Caindo na realidade


Caindo na realidade

Arnaldo Mourthé

Desde 2013 a sociedade brasileira está irremediavelmente dividida. Os movimentos de rua reclamando melhores serviços públicos e mais baratos indicaram isso. As eleições de 2014 o confirmaram, uma sociedade partida ao meio. De um lado a esperança no messianismo, do outro lado a negação do poder popular. Isso não aconteceu por acaso, nem por capricho. Tudo resultou de comportamentos errôneos dos que estavam no poder e da rejeição de um homem do povo instalado no poder. Essa rejeição está incrustada na nossa formação cultural. Sua origem está no escravismo, sistema que deu início às atividades econômicas no Brasil, voltadas para o mercado estrangeiro, com a produção do açúcar.

Mas a divisão atual não é tão simples assim. Ela tem um aspecto primordial, que é estranho à nossa sociedade. Em contrapartida à sociedade escravista, desenvolveu-se no Brasil outra sociedade, voltada para a sobrevivência de seus membros e seu crescimento, através de famílias numerosas. A libertação dos escravos não contribuiu com a redução da desigualdade. Eles foram incorporados a atividades produtivas ou serviços, consideradas menos nobres. A discriminação escravista foi incorporada à discriminação do trabalhador manual, depois aos  da indústria ou dos serviços. Criou-se uma dubiedade social perversa, que enfraquece nossa sociedade e nossa nação, pois dificulta nossa unidade.

Lula encarnou o lado mais humilde de nossa sociedade. Um misto de demagogo, populista e messiânico. Não chegou a ser um político, no lato senso da palavra: um portador dos anseios de um setor da sociedade. Mas, a população mais pobre ou mais radicalizada na defesa dos oprimidos assim o viu. Tornou-se um líder popular. Mas nunca chegou a ter consciência plena de seus deveres, nem de seu poder. Foi manipulado por aqueles que sempre controlaram nossa sociedade, a casta escravista e seus modernos seguidores, dirigidos por interesses externos, antes representados pela Metrópole portuguesa, agora pelo sistema financeiro internacional.

Lula deixou-se cooptar pelo sistema financeiro. Talvez não tivesse opção, senão os destinos de seus antecessores, Getúlio Vargas ou João Goulart. Essa foi a razão de um governo tão desastroso como o seu, com Dilma seguindo o mesmo caminho. O leitor que tiver interesse em conhecer os pormenores desses fatos pode encontrá-los nos meus livros A crise e O poder no Brasil.

Lula foi trucidado, não sem razão. Ele fez por onde. Mas aqueles que aplicam a mesma política, com mais crueldade ainda, estão no poder, Michel temer e seus comparsas. Eles, no dia de hoje, estão em Davos oferecendo aos homens mais ricos do mundo nossas riquezas a preço de banana. Pior que isso, eles estão vendendo nosso futuro, através da liquidação dos direitos de cidadania dos brasileiros. A euforia de alguns com a condenação de Lula, esconde a sua ignorância dos fatos que a produziram. Não estamos falando de culpabilidade ou não. Essa é uma questão da Justiça. Mas da inconsciência em relação ao que se passa no Brasil e no Mundo.

Voltaremos para falar do poder que nos oprime e de como superar nossa calamidade.

Rio de Janeiro, 25/01/2018

 

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