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30, julho 2013 2:51
Por admin

Papa Francisco

Em suas análises da postura e das palavras do Papa Francisco, alguns teólogos vislumbram o retorno às origens do cristianismo. Mas o que significa isso?

Essa questão é tratada de forma sucinta e precisa no livro História e Colapso da Civilização, de Arnaldo Mourthé, editado por nós.

Veja a seguir dois capítulos desse livro que trata dessa questão. Leia-os com atenção. Eles são importantes!

O editor.

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Jesus de Nazaré e os fundamentos da revolução silenciosa do cristianismo

O cristianismo surgiu cinco séculos depois da grande leva de líderes religiosos e filósofos dos meados do milênio anterior, Lao-Tsé, Confúcio, Buda, Sócrates e Platão. Apesar disso ou, talvez por isso mesmo, ele tenha tido tamanha importância. Quem pode afirmar que as influências desses pensadores não estão presentes nos ensinamentos de Jesus de Nazaré? Pelas semelhanças, os textos indicam o contrário. Mas que ensinamentos são esses? A Bíblia, o livro mais lido do mundo, está aí para divulgá-los, mas ela não contém todos eles, já que seus textos passaram pelo crivo de teólogos e autoridades religiosas. Mas ela contém muito da essência deles.

Enquanto Buda pregou o Caminho do Meio como método para a aproximação com o Divino, Confúcio difundiu a Harmonia como a essência das relações humanas saudáveis, Jesus pregou o Amor. Qual a diferença? O Caminho do Meio é o equilíbrio, a superação das nossas contradições, das ilusões que nos impedem de ver pela presença da ignorância em nós, o véu de Maia. A Harmonia é o resultado da tolerância para com o outro, o respeito ao próximo, a condição que inibe o conflito e permite a cooperação entre os homens. O Amor é a mesma coisa. Não confundir o Amor cristão com a atração entre duas pessoas, que em geral o contém, mas não é o Amor no seu sentido mais profundo. O Amor cristão é o respeito ao próximo e à vida: Amai ao próximo como a ti mesmo. Ninguém se ama porque tem atração por si mesmo, mas porque se respeita, porque sabe o quanto custa desrespeitar-se, tanto no plano psicológico quanto no físico. A falta de amor induz à negligência, ao desrespeito, a admitir-se inferior sem o ser, ou negar ao outro sua condição de igual. O desamor é destrutivo, o amor é construtivo. Vemos que a essência dos ensinamentos de Buda, Jesus e Confúcio é a mesma. A diferença está no fat o da transcendência, que no budismo é a Iluminação, que eleva Siddharta Gautama à condição búdica, Buda. Segundo o cristianismo, Jesus de Nazaré já teria vindo à terra como Cristo, alguém que havia passado pela Ascensão, à condição crística, ou a Cristo. Na verdade as diferenças são uma questão de terminologia e as similitudes não são coincidências. Confúcio trata da sociedade concreta, da relação entre pessoas de carne e osso, e de suas instituições, buscando a verdadeira harmonia entre elas. A questão transcendental em Confúcio é mais no sentido da superação do ser humano, percorrer o caminho da sabedoria, enquanto na visão religiosa é a sublimação, tornar-se sublime. Confúcio foi um filósofo. Ele ensinava as virtudes de seus ancestrais na busca da harmonia, mas sem misticismo.

Para melhor precisar os ensinamentos cristãos, selecionamos textos não polêmicos, mas representativos de sua essência, que são de grande beleza estética e moral, como a recomendação maior de Jesus de Nazaré, amai ao próximo como a ti mesmo, o Sermão da Montanha e sua auto-definição, Eu Sou o que Eu Sou. Todas elas são manifestações fundamentais para a compreensão do cristianismo. Para ampliar esse quadro, acrescentamos os ensinamentos de Paulo, o Apóstolo, em 1 Coríntios XIII. Esses textos oferecem uma visão da essência do cristianismo que nós encontraremos na prática de alguns, mas não de todos.

O Sermão da Montanha:

Bem-aventurados os pobres (mendigos) de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão Deus.

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.

Bem-aventurados os que sofrem perseguição em nome da justiça, porque deles é o Reino dos Céus(54).

