Vamos construir nosso futuro V


A Era da ideologia

Arnaldo Mourthé

 

A escola filosófica de Atenas surgiu com Sócrates (470-399 a. C.). Ele nasceu dez anos depois da invasão de Xerxes, que queimou Atenas e destruiu o Partenon. Na sua juventude assistiu à pregação sofista, dos próprios filósofos dessa corrente ou através dos discursos demagógicos das autoridades, seus discípulos. Presenciou o início da carreira política de Péricles como membro do Conselho, em 448 a. C., sua ascensão à chefia do poder, em 445 a. C., e a reconstrução de Atenas. Certamente esteve presente na inauguração do novo Partenon, em 433 a. C., que consagrou o arquiteto e escultor Fídias. Foi soldado em várias batalhas. Se não participou diretamente da Guerra do Peloponeso (431-404 a. C) terá sido por sua idade, mas presenciou seus desatinos e suas consequências. Viveu um período muito rico, na explosão intelectual de Atenas, com seus historiadores, poetas, teatrólogos e os remanescentes filósofos da natureza. Era um homem ético que cultuava princípios e valores morais, e praticante fervoroso da reflexão e do diálogo. Nada lhe escapou dos costumes, da história, das crenças, da filosofia e do comportamento dos gregos. Os escritos de Platão demonstram isso sobejamente.

A literatura grega formou-se como extensão da tradição oral que lhe passou o estilo e a estrutura da narração através do diálogo. A população era na maioria analfabeta. Nessas condições as melhores e mais inteligíveis formas de comunicação eram o teatro e o debate público, ambos sob a forma do diálogo. Os textos das epopeias e do teatro eram diálogos poéticos, com poucas passagens narradas, em geral de louvação aos deuses. No teatro a narração era do coro, ou do corifeu, o regente do coro que também participava de alguns diálogos…

…Os sofistas eram céticos a respeito da possibilidade de se encontrarem respostas seguras para os fenômenos naturais. Como os filósofos da natureza, também criticavam a mitologia tradicional. Mas terminavam aí as semelhanças. Eles alegavam que o trabalho de investigação dos filósofos da natureza não fazia sentido. Por acreditar que o homem era a medida de todas as coisas, Protágoras se dedicava a estudar o comportamento humano e da sociedade. Os sofistas usavam o fato de conhecerem várias culturas com hábitos e costumes diferentes para negar a moral e a ética, e, assim, investirem contra os valores da sociedade. Para eles o natural era a lei do mais forte. A força e a violência seriam os únicos instrumentos efetivos para a organização da sociedade. Além de céticos, eram oportunistas e usurários. Serviam aos poderosos e eram regiamente pagos. Prepararam os políticos de Atenas para serem vencedores, através da arte de convencer, usando os meios mais eficazes para isso, como o engodo, a mentira e a demagogia. Foram os precursores dos marqueteiros. Com seu cinismo e falta de ética, corromperam a incipiente democracia ateniense…

 

Sócrates foi autodidata e amava a reflexão. Ele chegou à conclusão de que o pensamento em Atenas estava perdido no meio de mitos, crenças e argumentos que não tinham respaldo na verdade, e que isso criava muitos problemas para as pessoas. Elas se desorientavam e eram manipuladas na sua boa-fé. Fez da pesquisa do conhecimento e do combate à ignorância um apostolado. Parece estranha essa afirmação, mas ele encontrou não apenas uma cidade dominada pela ignorância, mas também pela farsa dos sofistas e de seus discípulos políticos, com sua sede de poder e seus privilégios. Sócrates fez sua cruzada pessoal no diálogo com a população na praça do mercado de Atenas, a Ágora. Ali se reuniam comerciantes e seus clientes, vindos de toda parte, assim como os homens públicos e cidadãos que frequentavam os prédios públicos situados a sua volta. Mas também dialogava com seus discípulos e admiradores nas casas de seus amigos. Platão, em narrativas repletas de sabedoria e de humor, transcreveu esses momentos.

Platão diz em seu livro Apologia de Sócrates a versão do que ele disse sobre a alegação de sua sabedoria, com base em consulta ao Oráculo de Delfos, no seu depoimento quando de seu julgamento:

Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes contra mim. Então, pus-me a considerar, comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, ao contrário, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele, nisso – ainda que seja pouca coisa: não acredito saber aquilo que eu não sei.

Isso mostra o nível de consciência de Sócrates em relação ao conhecimento. A introdução de seu pensamento crítico na Europa medieval, levado por sábios árabes,  iria produzir grandes efeitos na sociedade, a começar pelas críticas dos escritores pioneiros do Renascimento, Dante  (1265-1321), Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375). As artes também começaram a sofrer fortes transformações, vindo a produzir o período de maior criatividade e qualidade artística da nossa história. Mais tarde a escola neoplatônica de Ficino (1433-1499), em Florença, difundiu o método da dialética da discussão, que impulsionou o pensamento crítico, dando guarida aos pesquisadores dos fenômenos naturais, que fizeram descobertas fundamentais que vieram a sustentar a ciência.

A Idade Média foi uma Civilização Teocrática, que adotava como referência maior uma teologia construída a partir do cristianismo, mas que o maculou profundamente a partir do Concílio de Nicéia, no ano 325, presidida pelo imperador romano Constantino. Nele se adotou o dogma do “pecado original” que definia todos os homens como pecadores desde seu nascimento. Com esse conceito, o homem só obteria sua salvação pelo batismo e, a partir dele deviam submeter-se passivamente aos poderes do papado e de seus representantes, o clero. Desde então a Igreja Romana passou a editar bulas que regravam o comportamento dos homens. O não cumprimento de suas normas, implicava na excomunhão, sua exclusão da comunidade religiosa.

