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28, agosto 2017 2:28
Por admin

Fatos, crenças, mitos e lendas

 

A partir do momento em que um nosso ancestral foi capaz de produzir um instrumento para agir sobre o meio que o cercava, ele já era algo mais que um animal. Não se conduzia apenas por instintos. Possuía vontade, queria uma arma para superar outros animais ou um instrumento para potencializar sua força. Já era capaz de imaginar a forma do objeto que precisava. Sabia o que fazer para tornar realidade sua imaginação e possuía habilidade para tal. Ele já era um ser dotado de inteligência, que se manifestaria sob outras formas.

Em outro momento, talvez posterior ao da ferramenta, nosso ancestral buscou explicações para os fenômenos naturais, em especial sobre as tempestades com seus raios e trovões. Imagine o pavor de um ser apanhado por forte tempestade, no meio de um campo! Os raios caindo por toda parte, destruindo num golpe uma grande árvore e espalhando o fogo pela relva. Que poder seria capaz de tamanha façanha? Aquilo e outros fenômenos da natureza estavam além da sua compreensão. Mas ele poderia concluir que depois da chuva as cores das folhas ficavam mais vivas, as sementes brotavam e as plantas cresciam. Os pássaros se alegravam, assim como ele, mesmo que não fosse pelas mesmas razões. De uma coisa ele sabia, o perigo passara, seu temor desaparecera. Mais além dessas questões, em certo momento ele também se questionou sobre a existência, sua e da natureza, com todos seus encantos e perigos, e sobre a vida que dela brotava.

Tudo aquilo só poderia vir de um ser superior. Isso o levou a criar os deuses. No início um deus para cada fenômeno ou coisa. Depois esses deuses também responderiam por sentimentos, habilidades e virtudes, na medida em que suas experiências aumentavam. Sua inteligência teve de passar por um processo de desenvolvimento para atender a todas essas indagações, e seu cérebro tornou-se mais solicitado. A proteína obtida da caça certamente serviu para nutri-lo melhor. Seus pensamentos expandiam-se na busca de razões para a existência e suas manifestações. Cada povo criou seus mitos que se tornaram suas crenças. Mas há uma grande semelhança nessas crenças. Com informações limitadas sobre os primórdios da humanidade, não temos como afirmar como isso se deu, mas escolhemos a hipótese de ter sido pelo processo de migração e caldeamento de culturas.

Em estagio mais evoluído, após a revolução agrícola, esses mitos se consolidaram e deram origem às religiões, não apenas as primitivas, já que todas as grandes religiões hoje praticadas têm, na sua tradição oral, sinais bem nítidos desses mitos e crenças. Na tradição tupi-guarani, o deus maior, Tupã, o deus Sol, desceu à Terra e criou tudo que existe, até mesmo as estrelas que ele colocou no céu. A deusa maior era Araci, a deusa Lua. A tradição Veda também tinha como deuses originais esses dois astros.

 

Segundo as tradições antigas, havia duas dinastias, uma solar e outra lunar, ou seja, alguns se consideravam descendentes do Sol e outros, da Lua. Em outras palavras, eram as forças positivas e as negativas, encerrando conceitos religiosos opostos.

Os que cultuavam o Sol consideravam o Deus do Universo representante do sexo masculino e traziam consigo tudo de mais puro da tradição védica.

Dedicavam-se à ciência do fogo sagrado e da oração, mantinham a noção esotérica do Deus Supremo, respeitavam profundamente a mulher, veneravam os antepassados e a monarquia patriarcal.

Por sua vez, os cultores das forças lunares atribuíam à divindade o sexo feminino e adoravam a natureza cega, em suas manifestações inconscientes, violentas e inclinadas à idolatria e à magia negra (54).

 

No entanto, a doutrina védica tem centenas de milhões de seguidores e está cada vez mais considerada e reverenciada pela nova onda espiritualista que emerge da crise da nossa civilização decadente. Isso mostra que todas as crenças devem ser respeitadas. Elas representam estágios de compreensão das comunidades humanas, contribuíram na construção de sociedades sólidas e ajudaram suas populações nos momentos mais difíceis, consolando-as e dando-lhes ânimo, pela fé e pela esperança em dias melhores.

Na tradição escandinava o principal deus é Tor:

 

Tor cruzava os céus numa carruagem puxada por dois bodes. E quando ele agitava

seu martelo, produziam-se raios e trovões. … Quando troveja e relampeja, geralmente também chove. E a chuva era vital para os camponeses da era dos vikings. Assim, Tor era adorado como deus da fertilidade (35).

 

Todos os povos, de todos os continentes, têm suas tradições, suas crenças, lendas e mitos. Esse é um passado comum da humanidade no seu processo de desenvolvimento. Alguns tentam minimizar esse passado comum, outros teimam em desconhecê-lo, mas isso só faz deles seres insensíveis que tentam esconder a história, por razões que não revelam.

Quando expomos as dificuldades de explicar fenômenos da civilização antiga, algumas questões se nos colocam. Mesmo se deixarmos de lado as contradições das lendas e nos atermos apenas às construções monumentais, vem-nos à mente, com insistência, a hipótese de ter existido outra civilização, ou outras, que não deixaram provas cabais de sua existência, mas indícios. Ainda não conseguimos explicar, por exemplo, as façanhas da engenharia que está por trás de grandes obras da Antiguidade. Apesar dos potentes e sofisticados equipamentos de que dispomos, não temos como transportar e colocar no seu lugar com extrema precisão as pedras gigantescas, com cerca de mil toneladas, que fazem parte do embasamento do Templo de Heliópolis, em Baalbek, no Líbano (ver Google Earth).

Apesar de nossos imensos navios e das gigantescas máquinas das mineradoras; dos aviões que cruzam os céus em todas as direções a cada minuto; da rede mundial de computadores; de termos imagens e vozes vindas de todos os recantos da Terra em tempo real; de enviarmos o homem à Lua e sondas em várias direções do espaço; da capacidade de destruição dos artefatos nucleares em estoque serem cem vezes maior que a necessária para destruir o próprio planeta, seria difícil para nós construir algumas obras do mundo antigo.

Mas quando entramos no terreno das lendas e da mitologia, as coisas ganham um grau de complexidade muito maior. É onde encontramos a crença arraigada por milhares de anos. Não é fácil dizer, apesar dos documentos cada vez mais abundantes, que a maioria das lendas do mundo antigo se origina na antiga Suméria. Os preconceitos sobre suas origens estão profundamente arraigados em algumas culturas. Mas elas podem ter origem mais antiga ainda. Mesmo as do Velho Testamento, como as de Enoque, de Noé, e até algumas passagens de Moisés, como a do peixe seco que se lança nas águas do mar e nada garbosamente. Essa é parte de epopeia de Gilgamesh na sua inútil procura pela vida eterna, na busca da Árvore da Vida, da Água da Vida ou da Fonte da Eterna Juventude.

Os mitos e as lendas que surgiram daí estão até hoje navegando pelas mentes de quase todos nós. Alguns têm seus fundamentos nas úteis lições e na apologia das virtudes que divulgam. Eles e elas têm sua lógica e não afrontam os interesses das pessoas comuns. Crer neles ou nelas não causa dano a ninguém e pode até causar prazer pelo encanto que possuem. Do contrário não resistiriam ao tempo. Mas persistem também histórias que são nocivas aos interesses mais caros das pessoas, mesmo refutadas a cada dia pelos fatos. Isso ocorre porque interesses poderosos conseguem manipular a mente das pessoas. A filosofia e a ciência não foram suficientes para desfazer crenças infundadas. Nem as pregações amorosas e a favor da verdade, dos grandes líderes religiosos da Antiguidade, como Krishna, Lao-tsé, Buda e Jesus, o foram. Jesus disse a seus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, ou seja, a liberdade pode ser alcançada pelo conhecimento da verdade. Mas quem liga para isso?

Há duas razões principais para a permanência da ilusão de alguns mitos nocivos nas mentes das pessoas. Eles são defendidos por várias instituições, em especial religiosas e financeiras, pois lhes são convenientes, enquanto ajudam a manter um manto de ignorância que sustenta hierarquias privilegiadas e classes dominantes que vivem da espoliação. Essas últimas atuam para que a educação não vá além do necessário para ensinar a executar as tarefas de seu interesse, nos termos de suas tecnologias e organizações sociais, ambas impostas sutilmente à sociedade. A escola deles não é feita para ensinar as pessoas a buscar a verdade e a viver com fraternidade. Ela o é para aceitar o status quo e para adestrar o trabalhador, em vez de libertá-lo.

Alguém pode argumentar que a ciência prosperou. É verdade, pois a ciência é instrumento fundamental para conhecer as leis da natureza, para melhor utilizá-la na produção de bens e serviços. Mas ela não é totalmente livre, pois depende de recursos para suas experiências cada vez mais custosas. Sua orientação é voltada para o desenvolvimento de tecnologias dos interesses dominantes, muitos

dos quais destrutivos. Mesmo assim a ciência avança. Mas muitas de suas descobertas são negligenciadas quando contrariam esses interesses, não importa a razão.

Mas a grave crise da civilização que se aproxima ajudará a levantar a cortina de obscurantismo que dificulta uma atitude realmente científica, ou verdadeiramente religiosa, que coloque como condição fundamental a liberdade para buscar a verdade. Sem considerar as diversas hipóteses que visam levantar o véu da ignorância, que turva a mente humana e dificulta as pessoas a trilharem o caminho da liberdade, não haverá verdade, nem liberdade. Vamos ajudar a levantar esse véu oferecendo espaço a algumas hipóteses que merecem nossa atenção.

Zecharia Sitchin, em seu livro A escada para o Céu, faz um relato interessante sobre o início da civilização, seus mistérios, contradições e mitos, e conclui que ela foi criada por povos de outro planeta, onde os humanos entravam como força de trabalho. Os deuses que vieram dos céus seriam astronautas vindos de um planeta do sistema solar, Murdok, o décimo segundo planeta, segundo ele, que teria uma órbita elíptica bastante longa. Seu ano corresponderia a 3.600 anos da Terra. Por essa razão ele seria desconhecido dos astrônomos. Seria isso verdade? Não sabemos dizer. De qualquer modo não devemos deixar de considerá-la enquanto a ciência não der explicações racionais para os fenômenos dos deuses fundadores da Suméria e do Egito, e de suas dinastias, dos feitos espetaculares da engenharia dessas civilizações e dos seus conhecimentos astronômicos. Assim como dos

diversos ciclos planetários que aparecem no calendário maia. As civilizações antigas, aparentemente, não possuíam aparelhos óticos nem conhecimentos matemáticos suficientes para detectar os ciclos dos astros e planetas e seus efeitos sobre as pessoas e a natureza, como seus escritos demonstram. Mas há outras hipóteses. A mais discutida é a da civilização de Atlântida, revelada por Platão em um dos seus escritos.

Platão teve os seus conhecimentos de Crítias, o Jovem, que, por sua vez os recebeu de seu avô, Crítias, o Velho, o qual, por intermédio de Drópides, teve ensejo de conhecer as anotações feitas por Sólon, durante a sua viagem no Egito,

 

… de um ancião, escrivão do Templo de Saís e o qual, por sua vez, se referiu a material documentário bem mais antigo, a textos em hieróglifos saíticos.

[...] Diante da foz que vós costumais chamar de Colunas de Hércules, havia uma ilha, cuja extensão era maior daquela da Ásia e da Líbia juntas e, a partir de lá, era então possível fazer a travessia para as outras ilhas e, daquelas ilhas, para todo o continente, situado defronte daquele mar e circundando-o, o qual, a justo título, leva esse nome (85).