 

Perguntado sobre quem era ele, Jesus de Nazaré respondeu: Eu sou o que Eu sou. Ou seja, eu sou em essência a Divindade, o Indefinível, nas palavras de Lao-Tsé. Nos textos da Fraternidade Branca encontram-se um grande número de expressões dessa natureza. Nelas Sou é escrito com inicial maiúscula porque representa a Divindade. Segundo seus escritos, dizer, Eu Sou, é o mesmo que dizer, Deus em mim é.  Na Bíblia a expressão Eu so u consta sete vezes:

 

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Eu sou o Sal da Terra.

Eu sou o Pão da Vida.

Eu sou a Vida verdadeira.

Eu sou a porta aberta que homem algum poderá fechar.

Eu sou a Ressurreição e a Vida.

Eu sou a Luz do Mundo (54).

Os textos referidos acima são a síntese dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Mas a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios torna-os mais explícitos, como mostra o texto abaixo, um verdadeiro hino ao amor.

 1. Eu poderia falar todas as línguas que são faladas na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o som de um gongo ou como o barulho de um sino.

2. Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter tanta fé, que até poderia tirar as montanhas do seu lugar, mas, se não tivesse amor, eu não seria nada.

3. Poderia dar tudo o que tenho e até mesmo entregar meu corpo para ser queimado, mas, se eu não tivesse amor, isso não me adiantaria nada.

4. Quem ama é paciente e bondoso. Quem ama não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso.

5. Quem ama não é grosseiro nem egoísta; não fica irritado, nem guarda mágoas.

6. Quem ama não fica alegre quando alguém faz uma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo.

7. Quem ama nunca desiste, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência.

8. O amor é eterno. Existem mensagens espirituais, porém elas duração pouco. Existe o dom de falar em línguas estranhas, mas acabarão logo. Existe o conhecimento, mas também terminará.

9. Pois os nossos dons de conhecimento e as nossas mensagens espirituais são imperfeitos.

10. Mas quando vier o que é perfeito, então o que é imperfeito desaparecerá.

11. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança.

12. O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, assim como sou conhecido por Deus.

13. Portanto, agora existem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. Porém a maior delas é o amor (5).

Encontramos no item 12 dessa mensagem a referência à precariedade, que está também em Platão, quando ele compara a idéia com a realidade física. A perfeição da primeira e a imperfeição da segunda. Também há semelhança na imagem imperfeita num espelho embaçado, de São Paulo, com a alegoria da caverna de Platão, e com os ensinamentos de Buda e de Krishna, nas suas referências às ilusões e ao véu de Maia. A comparação da criança com o adulto revela a deformação que o homem sofre na sua adaptação ao mundo da ilusão e da precariedade, à realidade social forjada no interesse e na imposição de uns sobre os outros.

O Cristianismo e o Império Romano

Quando Jesus nasceu Roma já era a senhora absoluta do Mediterrâneo. Dominava toda a Europa latina, parte da Germânia, os Bálcãs, a Turquia, o Oriente Médio até a Mesopotâmia e todo o norte da África. Ela era um grande Império, sustentado por um exército de 300 mil soldados efetivos e notáveis estruturas administrativa, diplomática, comercial, com muitas grandes e belas cidades, e uma rede de estradas nunca vista.

O apóstolo Pedro fundou, com seu companheiro Paulo, a comunidade cristã de Roma e foi seu primeiro bispo. Antes, ele havia exercido o episcopado em Antioquia, local de forte concentração cristã na antiguidade. Visitara Roma antes de lá estabelecer-se, mas teria sido expulso pelo imperador Claudio, junto com outros cristãos e judeus. Voltou a Jerusalém e participou do primeiro Concílio dos Apóstolos, na condição de bispo de Roma, portanto o número um da Igreja. Apesar de tudo indicar que Nero fora o autor do incêndio de Roma, ele o atribuiu aos cristãos e ordenou que eles fossem massacrados. O bispo Pedro foi crucificado.