No processo de criação das nações europeias subordinadas ao Poder Papal, foi definida como crime de heresia o não reconhecimento das normas da Igreja. Elas passaram a ser uma obrigação de todos, que estavam sujeitos a penas que incluíam a morte na fogueira, uma forma da perdição de sua alma por toda a eternidade. O fato histórico mais clamoroso de todos os que foram produzidos por essa doutrina de perseguição ao que denominavam heresia, foi a Cruzada Contra os Albigenses. Ela produziu um grande genocídio no sul da França que durou de 1229 a 1244. A partir da caça aos hereges Cátaros, os Albigenses, a Igreja estabeleceu um sistema de repressão que se chamou Inquisição, que até nossos dias deixa marcas na cultura dos povos que foram catequizados. Foi durante esse processo que surgiram reações localizadas que, mais tarde, se difundiram e deram origem ao Renascimento.

O pensamento crítico pressupõe a liberdade da pessoa de pensar, agir e ter a crença que quiser. A forma de manifestação dessa liberdade no Renascimento foi o individualismo. O ser humano passou a ser o centro de tudo, como já era na concepção dos sofistas. A liberdade solta de qualquer responsabilidade é o caminho aberto para qualquer coisa positiva ou negativa, progressista ou retrógada. Nessas condições ela se manifestou várias maneiras. As artes e a ciência se desenvolveram. A filosofia renasceu. O poder foi questionado e disputado ferozmente entre aqueles que tiveram condições de fazê-lo. A maior dessas disputas foi entre a burguesia nascente e a nobreza decadente, mas que se refez através do absolutismo. Ela se manifestou, principalmente, através das guerras religiosas que macularam a Europa por muito tempo.

Para justificar os objetivos de cada parte, foram surgindo ideologias. Da liberal, nós já tratamos sinteticamente. Mas é preciso salientar que essa ideologia produziu reações que induziram á criação de novas ideologias, para contrapor os interesses de setores da sociedade aos da burguesia, esses dominantes, que avançavam sobre o controle sobre toda a sociedade, transformando tudo que nele existe em mercadoria. Assim, tudo na sociedade passou a ser vendável, do trabalho ao comportamento do homem. Todas as profissões, paulatinamente iam se transformando em mercadoria, cada qual com seu preço de mercado conforme o interesse dos burgueses em adquiri-las. O poder também  se tornou mercadoria. As decisões das autoridades, de privilegiar interesses, poderiam ser vendidas por ela e compradas por quem tivesse dinheiro. O objetivo maior era comprar leis, ou seja, fabricar normas que beneficiasse a burguesia em detrimento de todos os outros. Esse fenômeno chega potencializado a nossos dias, quando os poderes legislativos e executivos, que produzem e aplicam as leis, passaram a ser negociados no mercado.

Mas esse processo não foi tranquilo. As populações se revoltaram. As classes mais prejudicadas tomaram a vanguarda e fizeram seus movimentos, rebeliões nas cidades, greves nas fábricas, organizações corporativas ou políticas. As classes médias mais intelectualizadas, nas várias formas, também se organizaram e agiram coletivamente. Nesse processo histórico, formou-se um corpo social poderoso que se opôs a investida predadora da burguesia, inicialmente a industrial, depois, com maior intensidade, a financeira.

Foi nesse processo que surgiram as ideologias socialistas, que se manifestaram diferentemente em função da realidade de cada país, comunidade, ou grupos sociais. Essas ideologias passaram a dominar o mundo político e institucional, mas também se manifestaram em toda a vida social. Até no setor científico o embate esteve e está presente. Nesse caso ele influi na orientação da pesquisa científica. O que pesquisar? Para que?  Para servir a quem? A tecnologia torna-se o setor mais sensível, pois dele depende a criação de inovações que aumentam a produtividade ou criam mercado para a venda de mercadorias.

O conhecimento da natureza e das leis que a regem, conduziu a descobertas científicas de grande valor para a humanidade. No final da Idade Média a pesquisa dos fenômenos da natureza ganhou  força. Nesse campo houve um importante avanço, assim como ocorreu com a liberdade do pensamento e a explosão das artes. Mas as descoberta dos pesquisadores que contrariavam as “verdades” teológicas produziram grandes reações da Igreja. Eles eram perseguidos e punidos. O filósofo e teólogo Giordano Bruno, defensor das teorias de Copérnico, foi condenado a morrer na fogueira, o que aconteceu em Roma em 1600.

Vejamos alguns personagens que marcaram a história naquele período. Roger Bacon, (1214-1294), teólogo e filósofo inglês, tornou-se monge franciscano para ter acesso aos conhecimentos da dialética, que não eram permitidos aos laicos. Ele desconsiderou a escolástica. Isso permitiu que ele fosse um pioneiro na concepção do método experimental e da utilização da matemática no estudo das ciências naturais, e  desenvolveu pesquisas nos campos da ótica, astronomia  e acústica. Segundo ele, acima da autoridade de quem o diz, é sempre preciso verificar pela própria experiência a veracidade da informação.

Depois dele podemos citar o pioneirismo de Paracelso, que era alquimista e praticava a medicina homeopática. Copérnico (1474-1543) que revelou o fenômeno do dia, como rotação da Terra sobre seu próprio eixo, enquanto ela transladava em redor do Sol. Galileu Galilei (1564-1642)  e Kepler (1571-1630)  comprovaram a teoria de Copérnico. Galileu com suas observações astronômicas e Kepler com suas leis que regem o movimento dos astros.

Os desencontros dos pensamentos originários do conceito individualista da liberdade renascentista, produziram grandes embates filosóficos e políticos, que antecederam Independência dos EUA e a Revolução Francesa.

Rio de Janeiro, 19/7/2017.

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