 

Naquela época não se conhecia o continente americano referido no texto, e não se tinha referência de nenhuma travessia do Atlântico, o que vem dar credibilidade ao relato de Platão. A não ser que tomemos como verdade outra lenda, de datação desconhecida, de que os fenícios teriam aportado no norte das terras hoje brasileiras. De qualquer modo, desde o relato de Platão, dezenas de milhares de livros trataram do assunto, o que mostra quanto interesse ele despertou. Entre esses autores está Francis Bacon, que em 1638 escreveu Nova Atlantis.

            Também o famoso clarividente americano Edgard Cayce descreveu a Atlântida durante um de seus sonhos autoinduzidos.

 

A descrição de Cayce sobre a Atlântida – ou ao menos o que foi colhido de suas declarações durante o sono – é de uma civilização avançada que caiu em tentação. Empregando palavras que parecem curiosamente aplicáveis ao presente, ele indica como uma civilização tecnologicamente adiantada (aparentemente com aviões, lasers e outras máquinas modernas) virou as costas a Deus e se afundou nas delícias do materialismo. Então, em uma série de cataclismos provocados pela má utilização das forças da natureza, seu paraíso insular entrou em erupção e submergiu, como diz Platão, nas profundezas do oceano Atlântico. Esta, em resumo, é a história sobre a destruição da Atlântida como coletada por pesquisadores a partir das mensagens e publicada pelos filhos em um pequeno livro intitulado “Edgar Cayce on Atlantis” (40).

 

Há também referências em diversas publicações a que o Egito, o México e o Caribe teriam sido colônias de Atlântida, de onde teriam vindo os conhecimentos de astronomia e cosmologia dos egípcios e dos maias, cujo calendário é o mais perfeito dos conhecidos.

No conjunto dessas questões polêmicas, que não podem ser provadas nem desmentidas cabalmente, podemos destacar as mensagens de alguns espíritas e outros espiritualistas que consideram a crença no demônio uma corruptela da história verdadeira de Lúcifer. Este seria um ser de grande importância na hierarquia cósmica, que propusera e executara uma experiência de mutação genética com o ser humano, tornando-o mais agressivo, com o intuito de prepará-lo para enfrentar situações de grande adversidade. O resultado teria gerado uma humanidade violenta e, em consequência, a necessidade de mudar a sua rota. Para consertar o malfeito teriam sido enviados à Terra outros seres de grande expressão. Seria essa a razão da presença entre os humanos de alguns seres extraordinários como Buda e Cristo?

Todas essas questões são hipóteses e teses que estão por aí ao alcance de todos, em livrarias e na internet, e que são colocadas no campo nebuloso dos mitos. Elas são negligenciadas pelos poderes das mais diversas instâncias, políticas, científicas ou religiosas. Para esses notáveis, só vale o sagrado de cada um deles. Tudo o mais é blasfêmia e heresia, como o foram hipóteses científicas comprovadas, combatidas furiosamente pelos guardiões da fé, como as de Copérnico sobre a translação da Terra em torno do Sol, que levou Galileu Galilei ao Tribunal da Inquisição e Giordano Bruno à fogueira. Muito depois, Darwin passou pela penitência da heresia, já então sem fogueira, por sua Teoria da Evolução das Espécies, que a cada dia é comprovada por novas descobertas no campo da biologia.

Mas, se estamos fazendo pesquisas sobre a história da humanidade e a evolução do pensamento humano, como podemos desconhecer essas hipóteses que até hoje preocupam, entusiasmam ou encantam tantas pessoas? A cada povo pertencem suas crenças, seus mitos, suas religiões, sua filosofia, e sua ciência. Também não podemos fingir que essas questões não ocupam mentes privilegiadas. Seria ajudar a ocultar o que já se pesquisou e se descobriu. Nem desconhecer as dúvidas que açoitam os historiadores e as alternativas que eles oferecem às lendas e aos mitos que vagam por aí.

Afinal, é preciso examinar todas as possibilidades, romper o bloqueio que supostas autoridades estabelecem em relação ao que lhes desagrada. Ao mesmo tempo desmascarar a propaganda que fazem do que lhes interessa, sem qualquer compromisso com a verdade. Para nós, o objetivo deve ser apenas a verdade, no passado ou no presente. Essa postura certamente nos ajudará a encontrar as soluções que precisamos para superar esse momento nebuloso e tormentoso por que passamos. Para nós, as hipóteses devem ser consideradas, em termos, até que se prove que são verdadeiras ou falsas.

Devemos considerar até mesmo a hipótese de que o fim do mundo está próximo e que só se salvarão os 144.000 eleitos pelo Senhor, que seriam todos de um só povo ou de uma só comunidade religiosa. Esse mito provém de dois outros, o do Apocalipse, magistralmente relatado na Bíblia e atribuído a São João, e o do pecado original, advindo de Adão e Eva. Este último marcou a teologia creditada a Santo Agostinho, segundo a qual todo homem nasce em pecado que só será perdoado pela graça divina através da Igreja. Mas qual igreja? Hoje são inúmeras, com as divisões da Igreja Cristã no último milênio. Quais seriam então os eleitos? Da mesma forma que esses mitos são difundidos por pregações e em milhões de livros por todo o mundo, podemos questionar esse Senhor ou seus representantes na Terra. Como é possível tamanha discriminação que repudia toda a humanidade em prol de uns poucos eleitos, todos da mesma cultura ou religião, numa demonstração de elitismo muito além da ousadia de qualquer nobreza. Se o leitor prestar atenção, encontrará mais mitos nos dias de hoje que na Antiguidade. Os daqueles tempos, pelo menos, traziam alento e esperança, enquanto muitos dos atuais produzem graves danos à vida e à paz.

No final deste livro voltaremos a falar dessa questão, em abordagem feita à luz do avanço das experiências da humanidade, da filosofia, da ciência nos campos da física e do cosmos, e dos novos fenômenos que intrigam ou que ameaçam as populações. Destacam-se os cataclismos naturais, cada vez mais frequentes e mais graves, que os cientistas procuram compreender, mas ainda não sabem explicar. Mas há também as obras do homem no campo da economia e das instituições, feitas à imagem e semelhança dos novos magos dos séculos XX e XXI. Esses não transformam ferro em ouro, mas fazem dinheiro do nada, enquanto transformam em nada nossas vidas e nosso trabalho. Em lugar da civilização do nada deveríamos pensar na civilização do todo. Naquela que fará uso da abundância para a felicidade e não para conflitos e sofrimentos. Que fará da fraternidade e do respeito ao próximo o cimento para tornar as relações humanas mais harmoniosas e construtivas.

O futuro da humanidade depende do nosso nível de conhecimento e de compreensão de tudo que se passa, seja na natureza ou no cosmos, seja na sociedade ou na mente das pessoas. Mas o que mais nos preocupa é a história tortuosa que o homem constrói. Suas deformações produzem a destruição da sociedade e da vida que a natureza produz e sustenta. Os mitos dos antigos consolavam e davam segurança. No seu íntimo eles pensavam que seus deuses os protegiam contra o destrutivo e o desconhecido. Isso lhes dava alento, esperança e capacidade de resistência às hostilidades. Os mitos de hoje são fraudulentas ilusões para submeter vontades e aniquilar o amor-próprio e a esperança no futuro. Os de ontem foram conquistas, precárias como tudo que é humano, mas conquistas. Os de hoje são grilhões, que escravizam, ou armas, que destroem.

 

25, agosto 2017 1:45
Por admin

Esculhambação geral

Arnaldo Mourthé

            Deu a louca no governo. Agora, a esculhambação é geral. Eu já havia escrito um artigo, com o título A que veio o governo Temer?, de 05/10/2016, publicado depois no meu livro O poder no Brasil. Ele representa a minha visão sobre esse governo que está ai, e começa dizendo:

            1 – Matar o Estado com o bloqueio de gastos com serviços públicos.

            2 – Demolir a República, através da priorização dos interesses privados sobre os             públicos (do cidadão), e o descaso com a soberania nacional.

            3 – Alienar o patrimônio nacional para transferir riqueza para o setor financeiro, já        dominado pela banca internacional.

Mas a desfaçatez dos senhores do poder que, diga-se de passagem, é formado de impostores, ultrapassou em muito minha “profecia”.  O que está ocorrendo, e como está ocorrendo, não poderia passar por minha cabeça. Afinal, eu acredito ser uma pessoa normal.

Por mais que me esforce, não consigo lembrar-me de nenhum fato histórico que possa servir de paralelo a tamanho desatino. Parece um reclame, de meus tempos de infância, de “salvados do incêndio”, de loja que pegou fôgo. Quem sabe essa seja a imagem do Brasil na cabeça desses tresloucados? É o caso de convocar uma junta médica para examiná-los.

O fato, de nossos dias, que mais se assemelha ao que o governo Temer está fazendo, é de um grupo de crianças abandonadas e drogadas, vendendo na beira da estrada os frutos de um assalto, ocorrido na véspera, a um caminhão de entrega de mercadorias. praticado pelo crime organizado,

Realmente os homens de plantão no poder parecem drogados. A aparição (palavra sintomática) de Meirelles na televisão assusta. Uma cara amarrotada, cheia de sestros e rompantes, digno de alma penada, dizendo: “tem que ser feito”, “se não for agora, daqui a dois anos”, “senão o Estado vai falir”. Assim ele se refere à Reforma da Previdência. Ele só esquece que o Estado já faliu, e ele foi o principal responsável por isso, quando chefiava o Banco Central, multiplicando a dívida pública, que hoje é mãe de todas as crises no Brasil.

O mestre de cerimônia, travestido de presidente, é o mais cômico. Não sei se posa de prestidigitador, escondendo cartas do baralho, ou de mágico, tirando coelho da cartola. Mesmo um coelho tão grande quanto a Eletrobrás, que vendida daria a ele o dinheiro para devolver ao comprador, através de juros da dívida pública. Os 20 milhões de reais, que não passam de três semanas de juros pagos pelo governo.

O terceiro membro da trinca tenebrosa é o “gato angorá”, com cara de bebê chorão, cuja função é buscar com sua patinha travessa o patrimônio público da vez para  ser vendido a preço de banana. Tudo para manter aberta a sangria que mata o Estado brasileiro, do pagamento dos juros da dívida pública de mais de 400 bilhões de reais por ano.

Mas, qual é a jogada da vez? Vender 14 aeroportos, 11 linhas de transmissão, 15 terminais portuários, duas rodovias, a Casa da Moeda, 18 rodadas de licitação de petróleo e gás, a Companhia de Armazéns e Silos de Minas Gerais e a Companhia Docas do Espírito Santo. Não escapa nem a Rede de Comunicações Integrada da Aeronáutica. Tudo para apurar R$ 44 bilhões que corresponde ao pagamento de um mês e meio dos juros da dívida pública. O interessante é que nunca mencionam a dívida pública. Ela parece não existir. Será ela outro fantasma. Talvez tenham medo dos portadores dos títulos do Tesouro Nacional. Disso o Meirelles entende, pois teve uma longa escola no BankBoston.

Porque tanta pressa? Virá outra acusação comprometendo o Presidente? Terá o lobby da Wall Street falado mais grosso?            Talvez saibamos algum dia. É importante lembrar que a intervenção americana no golpe de 1964, ficou de conhecimento geral depois que os EUA abriram o sigilo sobre o papel de seu governo no golpe. Lá a Lei limita o segredo de Estado a 20 anos. Quem sabe daqui há 20 anos tudo isso seja de conhecimento público. Mas o que  seremos  de nós então, se não tomarmos medidas urgentes para impedir a destruição de nossas instituições e a derrocada de nossa Nação? A resposta a essa pergunta fica para você, caro leitor.