Apesar da repressão do poder romano e de não serem reconhecidas pelas elites, havia comunidades cristãs em Roma que se integraram com as de não-cidadãos, às quais deram extraordinária contribuição, através de suas ações humanitárias. Suas associações eram diferenciadas das outras, por serem abertas e beneficiarem também a não cristãos. Sobretudo os estrangeiros recém chegados, migrantes excluídos da cidadania como eles. Sua ação foi generosa, hospedando pessoas, arrecadando fundos para libertar os escravizados por dívidas e fazendo funerais de pessoas despojadas de recursos. Seus banquetes eram semanais, no dia do Senhor, o que fazia deles uma comunidade em permanente contato. Essas ações foram tão importantes para a expansão do cristianismo quanto as pregações dos apóstolos, ou mais que elas. Elas repercutiram junto aos romanos, desde as populações mais pobres até os patrícios e senadores. Muitos as viam como virtuosas e geradoras da paz social. Os cristãos não participavam de levantes e pregavam a não violência. O comportamento cristão foi mais importante para seu reconhecimento pelas classes superiores de Roma e por seus mandatários, que a palavra dos seus pregadores.  (48)

Mesmo assim houve conflitos entre os cristãos e Roma, que duraram pouco mais de 250 anos. Suas causas eram a discriminação dos romanos em relação aos não cidadãos e a necessidade do Império de ter um bode expiatório, a quem culpar pelos problemas do povo. Em períodos de tranqüilidade, houve tolerância, com conflitos apenas ocasionais. Com o tempo, sobretudo ao longo da crise que debilitou o Império no Século III, as autoridades passaram a ver os cristãos como um problema solucionável pela via política, até mesmo como solução para fortalecer o Império. Indo além dessa avaliação, Constantino transformou os cristãos em aliados.

No ano 325 ocorreu um evento que foi fundamental na formação da Igreja Medieval, o Concílio de Nicéia. Havia um conflito de idéias entre os cristãos que o imperador Constantino queria resolver. De um lado estava o bispo Alexandre, de Alexandria, e seu diácono Atanásio, do outro o padre líbio Ário. Tratava-se de conceitos teológicos sobre a natureza divina de Jesus, sobre a união do homem com Deus e sobre a reencarnação. Na sua condição de imperador, Constantino via nas divergências de idéias religiosas dos cristãos uma vulnerabilidade, tanto para a Igreja quanto para o Império. Era preciso reencontrar a unidade a favor dos interesses das duas instituições.

Os registros históricos mais antigos mostram que cada povo tem sua visão do mundo e cultua as divindades representadas nas suas crenças, mitos e religiões. Com o advento da filosofia, os pensamentos de alguns filósofos se incorporaram em muitos povos modificando essas visões do mundo. Formaram-se grupos que estudavam as várias manifestações culturais e, especialmente religiosas. Algumas delas eram assimiladas. Depois das conquistas de Alexandre, a cultura grega expandiu-se pelo Mediterrâneo e Oriente Médio, influindo nas culturas locais e sendo influenciada por elas. Alexandre defendia a difusão da cultura grega, mas, também, a liberdade de culto para todos os povos colonizados. Por outro lado, a expansão do comércio para o Orie nte, produziu trocas que foram além das mercadorias. Os conhecimentos e crenças se interpenetraram. Houve influência mútua no pensamento dos homens cultos, que mais tarde alcançou a população, embora de forma fragmentária e rudimentar. O caldeamento de culturas oferecia uma oportunidade de aprendizado e era um teste para os conhecimentos e crenças dos povos concernidos. Quando Jesus nasceu, a Palestina era dividida entre as culturas judaica e grega, que conviviam em certa harmonia. Isso era de interesse dos romanos e das autoridades judaicas, intermediárias nas relações dos romanos com a população.

Jesus teve acesso a muitos conceitos que não se limitaram à cultura do seu povo, assim como ele e seus seguidores puderam fazer suas pregações com muita liberdade, graças à liberdade de culto. De outra maneira seria muito difícil enfrentar as estruturas políticas e religiosas judaicas. Enquanto o poder não se sentiu ameaçado, ele gozou de liberdade, até de prerrogativas, já que descendia de estirpe nobre. Quando ocorreu o contrário, ele foi crucificado. Morto Jesus, seus apóstolos continuaram sua pregação, como ele pedira e para o que ele os preparou. Essas pregações eram feitas através de alegorias, quase sempre pela reprodução oral dos ensinamentos do Mestre. Mas esses também morreram. Muitos foram os homens do povo que , individualmente ou em grupo, aderiram à nova religião. As interpretações das pregações dos apóstolos eram variadas e cada qual acrescentava o que lhe parecia correto ou conveniente, enquanto a Igreja que Pedro fundou em Roma era incipiente para coordenar todos os cristãos. Vieram as versões escritas do Evangelho. Essas também requeriam interpretações que variavam conforme o ponto de vista e o conhecimento dos que o faziam. Os alfabetizados eram poucos. Os conhecimentos eram precários e transmitidos oralmente. Sua manipulação ocorria por razões as mais variadas.

