio dos governantes, dos marqueteiros da ilusão e dos homens do poder que tudo buscam controlar a partir do dinheiro, contra as reivindicações legítimas dos cidadãos. Estes são movidos, a cada dia com mais vigor, pela consciência de seus direitos e deveres, e de suas necessidades. Todo o aparato ideológico, midiático ou repressivo torna-se ineficaz diante da consciência expandida do ser humano.

Dito isso, o que nos resta é agir no campo de nossas responsabilidades individuais e sociais, e esperar que esse crescimento da consciência coletiva produza a demolição das estruturas arcaicas, que não mais servem ao ser humano, com a limpeza do terreno para a construção de uma nova sociedade que corresponda às novas condições de nossa consciência coletiva.

De nada adianta o esperneio dos que detêm e se beneficiam do poder em detrimento da dignidade do ser humano. As condições que permitiam o homem cruel e tirânico ter seu lugar de destaque na história estão se dissolvendo. O fim da prepotência e da mentira já está decretado. Surgirá uma nova sociedade de Paz e Fraternidade.

 

 

 

No mundo da dualidade só sobreviveu aquele que interessava aos que tudo dominavam e os que se negavam a submeter-se, seja por seu recolhimento na obscuridade, seja utilizando a dialética para combater os opressores. Mas a dualidade engana muito, até àqueles que se consideram sábios, como bem compreendeu Sócrates. No confronto dos contrários há a possibilidade do avanço ou do retrocesso. Este aconteceu sob a égide do neoliberalismo. A humanidade que se afundou no abismo não está mais obrigada a viver o dualismo que favorece o mais forte. Isso é possível pelo despertar da sua consciência. Vivemos esse momento crítico. Nele os conceitos anteriores não funcionam. O homem está assumindo seu destino libertário. Isso já era previsto pelos grandes pensadores da antiguidade. Nós ainda precisamos da dialética para derrotar o opressor, mas sem as amarras da luta de classes. A questão deixou de ser escolher entre liberdade ou igualdade. Mas conquistar as duas condições. E para tal é preciso que assumamos outra condição, a fraternidade.

Chegou a hora de nos organizarmos sob essas três condições que os iluministas não criaram, mas nos revelaram. Portanto, chegou a hora também de revermos nossos pensamentos estreitos. Isso é difícil para o acadêmico, enquadrado por uma superestrutura autossuficiente e restrita. Chegou a hora da grande reflexão, a hora da verdade.

Rio de Janeiro, 30/5/2018.

10, outubro 2018 10:18

Porque o Xerife não pode ser presidente do Brasil

06, outubro 2018 13:59

Em defesa da vida e da dignidade humana

03, outubro 2018 11:07

Seu voto pode eleger seu inimigo!