Não esquecer que se completam hoje 63 anos do suicídio de Getúlio Vargas, consequência de perseguições sobre ele por  sua política em defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e de nossas fontes energéticas e minerais. Ao lembrar isso, resolvi juntar  a este texto a Carta Testamento desse grande patriota.

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

Getúlio, sim, era um estadista e um patriota. Ele comandou uma revolução. Contra os ‘barões do café” e a fraude eleitoral. Venceu, sustentado nos governos do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, da Paraíba, e do nosso povo por todo o país.  Pôs-se a construir uma República, que foi derrubada pelo golpe de Estado de 1964. Caso este não houvesse ocorrido, talvez fôssemos uma grandiosa e justa nação, sustentada por nosso povo generoso e trabalhador. Mas a história foi outra. Tudo isso me impele a uma pergunta:

Prezado leitor, você aceitaria ser membro de uma boiada? Mesmo que ela tivesse sendo conduzida para o abatedouro?

Rio de Janeiro, 24/08/2017.

24, agosto 2017 2:19
Por admin

Por que privatizar a Eletrobras?

Arnaldo Mourthé

            O Governo Federal prepara um novo golpe contra nossa soberania de Nação, a privatização da Eletrobrás. Essa ação não chega a ser uma surpresa, pois já analisamos o que vem a ser esse governo, que chamamos de Governo das Trevas. Ele não passa de um governo que foi colocado no poder por manobras legislativas e jurídicas para recolonizar o Brasil. Nem governo é. É uma quadrilha de impostores que estão destruindo tudo que a sociedade brasileira construiu ao longo de cinco séculos, a duras penas. Ele visa, principalmente, destruir as conquistas da Revolução de 30, que instituiu uma República possível dentro do sistema econômico em que vivemos, com vistas a uma Nação soberana voltada para seu desenvolvimento com justiça social. Mas esa República foi liquidada pelo golpe militar de 1964. Depois disso começou o processo que desemboca na mais escandalosa corrupção que a história mundial conhece, e atinge seu ápice no Governo das Trevas, que quer fazer do Brasil uma colônia do capital financeiro internacional.

O governo pretende privatizar a Eletrobrás com a desculpa de que necessita de recursos para equilibrar o orçamento. A arrecadação prevista para esse ato, de irresponsabilidade, é de R$ 20 bilhões, por coincidência o rombo do seu Orçamento. Mas não ficará só nisso. Quer vender nossos aeropostos, estradas e muitas outras coisas. Não devemos esquecer que a Petrobrás vem sendo fatiada e vendida aos pedaços. Até para exploração de petróleo sobre o coral da Amazônia, com prejuízo ambiental de repercussão mundial e jamais visto ou imaginado. Estamos vivendo o caos.

Mas nós seremos tão pobres a ponto de termos que vender nossos patrimônios para sobrevivermos? Pelo contrário, nós somos o país que tem a maior riqueza natural do Planeta. O governo não vende nosso patrimônio porque somos pobres. Ele está agindo sabendo o que está fazendo: destruir a Nação brasileira. Esse é o plano da Besta do Apocalipse, o capital financeiro internacional, com sede na Wall Street, em Nova Iorque. Algum leitor, que não conheça minhas publicações anteriores, poderá pensar que isso é exagero.  Porque na mídia dizem  “que o Brasil está em crise porque houve governos irresponsáveis, especialmente do PT, que construíram esse caos que nos sufoca”, como num labirinto. Mas, essa versão da história foi construída para imobilizar os brasileiros, enquanto a tropa de ocupação do capital financeiro toma o Brasil, com sua quinta coluna, o governo Temer e seus deputados corruptos. Houve, sim, governos irresponsáveis. Eles o foram, porque nos ocultaram a verdadeira situação da infiltração do capital estrangeiro em nossos assuntos e negócios internos, para concretizar seu projeto macabro indicado acima. Ao invés de contrariar o projeto, de FHC, de redução do Estado e privatizar as empresas estatais e serviços públicos, Lula e Dilma mantiveram a linha da capitulação e acabaram de encalacrar o Brasil.

Voltemos à questão da Eletrobrás, que não é uma empresa qualquer. Ela tem 37 hidrelétricas, 114 termoelétricas, duas usinas nucleares, 69 eólicas e uma solar próprias ou em sociedade. Isso representa 31% da geração de energia elétrica do Brasil. Sua privatização pode nos esclarecer sobre os desmandos e a traição do governo. E é preciso fazê-lo, porque o tempo corre contra nós enquanto esse governo age de forma desavergonhada contra o Brasil e seu povo. Comecemos pelos valores financeiros em jogo. A venda da Eletrobrás produziria uma arrecadação de R$ 20 bilhões. Comparemos esse valor com o que os governos brasileiros gastaram nos últimos anos em despesas questionáveis.

A Copa do Mundo, em 2014, custou R$ 26 bilhões aos cofres públicos. A Olimpíada, de 2016, custou ao todo R$ 38,26 bilhões, dos quais R$ 14 bilhões públicos. Em 2013 houve subsídios do governo federal à indústria automobilística de R$ 19,31 bilhões, o dobro do que foi investido no transporte público. Nem vamos falar nas vendas de licenças de exploração de petróleo, que todos conhecem, nem do fatiamento da Petrobras, para enfraquecê-la e depois privatizá-la totalmente.

Mas, o mais grave não é nada disso, São os juros da dívida pública, que faliu a União e destrói os serviços públicos, saúde, educação, segurança, transportes, proteção ambiental, etc. Seus números são estarrecedores. Vamos a eles.

A União pagou de juros em 2016 R$ 407 bilhões. No orçamento da União para 2017 cabe aos juros R$ 339,1 bilhões. O governo solicitou ao Congresso um crédito suplementar de R$ 20 bilhões, o que eleva a previsão de juros para R$ 359,1 bilhões. 50% do orçamento da União é gasto com os juros da dívida pública. É por essa razão que não há dinheiro para o mínimo de serviços necessários à população. Mem para pagar funcionários. Os gastos com os juros aumentam os problemas sociais. Faltam escolas o que condena jovens ao analfabetismo. As pessoas morrem por falta de assistência à saúde. Abre-se espaço para o crime organizado. Aumenta o tempo de viagem do cidadão nas cidades.

Nosso povo empobrece e a miséria cresce. A fome retorna aos lares dos mais pobres. A economia é freada por falta de investimentos. O dinheiro, que poderíamos investir no nosso desenvolvimento, é desviado para os juros que se transformam em dólares e são transferidas do país.  Para esses dólares, exportamos bens que nos faltam aqui, sobretudo alimentos.  O dinheiro dos juros serve também para comprar nosso patrimônio público. O dinheiro que entra da privatização, volta ao comprador através dos juros. É uma brincadeira de mágico ou de prestidigitador. Aumenta nosso empobrecimento, e toda a Nação é atingida Não há mais Ordem, nem Progresso. O governo gera a desordem e no lugar do progresso temos a recessão e o desemprego.

Mas não é só isso. Estamos perdendo nossa soberania e nossa dignidade. Os mineiros reagiram para defender parte de seu território, ocupado pelas usinas que seriam privatizadas, e de seus rios, que passariam para o controle de operadores estrangeiros. O caso da Samarco que poluiu o Rio Doce, mostrou-nos o descaso do capital estrangeiro em relação ao meio ambiente. Vivemos uma regressão histórica. Tudo isso faz lembrar-me dos Inconfidentes Mineiros que buscaram nossa independência do Reino português. Eles lutaram contra “o quinto do ouro”, do qual resultou a expressão “o quinto dos infernos”. Essa condição retorna com os 50% do Orçamento para pagar juros.

Os Inconfidentes devem ser nossa inspiração para resistirmos contra a traição de um grupo de aventureiros a serviço do capital financeiro, através da corrupção mais deslavada. Será possível que nós, brasileiros, fiquemos apenas assistindo a tantos desmandos e traições à Pátria?  Se assim for não teremos futuro. Seremos simplesmente fracassados. Que dirão de nós nossos descendentes?

Rio de Janeiro, 23/8/2017.

 

16, agosto 2017 8:25
Por admin

Na beira do abismo

Arnaldo Mourthé

            O Ministro da Fazenda se apresentou ontem na televisão, com pompa e circunstância, para informar sobre o aumento do déficit do orçamento da União para este ano. São mais 20 bilhões de reais a serem acrescentados aos 139 bilhões já previstos. Ele passa, assim, a ser de 159 bilhões, valor a ser acrescido à dívida pública federal, já impagável, de mais de três trilhões de reais. Esta torna o povo brasileiro escravo de um compromisso que não assumiu e do qual nada usufruiu.  Com isso sobem os juros a ser pagos no próximo ano, que já consomem cerca de 50% do orçamento da União. Essa é a razão pela qual falta dinheiro para tudo, para a saúde, para a educação, para pagar o funcionalismo e para os investimentos essenciais ao bom funcionamento da sociedade e da economia.

Quando ainda criança, eu ouvia dizer, em momentos de dificuldades diversas, em especial quando os preços dos produtos essenciais subiam no armazém, que o Brasil estava a beira do abismo. Mas, ao lado do pessimismo que gerava essa expressão, havia a contrapartida bem humorada de dizer que não havia abismo tão grande que coubesse o Brasil.

O tempo passou e junto com ele as idas e vindas das condições das pessoas e do seu humor. Até que, naquele tempo de minhas infância e adolescência, as coisas se  acomodavam de uma forma aparentemente natural. As escolas se multiplicavam e o nível cultural das pessoas ia subindo. O país se industrializava e as oportunidades de trabalho se diversificavam e aparentemente ganhava-se em qualidade de vida. Mas nem em todos os aspectos. Também ocorria uma urbanização acelerada sem os devidos cuidados de quem parece não saber bem o que fazer e como fazer. Mas tudo em um ritmo que permitiria no futuro, na medida de novos conhecimentos adquiridos, consertar os erros reduzindo suas consequências.

Mas veio o tempo do Brasil grande, apregoado pelos militares. Tudo precisava ser grande a qualquer custo. O ministro Delfin amenizava as consequências de sua política anti-social, de arrocho salarial, com outra expressão de marqueteiro: é preciso fazer crescer o bolo para depois dividi-lo com todos. De engodo em engodo, não sem uma brutal repressão para frear os mais ousados, foi-se levando o Brasil, cada vez mais próximo do abismo tão temido por nossos antepassados.

O projeto dos militares não deu certo. Criaram mais problemas que soluções. Permitiram a intromissão de potências e corporações estrangeiras nos nossos assuntos internos. Mas a população, que conheceu o lado repressivo da ditadura, não chegou a perceber que o seu fim não seria uma solução para o caminho tortuoso pelo qual empurravam o Brasil. A chamada Nova República, não era nova, nem República, mas um arremedo de democracia de fachada para um projeto maior de espoliação do Brasil. Montou-se um sistema partidário e de financiamento das eleições que afunilava o acesso ao Congresso dos que defendiam os direitos do cidadão. Formou-se um poder corrompido, que só poderia servir a quem pode corromper. Aquele que dispõe de dinheiro ou poder político. As coisas foram se ajeitando a favor de elites inescrupulosas e seus sócios estrangeiros, donos do grande capital.