Enquanto viveu, Jesus enfrentou polêmicas, confirmadas pelo Evangelho e por outros documentos. Elas se deram no confronto dele com os sacerdotes judeus e com as diversas correntes de pensamento dos povos que coabitavam na Judéia. Havia também na Palestina  seguidores dos filósofos gregos, sobretudo os neoplatônicos e os pitagóricos. Além desses os gnósticos cristãos, os seguidores do orfismo e das doutrinas orientais trazidas da Índia por mercadores e sacerdotes hindus, no intenso intercâmbio através do Mar Vermelho e pela Rota da Seda, aberta pelos chineses um século antes. Há ainda a hipótese de que Jesus teria vivido na Índia, onde fora instruído por místicos hindus e por budistas, no período em que o Novo Testamento não se refere a Jesus, entre seus 13 e 29 anos. Mas foi nos séculos II e III, muito depois da sua morte e das de seus apóstolos, que essas polêmicas se agudizaram. Quem teria razão sobre quais foram os seus ensinamentos?

Até hoje se discute sobre versões dadas no Evangelho às palavras de Jesus, sobretudo, das lacunas deixadas pelos expurgos de textos, a critério do Papa e de seus teólogos. Teriam eles sido praticados por razão de sua natureza, ou apenas para tornar o texto mais compreensível? As revisões foram fiéis aos significados das suas palavras? Qualquer que seja a verdade, o fato é que, no final do século III, a controvérsia sobre a natureza dos ensinamentos de Jesus tornou-se aguda, dentro e fora da Igreja.

Foi nesse quadro que ocorreu o clamoroso diálogo entre o bispo de Alexandria, Alexandre, e o padre líbio, Ário, no início do Século IV, que provocou a intervenção do imperador Constantino. O bispo Alexandre fazia uma preleção sobre a Santíssima Trindade quando o padre Ário pôs-lhe uma questão:

Se o Pai gerou o Filho, aquele que foi gerado teve um início de existência. …  Houve um tempo em que o Filho não existia (94).

Essa simples questão de lógica provocou um terremoto. Alexandre convocou, em 320, um concílio em Alexandria para condenar os erros que ele via em Ário. Mas a iniciativa só causou mais polêmica. A frase Houve um tempo em que o Filho não existia andou de boca em boca por toda Alexandria.

Logo todos os comerciantes tornaram-se teólogos. Dos cambistas aos funcionários dos banhos públicos, cidades inteiras discutiam se o Filho havia tido um princípio (94).

Mas o que havia de tão significativo em toda essa história?

A controvérsia ariana versava sobre a natureza do homem e o seu processo de salvação. Ela envolvia duas imagens de Jesus Cristo: ou era um Deus que havia sido sempre Deus, ou era um homem que se tornou Filho de Deus (94).

O sentido do questionamento de Ário era sua convicção que todos os homens são filhos de Deus e, assim, têm a oportunidade de unir-se a Ele, através de uma prática de amor e um comportamento justo, ao longo de sua vida dividida em várias encarnações. Se nos reportarmos às religiões orientais, encontraremos em Krishna e em Buda, os fundamentos da posição de Ário. Mas essa talvez não viesse diretamente do Oriente. É mais provável que fosse uma continuidade da visão de Orígenes (185-254) que viveu em Alexandria, onde foi dirigente da escola de catequese cristã e acreditava no livre-arbítrio e na reencarnação. Na polêmica sobre as razões do tratamento diferenciado de Deus aos gêmeos Esaú e Jacó, netos de Abrão, que pre ocupou o Apóstolo Paulo e mais tarde Santo Agostinho, Orígenes tirou uma conclusão lógica.

Ele acreditava que a única resposta a esta questão era que Jacó e Esaú haviam tido vidas anteriores, em que mereceram o “amor” e o “ódio” de Deus. Só podemos acreditar que Deus é justo, escreveu, se acreditarmos que Jacó foi preferido desde o ventre pelos seus “méritos de alguma vida anterior”. Em seguida, Orígenes chegou a uma conclusão teológica que os gnósticos poderiam aceitar facilmente. Disse que a questão que envolvia Jacó e Esaú poderia ser aplicada a todas as pessoas (94).

Foi essa a questão que fez Constantino intervir na polêmica. Com sua postura de estadista, ele via nesse conflito um potencial negativo para o Império e para a Igreja. Era melhor que o homem acreditasse no seu pecado original e que dependesse da Igreja para sua salvação. Crer em sua origem divina, como a de Jesus, e na sua possibilidade de unir-se a Deus por seu esforço próprio, levando uma vida de amor e de autocontrole, aumentaria sua autoconfiança e lhe daria forças para a superação do medo de queimar-se pela eternidade no fogo do inferno. Uma população temente a Deus e dependente da Igreja para sua salvação seria mais fácil manipular, no interesse do Estado e do poder da hierarquia da própria Igreja. O melhor conceito para o deus do povo era o antropomorfo, autoritário e punitivo em relaç ão aos que renegassem a fé, e representado na Terra pela Igreja e pelos ungidos do poder divino.

Ver na posição de Ário um perigo para o poder constituído foi decisivo para a posição de Constantino e do Concílio de Nicéia, como foram para as autoridades da Judéia as pregações de Jesus. O Concílio condenou Ário, que foi banido do Império, junto com os dois bispos que o apoiaram e com as idéias de Orígenes. Para divulgar isso, editou-se um credo para ser rezado em afirmação à condição de Jesus como único filho de Deus que encarnou e foi feito homem. Constantino convocou e dirigiu o Concílio como chefe, na ausência do Papa, embora não fosse autoridade da Igreja, nem batizado. Ele abraçou o cristianismo em 312, mas seu batismo só ocorreu horas antes de sua morte, em 337. Ele acred itava que esse sacramento o tornaria livre de todos os pecados. Recebê-lo pouco antes de morrer evitaria que ele cometesse outros pecados que ficassem sem perdão. Com isso, pensava ele, alcançaria a vida eterna, aspiração comum a muitos dos personagens do Mundo Antigo. Do Concílio participaram apenas 300 bispos, o que não impediu o confronto, mas facilitou o trabalho do Imperador e dos ortodoxos na sua condenação àqueles que a partir dali seriam dissidentes e mais tarde estigmatizados como hereges.

Constantino quis impor as decisões do Concílio a toda a Igreja, mas as idéias deixadas por Orígenes, que ele queria combater, eram muito fortes e persistiram. Muitos foram aqueles que não aceitaram o Credo de Nicéia. Na sua pregação aos Coríntios, Paulo havia dado um forte argumento aos origenistas e ao próprio Ário, quando afirmou: Não sabeis que sois templos de Deus? Que ele habita em cada um de vós? (54)

O destaque dado aqui a essa questão deve-se aos seus desdobramentos em eventos históricos de grande importância, muitos deles trágicos. Negar as posições dos arianos e as idéias de Orígenes era um passo fundamental para a definição do perfil da Igreja daí para frente. Ela teria seus cânones repletos de mistérios e dogmas intocáveis, elaborados para a afirmação de uma autoridade que se considerava indiscutível, como representante de Deus na Terra e intermediário entre Ele e os homens.

Mas as idéias condenadas persistiram entre os cristãos para além do Século IV, sobretudo no Egito. Seu centro principal era Alexandria, mas espalhava-se pelo deserto, pelo alto Egito e por toda a costa do Mediterrâneo até a Palestina e Chipre. Talvez por isso o imperador Teodósio (379-395), tenha exigido a adoção pelo clero das decisões do Concílio de Nicéia.

Sob Teodósio, os cristãos, perseguidos durante tantos anos, tornavam-se agora perseguidores. O Deus feito à imagem e semelhança do homem mostrava-se intolerante. Os cristãos ortodoxos aplicavam sanções violentas contra todos os hereges (gnósticos e origenistas), pagãos e judeus. Nesse clima, tornava-se perigoso professar idéias sobre a divindade inata e a busca da união com Deus (94).