Um esnobe senhor, com ar de nobreza, título universitário e conhecido com FHC, assumiu o poder como um barão do café, com soberba e desprezo pelo país e seu povo. Sua tese era a da dependência: desenvolver o capitalismo dependente das nações metropolitanas. Uma forma nova de colonialismo ensinado pelos neoliberais, com o título de globalização.

A partir daí foi a festa do investidor estrangeiro. Para afagá-los foi elaborado um modelo econômico que oferecia todos os favores ao capital estrangeiro, inclusive o endividamento público, com juros muito acima do razoável, para permitir a entrada de capitais especulativos, gerando divisas para a exportação de juros e lucros das multinacionais.

A população reagiu e elegeu o candidato da oposição, Lula. Mas esse e seu partido caíram em tentação, diante de um poder jamais visto por eles, e mantiveram o modelo suicida de FHC. O caos que daí decorreu todos nós conhecemos e amargamos hoje. Lula e sua sucessora, Dilma, serviram de bode expiatório para todos os desmandos que vinham sendo construídos e praticados ao longo de décadas, nos moldes modernos, e séculos sob o colonialismo e o escravismo.

Hoje temos no poder um governo que representa a culminância desse processo perverso, o Governo das Trevas. Este sabe muito bem da gravíssima situação do país e administra a sua liquidação, se é que seja possível.

Voltando à metáfora do abismo, podemos considerar que eles acreditam que não há abismo tão grande que caiba o Brasil. Só que eles têm um abismo pela frente. Seu projeto além de macabro é inviável, está condenado à morte. Mas na sua loucura, ou desespero, devem estar imaginando usar o Brasil para aterrar o abismo que seria menor do que ele. Nesse caso ainda sobraria um pedaço do nosso país para o usufruto da elite perversa que assaltou o poder. São impostores, capazes de trocar o Brasil por sua salvação, no caso, talvez, uma gorda conta bancária em algum dos bancos que sugam nosso dinheiro através da dívida pública. A sua intenção pode ser representada pelo apelo do rei impostor inglês Ricardo III, “Meu reino por um cavalo”

Se há um abismo, quem cairá nele serão eles, os representantes da elite calhorda que os apoia. Quanto ao Brasil será uma poderosa, livre e justa nação, exemplo para o mundo. Quem viver verá!

Rio de Janeiro, 16/8/2017.

04, agosto 2017 3:14
Por admin

Após a Primeira Guerra Mundial, o embate social

Arnaldo Mourthé

            Em 1917 o desânimo que afetava as populações dos países em conflito já era enorme. As baixas nas tropas atingiam a todas as famílias, com seus milhões de mortos e feridos. Os esforços de guerra eram desesperados. As mulheres foram mobilizadas para atender à produção e aos feridos, o que lhes daria força política para conquistar direitos civis. O uso maciço dos canhões destruiu tudo em torno das frentes de combate, praticamente imóveis. A destruição da região das linhas de defesa foi total, especialmente pequenas cidades, fortes e fortalezas. No campo político o desânimo se transformou em revolta. As organizações socialistas e comunistas, que defendiam os trabalhadores, identificaram a guerra como de interesse capitalista e não das nações em conflito.

Na França, durante os meses maio e junho, houve diversas greves com grandes manifestações que chegavam a reunir 100 mil pessoas. A reivindicação principal era o combate ao custo de vida que havia subido enormemente. O consumo das tropas não deixava grande coisa para o comércio corrente, e os preços subiam além da capacidade de compra do operário. Por causa disso os governos caiam. Na Inglaterra, ocorreram grandes greves, mas sem mudanças políticas. O gabinete de Lloyd George manteve-se. Na Itália, em agosto, ocorreram revoltas que pediam a neutralidade do país. Na Alemanha, 125 mil operários das indústrias de munição entraram em greve, e houve motins de marinheiros. Na Áustria esgotada, o próprio imperador Carlos I tenta negociações secretas para pôr fim à guerra, mas é malsucedido. O núncio apostólico em Munique, monsenhor Pacelli, mais tarde papa Pio XII, vai ao papa Bento XV em prol de uma mediação da Santa Sé para buscar o fim da guerra.

Mas o impacto maior ocorreu na Rússia. O descontentamento geral criou condições favoráveis para a vitória da Revolução de Outubro, (ocorrida em 17 de novembro de 1917, conforme o calendário gregoriano), com a queda do czarismo. Em 15 de dezembro a Rússia decide unilateralmente pela paz, o que seria mais tarde ratificado pelo tratado de Brest-Litovsk. A Alemanha poderia reforçar a frente oeste com seus 700 mil soldados da frente leste.

As classes dominantes, em todos os países, careciam da confiança da população. Mas os EUA estavam intactos. Sua economia esbanjava vigor. Nada do seu país fora destruído. As perdas humanas foram relativamente pequenas. Numa guerra onde os principais protagonistas foram destroçados, a presença americana fez a diferença. Naquele momento eles eram vistos como os campeões da paz, que eles teriam trazido para uma combalida Europa. Esta precisaria ser reconstruída e para isso os EUA seriam fundamentais.

Nessas condições o presidente Wilson pôde ditar os princípios do Tratado de Versalhes, que deu fim oficial ao conflito e definiu a política com a qual a Europa se comprometeria a partir de então. Tudo foi feito nos termos dos Quatorze Pontos do discurso que ele fez no Congresso americano em 8 de janeiro de 1918. Ali estavam expressos os princípios do liberalismo que deveriam nortear a política internacional nas próximas duas décadas. Entre eles destacamos: liberdade dos mares; abolição das barreiras econômicas entre os países; restituição da Alsácia e Lorena à França; reformulação das fronteiras italianas. E mais, a demolição do Império Austro-Húngaro, assim como a do Império Otomano, e a independência dos países deles dependentes, e, por fim, a criação da Liga das Nações. Numa só tacada, os EUA retiraram da Inglaterra qualquer presunção de hegemonia sobre a navegação, abriram para si os mercados da Europa industrializada e dos novos países independentes.

Eles, que já haviam superado a produção industrial inglesa, na primeira década do século XX, passaram a exercer uma liderança mundial incontestável nos planos diplomático e econômico. Mas, no seu discurso dos Quatorze Pontos, o presidente Wilson não tratou das causas da guerra, a posse desproporcional dos territórios coloniais em relação às economias das nações europeias. Não faltavam, portanto, motivos para uma nova guerra que viria em futuro próximo. A Conferência de Paz que deu origem ao tratado foi conduzida por Georges Clemenceau (1841-1929), presidente do Conselho de Ministros francês e pelo presidente Wilson. Dessa conferência a Alemanha e a Rússia não participaram, mas apenas os países vencedores. À Alemanha foi imposta uma indenização de guerra para cobrir todos os prejuízos de seus inimigos. O economista e financista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), que participava da Conferência como delegado, ao lado do ministro inglês Lloyd George (1863-1945), opôs-se aos termos da indenização por sua inviabilidade, mas foi desconsiderado e retirou-se da reunião. Suas razões foram expostas no documento As consequências econômicas da paz, de 1919.

Keynes sabia que a guerra já não era mais um jogo de vontades. Ela se tornara um remédio amargo para o tratamento da contradição principal do sistema capitalista, a diferença entre os recursos aplicados pelo capitalista na produção e o preço das mercadorias produzidas. Ou seja, o lucro entesourado pelo capitalista, que gera estoques de mercadorias sem mercado. Os fatos históricos viriam comprovar que ele tinha razão: a crise de 1929; a revolta contra as imposições do Tratado de Versalhes aos alemães; a ascensão do nazismo ao poder; e a Segunda Guerra Mundial.

Na Inglaterra o clamor da população, que tanto sacrifício fez durante a guerra, levou-a a conquistar o sufrágio universal em 1918, a partir dos 21 anos para os homens e de 30 anos para as mulheres. Em 1928 as mulheres ganharam também o direito de votar aos 21 anos.

Desde 1919 as greves se multiplicaram, o que obrigou o governo a criar o seguro-desemprego em 1920. Em 1922 foi fundado o sindicato dos trabalhadores dos transportes. Em 1924 os trabalhistas, Labour Party, assumem o poder e levam a Inglaterra a reconhecer a URRS. Mas, onze meses depois, os trabalhistas perdem as eleições para os conservadores e Stanley Baldwin torna-se primeiro-ministro. Ele fez uma reforma monetária para restabelecer o padrão ouro para a libra esterlina, em 1925, elevou os preços dos produtos de exportação e também o desemprego. Em 1926, ocorre a greve geral dos trabalhadores. Em 1929 o Labour Party retorna ao poder com a crise econômica.

Os danos sofridos pela França foram maiores que os da Inglaterra. Ela teve 1.380.000 soldados mortos, dez por cento dos homens em idade de combater, e 4.270.000 feridos. Entretanto, a conquista territorial da Alsácia e Lorena consolou a população. Sua economia manteve-se estável, diferentemente do ocorrido na Inglaterra, e passou a crescer a partir de 1920. A força da agricultura foi decisiva para sua recuperação mais rápida. Mas no plano político a instabilidade foi muito grande. Entre 1918 e 1940, o governo francês mudou 42 vezes. O Tratado de Locarno, de 1925, garantiu as novas fronteiras da França, mas os franceses desconfiavam da recuperação econômica alemã e temiam uma nova invasão. Para aumentar sua segurança foi projetado um monumental sistema de defesa na fronteira dos dois países, a Linha Maginot. Sua construção começou em 1929 e terminou em 1936. Entretanto, por razões diplomáticas, essas defesas não cobriam a fronteira com a Bélgica, o que viria a ser desastroso quando da nova guerra de 1939.

Logo após a guerra a situação na Europa continental era caótica. Mas a reconstrução da Europa, apesar das frustrações dos perdedores, criou otimismo na população. A situação da Alemanha melhora a partir de 1924 e ela restabelece as boas relações com os países vizinhos.  Em reação às mágoas da guerra produz uma explosão artística no cinema com Fritz Lang e Marlene Dietrich. No teatro aparece a primeira peça de Bertold Brecht. O movimento expressionista se manifesta poderoso na pintura. Berlim concorre com Viena e se coloca como principal centro cultural Europeu. A revolução bolchevista também influenciou nesse processo. A simpatia pelo socialista aumentava e os comunistas se fortaleceram.

No Brasil também houve muitas mudanças, mesmo distante do cenário da guerra. Os trabalhadores já havia mostrado sua força na Greve Geral de 1917. Os industriais já se incomodavam com o poder dos barões do café. A movimentação na área política influenciara na formação de partidos de esquerda, contra a pressão social discriminatória e repressiva. Ocorreram revoltas militares importantes, como os Dezoito do Forte, em Copacabana, e a Coluna Prestes, que percorreu milhares de quilômetros no interior do Brasil. Os intelectuais de vanguarda realizaram a Semana de Arte Moderna em São Paulo, ali no principal centro de poder dos barões do café.

Mas falou mais alto a realidade econômica. Os conservadores voltaram ao poder com força na Europa. Nos Estados Unidos um boom de desenvolvimento gerou grande euforia. Mas tudo isso iria durar pouco. A prosperidade dos anos dourados daquela década terminaria com uma brutal crise econômica em 1929.

Rio de Janeiro, 03/8/2017.

 

 

 

02, agosto 2017 4:43
Por admin

Artimanha perigosa do Impostor

Arnaldo Mourthé

            Assistimos hoje na televisão uma cena de soldados do exército parando caminhões de carga na Avenida Brasil, para revista. Segundo o noticiário, tratava-se de ação de controle à procura de armas de uso exclusivo das forças armadas, que abasteceriam o crime organizado no Rio de Janeiro. Esperamos que seja para o bem da sociedade, como mencionou o apresentador do noticiário.

Essa ação está inserida no acordo entre governo do Estado e a União para combater o crime organizado, com o suporte das Forças Armadas. Segundo o Ministro da Defesa seria uma colaboração de “inteligência” para descobrir as origens das armas e os arsenais clandestinos. Se o crime organizado usa armas pesadas, de uso exclusivo das Forças Armadas, nada mais justo que elas cuidem dessa questão.  Mas precisariam elas de um acordo formal entre União e Estado para cumprir essas tarefas? Evidentemente que não. Basta o Ministro determinar que elas sejam executadas. Tudo indica, portanto, que o acordo vai mais além da questão do crime organizado e suas armas ilegais.

Tramita na Câmara de Deputados um pedido de autorização do Supremo Tribunal Federal para processar o Presidente, por crimes praticados no exercício do poder. Há uma grande movimentação do governo e de seus acólitos para evitar a aprovação da investigação, embora sejam necessários apenas 172 votos, um terço mais um, dos 513 deputados federais, para parar a investigação. Seria fácil para um governo que teve maioria para aprovar a Reformas  da CLT. Acontece que uma pesquisa de opinião da semana passada mostrou que 81% dos entrevistados é a favor da sua continuidade, e que apenas 5% apoiam seu governo. Esse dado nos indica a fragilidade do governo, não apenas na opinião pública, como no próprio Congresso Nacional, apesar das benesses concedidas a deputados e senadores por seu apoio.

A administração pública, nos Estados e na União, está caótica. Funcionário sem receber salários, entidades sem recursos para suas atividades, prédios caindo aos pedaços, pessoas morrendo na porta de hospitais por falta de assistência médica, a educação pública na maior precariedade, a infraestrutura de transportes deteriorada, quatorze milhões de desempregados e outro tanto de subempregados. A fome e a morte batem à porta de dezenas de milhões de brasileiros. Essa situação não é normal e nunca ocorreu no país tamanha calamidade. Por muito menos o povo foi para as ruas exigir providência do governo, ou para pedir seu fim. Foi isso que aconteceu nos impeachments de Collor e de Dilma. Não me cabe especular sobre o porquê de não ter havido algo parecido para a saída de Temer. São mistérios da política, ou falta de perspectiva sobre a sua substituição. Não há grande coisa a escolher para governar o País, onde os poderes Legislativo e Executivo caíram no descrédito pelos desmandos e pela corrupção, e os discursos políticos tornaram-se vazios, incapazes de apontar caminhos, e de mostrar à população as origens e as consequências desses desatinos que estão sendo praticados.

Nesse quadro, os governantes tentam de tudo para manterem-se no poder. Este pode escapar-lhes se o povo for à rua, como o fez em 2013, com reivindicações precisas e sem rótulos políticos. Eles não têm nem mesmo a segurança de ter a polícia para fazer o serviço sujo como fez naquela época. Os próprios policiais não confiam mais no governo federal nem no do Rio de Janeiro. Esse quadro talvez explicque a mobilização das Forças Armadas para o dito “combate ao crime organizado”. O governo Temer busca na verdade desencorajar a população de usar o seu direito de protestar e, também de derrubar o governo. Por que não?

Há mais de trezentos anos o filósofo liberal inglês John Locke (1632-1704) admitia o direito do povo de derrubar os governos que não cumpram com sua obrigação de respeitar as leis, especialmente, quando enveredam no caminho dos desmandos e da prevaricação. Ele disse: (…)  tem-se o direito não somente de livrar-se da tirania, mas também de evitá-la.” Mais tarde, os Pais Fundadores dos Estados Unidos escreveram:

(…) Nós temos por evidentes por elas mesmas as verdades seguintes: todos os homens são iguais; eles são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis: entre esses direitos se encontram a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Os governos são estabelecidos entre os homens para garantir esses direitos, e seu justo poder provém do consentimento dos governados. Todas as vezes que uma forma de governo ameace esse objetivo, o povo tem o direito de mudá-lo ou de aboli-lo, e estabelecer um novo governo, fundado sobre os princípios e organizado na forma que lhe parecerão os mais adequados para lhe oferecer a segurança e a felicidade [...]

A grave crise que o Brasil atravessa está servindo de oportunidade para que um grupo de aventureiros a serviço de interesses externos ao país possa manipular de forma cínica as instituições, por meio de trapaças e da corrupção. Eles se consideram intocáveis, pois foram colocados lá pelo poder financeiro internacional. Desafiam o Poder Judiciário e aquele que é realmente o poder, o nosso povo, o cidadão brasileiro. Para tanto agora se dão o direito de colocar as Forças Armadas cumprindo papel de polícia. Ultrapassaram todos os limites já conhecidos de um poder de impostores.

Há que fazer uma reflexão profunda sobre tudo isso. Especialmente aqueles, como eu, que conheceram as tramas que levaram à ditadura militar, e os atos lesivos dela, que até hoje refletem de forma negativa na nossa vida de pessoas e de Nação. Vamos falar apenas de dois casos, que são oportunos: o crime organizado, e a crise financeira da União. Todos os dois têm reflexos em toda a sociedade brasileira.

O crime organizado começou com a ditadura. Antes delas os bandidos eram individualistas. No máximo atuavam com alguns parceiros, sempre poucos, pois sua atividade podia ser considerada de subsistência. Nesse quadro ficaram famosos alguns destemidos, com Lúcio Flávio, no Rio e Sete Dedos em Minas Geias. Havia traficantes, mas a droga da época era a maconha. Seu consumidor era chamado “maconheiro”, uma expressão pejorativa. Os que traficavam não tinham armas pesadas. Eram oportunistas e usavam o subterfúgio. Nem chegavam a preocupar a sociedade.

Com a ditadura, os jovens que se rebelaram, tidos como “subversivos”. eram “torturados” e levados à prisão comum, onde se encontravam com os criminosos de todos os tipos. Os prisioneiros políticos eram respeitados. Não haviam praticado nenhum crime e haviam demonstrado destemor. Todos os bandidos queriam conversar com eles. Assim aprenderam a se organizar, pois a clandestinidade exige organização e disciplina. Depois de liberados, alguns desses criminosos transformaram-se em chefes de quadrilha poderosos. O mais conhecido do Rio foi o Escadinha. Mas isso não aconteceu apenas no Rio. Vê-se que  foi a política repressiva da ditadura que criou o crime organizado, que hoje domina o tráfego de drogas. Será a repressão o instrumento que irá destruí-lo?

A crise financeira começou com “o Brasil grande”. Investimento em massa com recursos externos que gerou a dívida externa, que depois, por obra e graça de Fernando Henrique Cardoso, se transformou na dívida pública, que financiou a ascensão desse governo de impostores. Sobre esse assunto já nos discorremos longamente. Para aqueles que têm interesse em conhecer mais sobre o assunto, recomendo buscar na internet o documentário “Dívida pública: soberania na corda bamba”.

Não há nenhuma política pública válida que possa justificar o uso das Forças Armadas no combate ao crime organizado no Rio de Janeiro. As funções delas são outras e muito mais nobres: defender a Soberania Nacional e as Instituições republicanas. Um governo sério as deixaria com seus deveres e as ajudaria a se prepararem para a Nobre Missão de defender o Brasil, quando esse tiver que tomar as medidas contra os espoliadores internacionais que estão abusando de todos nós. Usam-nos como instrumentos para satisfazer seus interesses mesquinhos. No caso do Brasil querem que nos tornemos uma grande zona industrial, sob seu controle, para concorrer com os produtos chineses. É um projeto tresloucado, mas que pode nos transformar em uma colônia e nossos trabalhadores em servos.

O objetivo de Temer, é usar as Forças Armadas contra o nosso povo. As experiências dessa natureza foram trágicas, e não foi apenas a da ditadura. Não há nada que justifique um conflito entre Forças Armadas e o povo. Elas foram constituídas para defender a Nação, e esta não existiria sem o povo que a construiu. Na República verdadeira todos do povo são cidadãos, origem de todo o poder do Estado Republicano. Sendo assim, a artimanha do Presidente é um golpe contra toda a Nação. A intenção é destruí-la. Transformá-la em uma colônia de novo tipo, sob a tutela do poder financeiro, cuja seja está na Wall Street, em Nova Iorque.

Chegou a hora de nós, povo brasileiro, acordarmos e passarmos a trabalhar em um projeto para a grande Nação que nós somos. Para isso nossa unidade é necessária, enquanto brasileiros. Esqueçamos a luta entre “coxinha” e “mortadela”, que nos desune e cria as condições ideais para sermos dominados. A humanidade nos agradecerá.

Rio de Janeiro, 01/8/2017.

 

 

 

31, julho 2017 2:04
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O caráter destrutivo do capitalismo

Arnaldo Mourthé

            Em 1873 ocorreu um crash na bolsa de Viena, aparentemente produzido por fortes financiamentos e especulações no setor imobiliário. Seguiu-se uma depressão econômica que atingiu imediatamente a Alemanha e se estendeu por toda a Europa e os EUA. Foram à falência centenas de bancos e entre quinze mil e vinte mil empresas industriais somente na Europa. A concentração das atividades bancárias e industriais que se seguiu criou uma nova fase no sistema capitalista, primeiro com os cartéis, depois com os monopólios. Os bancos tornaram-se acionistas, em muitos casos controladores, das grandes indústrias e corporações. Isso facilitou a criação de trustes, cartéis e monopólios. O capital financeiro assume sua posição de hegemonia no sistema capitalista. Pensava-se, assim, controlar as crises, sem levar em conta que elas estão na própria natureza do capitalismo.

Superada a crise econômica de 1873, a Europa retomara sua expansão econômica. Com o fim do tráfego de escravos, a África entraria em nova fase, a de fornecedora de matérias-primas para a indústria europeia, outra tragédia para o povo africano.

Em 1876 apenas três potências detinham possessões coloniais. A Inglaterra, a Rússia e a França. Os territórios sob controle britânico tinham 22,5 milhões de quilômetros quadrados de área e 251,9 milhões de habitantes. Sob o controle da Rússia estavam 17 milhões de quilômetros quadrados e 15 milhões de habitantes, e da França, 900 mil quilômetros quadrados e seis milhões de habitantes.

Durante um período o capitalismo conseguiu reduzir o impacto de suas crises com seus investimentos na África, não impedindo, entretanto que elas se manifestassem em 1882 e 1900. Mas a divisão do mundo como um todo dava à Inglaterra a maior parte, fazendo jus à sua hegemonia marítima. Mas não ocorrera conforme a capacidade industrial das nações europeias. Isso gerou desentendimentos entre elas. A paz ficou ameaçada. A Alemanha se ressentia das desvantagens da partilha das colônias.

O final do século XIX foi um momento em que as nações recém-formadas, como a Alemanha, a Itália e outras, desenvolveram um forte sentimento nacionalista, temerosas do retorno aos tempos passados de intervenções sistemáticas das potências nos seus negócios internos e, até mesmo, nos seus limites territoriais. Havia uma grande pendência entre a Alemanha e a França em relação à Alsácia e à Lorena.

Apesar da inferioridade tecnológica inglesa, seus territórios coloniais sustentavam sua supremacia comercial. As tentativas da Alemanha para melhorar sua posição na partilha colonial encontraram fortes resistências da Inglaterra e da França. As questões territoriais decididas em tratados, resultantes de guerras anteriores, passaram a ser contestadas pela Alemanha e por sua aliada, a Áustria.

A crise de 1873 concentrou o poder econômico nos maiores bancos, dando início aos monopólios. A de 1900-1903 reforçou o poder dos bancos e gerou o imperialismo. A crise de 1907 potencializou o poder dos grandes bancos. As grandes decisões das nações não eram mais apenas negócios de Estado, gerido por um poder político transitório. Eram das burguesias nacionais, industriais e banqueiros.

Ficaram para trás os tempos em que as guerras eram feitas por interesses das dinastias, pelo poder e pela dominação de territórios. Quando os conflitos ameaçavam as instituições, as famílias reais ligadas por laços de sangue buscavam sempre um entendimento. Entretanto, os poderes constituídos depois das revoluções burguesas tinham como foco político defender os interesses da burguesia capitalista, o lucro e a acumulação de capital. Numa situação de crises frequentes na economia, ir à guerra tornou-se uma rotina. Decidida a divisão do mundo, as colônias deixaram de ser o cenário da guerra. Nada impedia, entretanto, que ela ocorresse na Europa.

Em 1914 o número de metrópoles era seis: Inglaterra, Rússia, França, Alemanha, Estados Unidos e Japão. A França foi a maior beneficiária da partilha da África, ficando com 10 milhões de quilômetros quadrados de território. Mas a Inglaterra era de longe a maior potência colonial. Ela detinha então um território colonial de 33,5 milhões de quilômetros quadrados, com 393,5 milhões de habitantes, enquanto seu território era de apenas 300 mil quilômetros quadrados, com 46,5 milhões de habitantes.

Voltemos à história da economia para vermos que o capitalismo não iria demorar a revelar mais uma vez sua natureza de gerador de crises periódicas. Em 1907, Nova York tornou-se o palco da crise financeira que abalou os EUA, a Europa e a América Latina. Comentou-se nos altos meios financeiros que um pequeno banco de Nova York estava na iminência de falir. A informação vazou e provocou uma corrida dos depositantes para sacar seu dinheiro. Agitadores percorriam as ruas alardeando a quebra dos bancos da Wall Street. Os grandes banqueiros, sob a liderança de J. P. Morgan, que teria sido o autor do comentário infeliz, empenharam-se para salvar o sistema bancário. A primeira medida foi mobilizar os meios políticos, administrativos e religiosos para acalmar a população. Mas a crise era real. O pânico apenas a revelou. A euforia econômica estava sendo sustentada pelo crédito fácil, que excedera à capacidade de pagamento dos tomadores.

Com os bancos quebrados, a economia entrou em depressão, que se alastrou pela Europa e outras regiões. Devendo ao sistema bancário, as empresas industriais tornaram-se suas presas. Aumentou a concentração da riqueza no sistema bancário europeu. Os grandes bancos de Berlim cresceram de 80 estabelecimentos em 1900 para 450 em 1911 (63). No Brasil, o resultado foi uma redução drástica das exportações de café. Houve quebradeiras, especialmente no setor cafeeiro e no bancário.

Passado o sufoco de 1907, os grandes banqueiros, que haviam se unido em Nova York para enfrentar a crise, delinearam sua estratégia para enfrentar novas situações como essa e tirar proveito delas. Em 1910 eles se reuniram na ilha Jekyll para definir suas posições. Os presentes representavam os homens mais ricos do mundo, entre eles os das famílias Morgan, Rockefeller, Rothschild, e outros com grande poder e influência política. Seu plano resultou na criação do Banco Central americano, o Federal Reserve ou FED. Aparentemente o FED é um sistema público, mas não é. Ele é formado por instituições privadas, com sócios privados e administração privada. Seus diretores são nomeados pelo governo dos EUA, mas isso não o impede de ser privado, apenas dá-lhe a aparência pública, que lhe é extremamente útil, já que ele recebeu do Congresso americano a concessão de emitir dinheiro, prerrogativa que lhe era exclusiva, como prevê a Constituição dos EUA.

A lei que criou a Federal Reserve foi aprovada em um Congresso praticamente em recesso, no dia 23 de dezembro de 1913, e imediatamente sancionada pelo presidente Wilson. O sistema do Federal Reserve foi instalado no ano seguinte. Ele é supervisionado por um Conselho de Governadores que tem como estrutura operacional doze bancos privados americanos, seus sócios. A partir de sua criação, passou a administrar a venda de títulos do Tesouro americano e definir as taxas de juros que o governo paga, sob a alegação de controlar a inflação e proteger o depositante contra irregularidades praticadas pelos bancos, no que a experiência demonstrou não ter sido eficaz. O fato é que a partir daí os banqueiros tiveram não apenas o poder de influência do dinheiro, mas também a decisão sobre a política monetária americana, e mundial, quando a economia americana se tornou dominante, logo depois da Segunda Guerra Mundial (137).

Com a crise de 1907 estava montado o quadro para o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial, cuja história é muito conhecida.  Ela envolveu toda a Europa e o Oriente Médio. E quais foram seus resultados?

O Tratado de Versalhes, de 28 de junho de 1919, remodelou o mapa político da Europa. Alemanha, Hungria, Áustria, Polônia, Tchecoslováquia, Lituânia, Letônia e Estônia, adotaram o regime republicano. A França incorporou a região da Alsácia e Lorena. A Itália e a Grécia aumentaram seus territórios e os consolidaram. Surge o Reino da Iugoslávia. Foi criada a Liga das Nações. O Império Otomano perdeu seus territórios na Europa com a independência de suas colônias ali. As do Oriente Médio ficaram sob a tutela da Inglaterra e da França. A revolta de Mustafá Kemal contra o tratado de Sèvres, de 10 de agosto de 1920, derruba o sultão Maomé VI, em 1922, funda o Partido Republicano do Povo e institui a Turquia moderna.

Mas o custo dessa aventura militar foi devastador. A guerra envolveu no total 65 milhões de soldados. Desses, 8,5 milhões foram mortos e muitos outros milhões feridos. Entre os civis foram 10 milhões os mortos por razões diretas ou indiretas da guerra. As máquinas para a destruição e a morte eram mais eficientes que as que produziram a prosperidade da sociedade industrial. Ficou a lição de que a mistura do poder destrutivo das máquinas e da química, com a ambição humana sem limites, pode ser catastrófica. Porém, os fatos posteriores mostraram que essa lição não foi aprendida pela humanidade, ou, pelo menos, não o foi pela elite que a conduz, não se sabe bem para onde ir. É o que veremos a seguir.

Rio de Janeiro, 28/7/2017.

27, julho 2017 7:10
Por admin

O embate entre o pensamento crítico e a ideologia

Arnaldo Mourthé

            O pensamento crítico questionou o dogmatismo da Igreja Romana que deu origem ao Renascimento. Mas este ainda não foi suficiente para clarear as mentes de forma ampla. Ele apenas liberou a Europa para exercer o seu direito à liberdade de pensar. Nós vimos como isso foi importante no florescimento da literatura, das artes e na pesquisa dos fenômenos da natureza, mas não atingiu o poder da realeza, apenas o centralizou com o absolutismo.

Esse processo de negação dos dogmas impostos pela Igreja Romana induziu os filósofos a escolherem entre os sentidos e a razão, como os caminhos para o conhecimento, formando as duas correntes filosóficas dos empíricos e dos racionalistas. O primeiro grande racionalista foi Descartes (1596-1650), que escreveu o Discurso do Método,  criou as coordenadas cartesianas, e teve grande influências sobre a formação filosófica na sociedade industrial. Como discípulo de Descartes veio Spinoza (1632-1677) que construiu um modelo filosófico que ele chamou de método geométrico. Ele era deísta. Para ele Deus é a totalidade, o conjunto de todas as  coisas, a substância única da qual o universo foi construído. Mas em geral as questões espirituais foram relegadas, como fonte do saber. Nesse sentido há a considerar os efeitos psicológicos da Inquisição em todos os pensadores, criando barreiras de autodefesa. Isso prejudicou a evolução  filosófica, mas não a impediu. Os moderados se contiveram e os audaciosos correram os riscos. Alguns foram parar na fogueira, mas isso faz parte da vida.

Os ensinamentos espirituais segundo os cristãos, assim como os judeus e os mulçumanos, provêm, da revelação. Os filósofos do Oriente, Lao Tsé, Confúcio e Buda, centraram sua atenção nas questões espirituais, da ética, da moral, das relações harmoniosa entre os homens e da fé em um poder transcendental.

Enquanto isso, a burguesia fortalecia seu poder econômico, e construía sua ideologia, disfarçada de filosofia, o liberalismo. Com seu modo de produção capitalista e com esse instrumento intelectual, ela chegou ao poder. O poder burguês gerou conflitos de interesse agudos na sociedade. Travou-se então um embate filosófico que se transformou em ações políticas através de organizações sociais, sindicatos e partidos políticos. Os desdobramentos desses conflitos geraram grandes acontecimentos, como a Independência dos EUA e a Revolução Francesa.

Paralelamente a essas questões, as investigações sobre os fenômenos da natureza   ganhavam corpo. Era preciso algo mais que a simples necessidade de experimentação para se compreender os fenômenos da Natureza. Foi nesse quadro que Francis Bacon (1561-1626), homem de Estado inglês com formação jurídica e filosófica e escritor, formulou os princípios de um método indutivo e experimental, refutando de um lado o empirismo espontâneo, assim como o racionalismo abstrato, unificando o caminho do método experimental, fundamento do conhecimento científico. Estava criada a ciência.

O século XVIII foi de grandes mudanças na sociedade. A principal manufatura capitalista, a indústria têxtil, só usava instrumentos rudimentares, não muito diferentes dos da produção artesanal A diferença estava no grande número de trabalhadores concentrados no mesmo lugar, e uma maior jornada de trabalho, de 16 horas, seis dias por semana, que superava em muito a dos artesãos. Mas a força motora eram os membros dos trabalhadores, que eram mal nutridos. A forma de conseguir uma maior produtividade foi instalar as indústrias à margem dos cursos d’água, onde poderia ser utilizada a sua corrente para movimentar a roda d’água. As indústrias puderam crescer

O capitalismo industrial nascido a partir da indústria têxtil na Inglaterra contava com grandes unidades industriais, instaladas à margem dos cursos d’água. que lhe permitiam lavar os tecidos e fornecia a corrente d’água para movimentar suas máquinas, através da roda d’água. Mas essa condição era limitada, e as indústrias ficavam longe dos centros de consumo. O transporte era problemático, no lombo do cavalo ou em carroças. As estradas ficavam sulcadas, outra dificuldade. Embora a espoliação do trabalhador fosse desumana, a indústria estava em um impasse.

Mas a ciência avançava rapidamente com o método experimental. Newton descobriu as leis da mecânica. Os inventores começaram a aplicá-las. Inúmeras máquinas de tecer e de fiar foram criadas e logo aperfeiçoadas, com grande aumento de produtividade. Mas havia ainda a limitação da força motora. Foi então que o engenheiro escocês James Watt (1736-1819), aperfeiçoou a máquina a fogo do mecânico inglês Thomas Newcomen (1663-1729), utilizando os estudos do físico e químico escocês Joseph Black (1728-1799), e cria a máquina a vapor, para ser utilizada no bombeamento de água das minas. Essa máquina passou a gerar a força motriz da indústria têxtil, que se libertou dos cursos d’água e pôde se instalar juntos aos portos. O poder industrial inglês cresceu.

Mas a máquina a vapor faria outras proezas. A partir dela e, ainda, para sua utilização nas minas foi criada a locomotiva a vapor pelo engenheiro mecânico inglês George Stephenson, da qual resultaram as estradas de ferro que o já iniciado Império Inglês, distribuiria para todo o mundo, e que faria da Inglaterra a maior potência industrial e imperial do mundo. Foi também utilizada nos navios, o que fez crescer o comércio marítimo e a espoliação colonial.

A ciência se evoluía em vários campos e com ela a tecnologia que produziu a famosa Revolução Industrial, que dava início àquilo que conhecemos por Civilização Industrial, que se expande de forma exponencial, a ponto de comprometer a própria Civilização da Humanidade, através da poluição da Natureza. Era preciso, diante dessa vertiginosa corrida industrial e tecnológica, aprimorar a civilização nos seus aspectos humanos. Coube aos operários fabris, e aos intelectuais das mais variadas origens, enfrentar esse desafio. Ele o foi através do avanço da filosofia e da organização dos trabalhadores, no seio da qual surgiram novos conceitos ideológicos para defender aqueles que eram submetidos, cada vez mais, na medida do desenvolvimento da produção capitalista, que impulsionava o poder burguês na sua aventura de expandir-se pelo mundo, tudo dominando e tudo transformando em mercadoria. A mais consistente reação nesse sentido foi a surgimento do movimento filosófico francês, que se uniu através de l’Encyclpédie, ficando conhecido como Iluminismo.

Só em meados do século XVIII os filósofos tratam da questão do poder de uma forma mais abrangente, considerando em plenitude o papel de todos os homens nas decisões sobre o destino das nações. Os primeiros a terem essa visão mais abrangente foram Voltaire (1694-1778) e Montesquieu (1689=1755). A eles se agregaram Diderot (1713-1784), D’Alembert (1717-1783), Rousseau (1712-1778) e muitos outros.

O movimento filosófico sentiu a necessidade de um instrumento de divulgação de suas ideias. Sob a inspiração da enciclopédia inglesa de Ephraim Chambers, foi criada a Enciclopédia ou Dicionário racional das ciências, das artes e ofícios, que teve como principais animadores Diderot, um intelectual eclético que publicou seus Pensamentos  filosóficos, de 1746, e D’Alembert, matemático e físico que escreveu, em 1743, seu Tratado de dinâmica, no qual ele anuncia seu Princípio de d’Alembert.  Entre os muitos colaboradores desse movimento destacamos Condorcet, o autor de um projeto de educação pública, que correspondia aos princípios enunciados pela Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada pela Assembleia Nacional, em 26 de gosto de 1789, imediatamente após da queda da Bastilha, em 14 de julho. Outro importante colaborador  foi Ferdinando Galiani (1728-1787), abade italiano que publicou, em 1751, seu livro Da moeda, um clássico da economia política.

Das penas de Voltaire e Montesquieu surgiram trabalhos importantes sobre a sociedade e as instituições. Voltaire era voltado para o teatro, sua forma escolhida de comunicar suas ideias e sua critica à sociedade. Montesquieu, com o livro Cartas persas, ganhou grande popularidade. Nele, critica a sociedade francesa num quadro de ficção de grande criatividade. Ambos defendiam a divisão de poderes na gestão do Estado, ensinamento que até hoje é adotada nos governos que se intitulam republicanos: os poderes Legislativo, que  faz as leis, o Executivo que as executa, e o Judiciário, que julga da legalidade dos atos praticados pelos poderes do Estado e pelo Cidadão.

Rousseau foi o filósofo mais importante do iluminismo, por ser aquele que conceituou de forma precisa a instituição republicana, uma utopia ainda não realizada integralmente, mas que se apresenta hoje como uma necessidade para resolver a crise brutal que a humanidade atravessa. Os acadêmicos traçaram dele um perfil de idealista, no sentido de buscar o irreal, assim como fizeram com Platão. Isso porque ele alcançou, como ninguém até hoje, um grau de abstração do fenômeno social e da necessidade de uma instituição que correspondesse às aspirações humanas de liberdade e igualdade. A Revolução Francesa assimilou seu ideal e acrescentou à liberdade e à igualdade, que  seu Contato Social institui, mais uma condição para a uma sociedade humanizada, a fraternidade. Estas três mensagens foram as principais legendas de Revolução, que também nos legou a necessidade de que esses direitos sejam garantidos com a Declaração da Assembleia Francesa.

O iluminismo também influiu na Declaração de Independência dos EUA. Mas dada a natureza das classes sociais nas 13 Colônias do Norte, que se libertaram do domínio inglês, sua Constituição reconheceu a legitimidade da escravidão, mostrando o caráter da burguesia e seu comportamento diferenciado entre a  Metrópole e as colônias. Mas o pensamento crítico também evoluiu, com o método dialético de Hegel que Marx adotou, com algumas particularidades, na sua análise sobre a natureza do capitalismo.

Rio de Janeiro, 21/07/2017.

24, julho 2017 5:12
Por admin

A Era da ideologia

Arnaldo Mourthé

 

A escola filosófica de Atenas surgiu com Sócrates (470-399 a. C.). Ele nasceu dez anos depois da invasão de Xerxes, que queimou Atenas e destruiu o Partenon. Na sua juventude assistiu à pregação sofista, dos próprios filósofos dessa corrente ou através dos discursos demagógicos das autoridades, seus discípulos. Presenciou o início da carreira política de Péricles como membro do Conselho, em 448 a. C., sua ascensão à chefia do poder, em 445 a. C., e a reconstrução de Atenas. Certamente esteve presente na inauguração do novo Partenon, em 433 a. C., que consagrou o arquiteto e escultor Fídias. Foi soldado em várias batalhas. Se não participou diretamente da Guerra do Peloponeso (431-404 a. C) terá sido por sua idade, mas presenciou seus desatinos e suas consequências. Viveu um período muito rico, na explosão intelectual de Atenas, com seus historiadores, poetas, teatrólogos e os remanescentes filósofos da natureza. Era um homem ético que cultuava princípios e valores morais, e praticante fervoroso da reflexão e do diálogo. Nada lhe escapou dos costumes, da história, das crenças, da filosofia e do comportamento dos gregos. Os escritos de Platão demonstram isso sobejamente.

A literatura grega formou-se como extensão da tradição oral que lhe passou o estilo e a estrutura da narração através do diálogo. A população era na maioria analfabeta. Nessas condições as melhores e mais inteligíveis formas de comunicação eram o teatro e o debate público, ambos sob a forma do diálogo. Os textos das epopeias e do teatro eram diálogos poéticos, com poucas passagens narradas, em geral de louvação aos deuses. No teatro a narração era do coro, ou do corifeu, o regente do coro que também participava de alguns diálogos…

…Os sofistas eram céticos a respeito da possibilidade de se encontrarem respostas seguras para os fenômenos naturais. Como os filósofos da natureza, também criticavam a mitologia tradicional. Mas terminavam aí as semelhanças. Eles alegavam que o trabalho de investigação dos filósofos da natureza não fazia sentido. Por acreditar que o homem era a medida de todas as coisas, Protágoras se dedicava a estudar o comportamento humano e da sociedade. Os sofistas usavam o fato de conhecerem várias culturas com hábitos e costumes diferentes para negar a moral e a ética, e, assim, investirem contra os valores da sociedade. Para eles o natural era a lei do mais forte. A força e a violência seriam os únicos instrumentos efetivos para a organização da sociedade. Além de céticos, eram oportunistas e usurários. Serviam aos poderosos e eram regiamente pagos. Prepararam os políticos de Atenas para serem vencedores, através da arte de convencer, usando os meios mais eficazes para isso, como o engodo, a mentira e a demagogia. Foram os precursores dos marqueteiros. Com seu cinismo e falta de ética, corromperam a incipiente democracia ateniense…

 

Sócrates foi autodidata e amava a reflexão. Ele chegou à conclusão de que o pensamento em Atenas estava perdido no meio de mitos, crenças e argumentos que não tinham respaldo na verdade, e que isso criava muitos problemas para as pessoas. Elas se desorientavam e eram manipuladas na sua boa-fé. Fez da pesquisa do conhecimento e do combate à ignorância um apostolado. Parece estranha essa afirmação, mas ele encontrou não apenas uma cidade dominada pela ignorância, mas também pela farsa dos sofistas e de seus discípulos políticos, com sua sede de poder e seus privilégios. Sócrates fez sua cruzada pessoal no diálogo com a população na praça do mercado de Atenas, a Ágora. Ali se reuniam comerciantes e seus clientes, vindos de toda parte, assim como os homens públicos e cidadãos que frequentavam os prédios públicos situados a sua volta. Mas também dialogava com seus discípulos e admiradores nas casas de seus amigos. Platão, em narrativas repletas de sabedoria e de humor, transcreveu esses momentos.

Platão diz em seu livro Apologia de Sócrates a versão do que ele disse sobre a alegação de sua sabedoria, com base em consulta ao Oráculo de Delfos, no seu depoimento quando de seu julgamento:

Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes contra mim. Então, pus-me a considerar, comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, ao contrário, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele, nisso – ainda que seja pouca coisa: não acredito saber aquilo que eu não sei.

Isso mostra o nível de consciência de Sócrates em relação ao conhecimento. A introdução de seu pensamento crítico na Europa medieval, levado por sábios árabes,  iria produzir grandes efeitos na sociedade, a começar pelas críticas dos escritores pioneiros do Renascimento, Dante  (1265-1321), Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375). As artes também começaram a sofrer fortes transformações, vindo a produzir o período de maior criatividade e qualidade artística da nossa história. Mais tarde a escola neoplatônica de Ficino (1433-1499), em Florença, difundiu o método da dialética da discussão, que impulsionou o pensamento crítico, dando guarida aos pesquisadores dos fenômenos naturais, que fizeram descobertas fundamentais que vieram a sustentar a ciência.

A Idade Média foi uma Civilização Teocrática, que adotava como referência maior uma teologia construída a partir do cristianismo, mas que o maculou profundamente a partir do Concílio de Nicéia, no ano 325, presidida pelo imperador romano Constantino. Nele se adotou o dogma do “pecado original” que definia todos os homens como pecadores desde seu nascimento. Com esse conceito, o homem só obteria sua salvação pelo batismo e, a partir dele deviam submeter-se passivamente aos poderes do papado e de seus representantes, o clero. Desde então a Igreja Romana passou a editar bulas que regravam o comportamento dos homens. O não cumprimento de suas normas, implicava na excomunhão, sua exclusão da comunidade religiosa.

No processo de criação das nações europeias subordinadas ao Poder Papal, foi definida como crime de heresia o não reconhecimento das normas da Igreja. Elas passaram a ser uma obrigação de todos, que estavam sujeitos a penas que incluíam a morte na fogueira, uma forma da perdição de sua alma por toda a eternidade. O fato histórico mais clamoroso de todos os que foram produzidos por essa doutrina de perseguição ao que denominavam heresia, foi a Cruzada Contra os Albigenses. Ela produziu um grande genocídio no sul da França que durou de 1229 a 1244. A partir da caça aos hereges Cátaros, os Albigenses, a Igreja estabeleceu um sistema de repressão que se chamou Inquisição, que até nossos dias deixa marcas na cultura dos povos que foram catequizados. Foi durante esse processo que surgiram reações localizadas que, mais tarde, se difundiram e deram origem ao Renascimento.

O pensamento crítico pressupõe a liberdade da pessoa de pensar, agir e ter a crença que quiser. A forma de manifestação dessa liberdade no Renascimento foi o individualismo. O ser humano passou a ser o centro de tudo, como já era na concepção dos sofistas. A liberdade solta de qualquer responsabilidade é o caminho aberto para qualquer coisa positiva ou negativa, progressista ou retrógada. Nessas condições ela se manifestou várias maneiras. As artes e a ciência se desenvolveram. A filosofia renasceu. O poder foi questionado e disputado ferozmente entre aqueles que tiveram condições de fazê-lo. A maior dessas disputas foi entre a burguesia nascente e a nobreza decadente, mas que se refez através do absolutismo. Ela se manifestou, principalmente, através das guerras religiosas que macularam a Europa por muito tempo.

Para justificar os objetivos de cada parte, foram surgindo ideologias. Da liberal, nós já tratamos sinteticamente. Mas é preciso salientar que essa ideologia produziu reações que induziram á criação de novas ideologias, para contrapor os interesses de setores da sociedade aos da burguesia, esses dominantes, que avançavam sobre o controle sobre toda a sociedade, transformando tudo que nele existe em mercadoria. Assim, tudo na sociedade passou a ser vendável, do trabalho ao comportamento do homem. Todas as profissões, paulatinamente iam se transformando em mercadoria, cada qual com seu preço de mercado conforme o interesse dos burgueses em adquiri-las. O poder também  se tornou mercadoria. As decisões das autoridades, de privilegiar interesses, poderiam ser vendidas por ela e compradas por quem tivesse dinheiro. O objetivo maior era comprar leis, ou seja, fabricar normas que beneficiasse a burguesia em detrimento de todos os outros. Esse fenômeno chega potencializado a nossos dias, quando os poderes legislativos e executivos, que produzem e aplicam as leis, passaram a ser negociados no mercado.

Mas esse processo não foi tranquilo. As populações se revoltaram. As classes mais prejudicadas tomaram a vanguarda e fizeram seus movimentos, rebeliões nas cidades, greves nas fábricas, organizações corporativas ou políticas. As classes médias mais intelectualizadas, nas várias formas, também se organizaram e agiram coletivamente. Nesse processo histórico, formou-se um corpo social poderoso que se opôs a investida predadora da burguesia, inicialmente a industrial, depois, com maior intensidade, a financeira.

Foi nesse processo que surgiram as ideologias socialistas, que se manifestaram diferentemente em função da realidade de cada país, comunidade, ou grupos sociais. Essas ideologias passaram a dominar o mundo político e institucional, mas também se manifestaram em toda a vida social. Até no setor científico o embate esteve e está presente. Nesse caso ele influi na orientação da pesquisa científica. O que pesquisar? Para que?  Para servir a quem? A tecnologia torna-se o setor mais sensível, pois dele depende a criação de inovações que aumentam a produtividade ou criam mercado para a venda de mercadorias.

O conhecimento da natureza e das leis que a regem, conduziu a descobertas científicas de grande valor para a humanidade. No final da Idade Média a pesquisa dos fenômenos da natureza ganhou  força. Nesse campo houve um importante avanço, assim como ocorreu com a liberdade do pensamento e a explosão das artes. Mas as descoberta dos pesquisadores que contrariavam as “verdades” teológicas produziram grandes reações da Igreja. Eles eram perseguidos e punidos. O filósofo e teólogo Giordano Bruno, defensor das teorias de Copérnico, foi condenado a morrer na fogueira, o que aconteceu em Roma em 1600.

Vejamos alguns personagens que marcaram a história naquele período. Roger Bacon, (1214-1294), teólogo e filósofo inglês, tornou-se monge franciscano para ter acesso aos conhecimentos da dialética, que não eram permitidos aos laicos. Ele desconsiderou a escolástica. Isso permitiu que ele fosse um pioneiro na concepção do método experimental e da utilização da matemática no estudo das ciências naturais, e  desenvolveu pesquisas nos campos da ótica, astronomia  e acústica. Segundo ele, acima da autoridade de quem o diz, é sempre preciso verificar pela própria experiência a veracidade da informação.

Depois dele podemos citar o pioneirismo de Paracelso, que era alquimista e praticava a medicina homeopática. Copérnico (1474-1543) que revelou o fenômeno do dia, como rotação da Terra sobre seu próprio eixo, enquanto ela transladava em redor do Sol. Galileu Galilei (1564-1642)  e Kepler (1571-1630)  comprovaram a teoria de Copérnico. Galileu com suas observações astronômicas e Kepler com suas leis que regem o movimento dos astros.

Os desencontros dos pensamentos originários do conceito individualista da liberdade renascentista, produziram grandes embates filosóficos e políticos, que antecederam Independência dos EUA e a Revolução Francesa.

Rio de Janeiro, 19/7/2017.

20, julho 2017 1:33
Por admin

Curiosidades históricas explicam muitas coisas

            Arnaldo Mourthé

Parece estranho o fato de o capitalismo ter-se desenvolvido primeiro na Inglaterra, quando sua gênese estava no norte da Itália, nos arrendamentos de terras dos senhores feudais pelos burgueses que se enriqueceram no comércio. Alguns fatos históricos, aparentemente desconectados podem nos dar um caminho para compreender essa questão.

Realmente, no final da Idade Média o desenvolvimento da Inglaterra era muito pequeno em comparação aos outros países da Europa continental. Isso é consequência do fato dela ter sido o reduto mais longínquo do Império Romano ao norte, chamado Bretanha.  Roma não chegou a ocupar todo o território da Ilha. Ficou restrita ao sul e confrontava-se com os anglos e os saxôes que ocupavam o sudeste a partir de sua invasão no século III. O território romano era parte da Gália, e seus habitantes eram os bretões.

Aquele povo, que os romanos chamavam gauleses, eram os celtas que ocupavam todo o território atual da França, parte da Espanha e o sul da ilha denominada Grande Bretanha. Os celtas eram um povo de cultura evoluída e muito místico. A ocupação romana da Gália foi uma carnificina que deu a Júlio César a imagem de grande conquistador, e o fez temido por seus pares romanos que ele acabou derrotando, tornando-se Imperador. Eram os celtas, ou gauleses, ou ainda bretões, as figuras lendárias mais notáveis da Inglaterra, o mago Merlin, a bruxa Morgana, o rei Arthur e seu companheiro Lancelot, que teriam sido aqueles que realizaram a unificação do Reino Bretão. As invasões dos saxões e anglos, sob a proteção de um rei tribal, expulsaram os bretões para o sudoeste, região hoje chamada Pais de Gales, que tem bandeira própria com o símbolo de um dragão.

A partir da ocupação dos anglo-saxões, a Inglaterra desenvolveu-se com base em uma cultura diferente da Greco-latina que orientou a formação da maioria das nações europeias a partir da evangelização ministrada pela Igreja Romana, que introduziu nelas o direito romano adotado pelo papado sob a denominação de Direito Romano-germânico. A Inglaterra e os países de influência inglesa adotam o Direito Anglo-saxônico, que tem fundamentos diferentes. Um desses fundamentos é de dar ao contratado a supremacia sobre o legislado. É esse princípio que nosso governo quer ou quis introduzir na legislação trabalhista, liquidando, praticamente, com todos os direitos legais, não expressos na Constituição.

Outra questão histórica que esclarece a condução caótica do governo brasileiro à nossa economia está na avaliação dos juros pela Igreja Católica e pelas Igrejas Evangélicas. Para precisar melhor a visão da doutrina cristã sob os juros cito uma passagem do livro do abade Ferdinando Galiani, publicado pela primeira vez em Nápoles, em 1751. Ele considerava que  uma dívida deve ser paga pelo mesmo valor real do dinheiro emprestado. Ou seja, o que ele é capaz de comprar quando do seu recebimento deve ser igual ao que ele compraria na data do empréstimo.

Foi um erro considerar “lucro e provento” do dinheiro o complemento do que falta,      estabelecido para conseguir a igualdade. Todo lucro, grande ou pequeno, que o        dinheiro, infrutífero por natureza, rende, é condenável. Nem pode considerar-se            fruto do trabalho, pois quem trabalha é quem toma emprestado e não quem   empresta. Mas onde há          igualdade não há lucro; e onde o valor intrínseco é corroído e       diminuído por riscos ou inconvenientes, não se pode considerar lucro o que o      complementa…

            …Usura é o lucro que se recebe além do capital emprestado em virtude do contrato de     mútuo…

Em 1515 Lutero escreve suas 95 teses e as envia aos bispos seus superiores e convida os clérigos a participarem das discussões sobre elas. Em 1517 as Teses são afixadas nas portas da Igreja do Castelo de Wittenberg. Estava lançada a Reforma, que iria dividir irremediavelmente a Igreja Romana. Sobre essa questão eu escrevi em meu livro História e Colapso da Civilização o seguinte:

            Lutero teve a proteção dos príncipes e o apoio da grande burguesia, comerciantes e banqueiros. Além de enfraquecer o poder da Igreja, a Reforma deu uma grande contribuição à ideologia burguesa. Ela facultou a cada pessoa dar ao texto bíblico sua própria interpretação. Isso permitiu à burguesia questionar, não apenas o poder real, mas algumas posições da Igreja romana que lhe eram inconvenientes, como a condenação da usura. Ao adotar o protestantismo a burguesia avançava no seu processo de conquista do poder, fenômeno que ocorreria com seu enriquecimento. No processo das guerras religiosas, a burguesia ia aumentando seu poder político e sua riqueza.

Dessa forma nós podemos compreender mais facilmente a guinada da Inglaterra para a Reforma. Em 1528 o rei da Inglaterra Henrique VIII, por razão fútil, a questão de um divórcio não aceito pelo Papa, edita o Ato de Supremacia, que colocava o rei como o chefe da Igreja na Inglaterra, rompendo com Roma. Nesse clima e com o incentivo da burguesia que já estava confortável na Inglaterra, com a conquista das terras dos senhores feudais falidos, as terras da Igreja foram confiscadas e doadas aos nobres. Criou-se um vazio no campo religioso que fortaleceu a expansão das igrejas luteranas. Enquanto isso, na Europa, as guerras religiosas se espalhavam e, a cada dia, se tornavam mais cruéis.

A simbiose, dos seguidores da Reforma com a burguesia, favoreceu esta, incentivando-a a lançar-se na busca do poder, num processo que levou mais de dois séculos até sua consolidação após a Revolução de 1848 na França.

Nesse intervalo muitos fatos importantes aconteceram, como o movimento filosófico francês conhecido como Iluminismo, a Independência dos EUA, a Revolução Francesa e o florescimento de forte movimento social, a partir dos trabalhadores da indústria. Como resultado de tudo isso o mundo entrou em um período que os historiadores chamam de Moderno, um campo de luta contínua entre as classes sociais, e correntes filosóficas que buscavam explicações sobre a natureza dos homens e da civilização.  Iniciou-se um processo histórico que se caracterizou pela aceleração do desenvolvimento econômico, alimentado pelo avanço da ciência e da tecnologia e uma brutal acumulação capitalista, formada pelo excedente de produção da sociedade, que crescia de forma exponencial. O que vivemos hoje parece ser a culminância desse processo, com crises múltiplas que subvertem as sociedades e colocam em causa conceitos ideológicos e mesmo filosóficos.

A evolução do pensamento humano parece não ser capaz de acompanhar tamanhas inovações na tecnologia e na economia que abalam as convicções mais firmes sobre a realidade social, que hoje se faz frágil e fugaz.

Rio de Janeiro, 16/7/2017.

28, agosto 2017 14:28

Para aliviar a mente do caos

25, agosto 2017 13:45

Esculhambação geral

24, agosto 2017 14:19

Por que privatizar a Eletrobras?