Teófilo, bispo de Alexandria, em 399, defendeu em carta as idéias de Orígenes, mas teve contra ele uma forte reação de monges ortodoxos, que lhe impuseram uma mudança de conduta. Em 400, ele convocou um concílio em Alexandria que condenou os textos de Orígenes. Em Roma o Papa promulgou uma condenação semelhante e encorajou a seguirem seu exemplo (94). Estavam criadas as condições para uma repressão aberta contra os seguidores daquelas idéias. Como conseqüência, os líderes de uma colônia de monges de Nítria, ao sul de Alexandria, foram expulsos. Em seguida, Teófilo requisitou as tropas imperiais, invadiu a comunidade, aprisionou os 300 monges remanescentes que foram enviados ao exílio e d ispersados, e incendiou sua biblioteca e as celas. O tempo de Serapis, construído por Ptolomeu seiscentos anos antes e considerado pelos ortodoxos como o símbolo do paganismo, foi destruído por uma multidão incitada por Teófilo. A horda destruiu também pelo menos mais uma grande biblioteca de Alexandria. Essa mesma prática repressiva ocorreu também em Chipre.

Alguns anos mais tarde foi Cirilo, também bispo Patriarca de Alexandria e sobrinho de Teófilo, que radicalizou. Incitou a multidão contra a filósofa Hipátia, notável matemática e dirigente da escola neoplatônica, acusada de feitiçaria. A multidão linchou-a, cortou seu corpo em várias partes e descarnou-a. Em seguida pôs fogo em seus restos mortais. Mas a Igreja contaria com uma arma mais poderosa para continuar sua luta contra origenistas e arianos, com a teologia que ela atribuiu a Agostinho.

Agostinho nasceu em Tagasta, em 354, no norte da África. Iniciou seus estudos em Cartago, foi professor de filosofia e esteve em Roma e Milão. Filósofo maniqueísta, depois neoplatônico, entrou para a Igreja pelas mãos do bispo Ambrósio, de Milão, o mesmo que mandou Gratianus retirar do Senado a estátua da Vitória, que resultou no seu assassinato. Voltou para a África onde foi bispo de Hipona, a oeste de Cartago, onde morreu em 430.

Sobre um mito, o pecado original, e o sofisma da herança desse pecado por todos os homens, a Igreja construiu um dogma de fé. A salvação do Homem só seria possível pela graça de Deus, conseguida por intermédio da Igreja com o sacramento do batismo. Despojou assim o ser humano não batizado do livre-arbítrio, ou seja, de sua liberdade de escolha para construir seu próprio destino, tornando-o dependente da Igreja para sua salvação, sem a qual estaria condenado ao fogo eterno do inferno.

Nada mais conveniente para os opressores que desqualificar o sujeito sobre o qual ele exerce seu poder. Foi o que fez a Igreja em relação ao Homem, “fruto do mal”, maculado eternamente pelo pecado original de Adão e Eva. Sobre as decisões do Concílio de Nicéia e a teologia atribuída a Agostinho, a Igreja construiu seu império teocrático que vigoraria por toda a Idade Média, e manteria passivo seu rebanho até nossos dias. Mesmo assim, os origenistas e os arianistas continuaram a trabalhar clandestinamente. Sua influência iria gerar outros grupos religiosos e a reação genocida que os francos praticaram contra os cátaros, na região do Languedoc, no sul da França, no Século XIII.an>

Para fazer sua aliança com o Império Romano, a Igreja Católica fez pesadas concessões, que foram além de conceitos teológicos. Ela fechou os olhos aos problemas dos povos colonizados, às desigualdades internas entre os cidadãos romanos e ao escravismo. Em termos comportamentais, ela abandonou a fraternidade, calcada no princípio do amor ao próximo, que deu unidade e credibilidade aos cristãos, transformando-a em obediência cega aos poderes eclesiásticos. Essa aliança deu ao Império uma sobrevida de mais um século e meio, apesar de suas graves contradições, e daria à Igreja o poder por mais mil anos. Mas, ao preço da liberdade humana e do obscurantismo, retardando enormemente o processo ci vilizatório.

29, julho 2013 4:51
Por admin

Discurso de Evo Morales sobre a verdadeira dívida externa é ocultado pela mídia

26/07/2013

“Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue?”

Escrito por: Diálogos do Sul

Com linguagem simples, que era transmitida em tradução simultânea a mais de uma centena de Chefes de Estado e dignitários da Comunidade Européia, o Presidente Evo Morales conseguiu inquietar sua audiência quando disse:

Aqui eu, Evo Morales, vim encontrar aqueles que participam da reunião.

Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos.

Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa.

O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída po r Judas, a quem nunca autorizei a vender-me.

O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros. Consta no Archivo de Indias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento.

Expoliação? Guarde-me Tanatzin de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão!

Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das Índias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos!

Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata, mas também a indenização pelas destruições e prejuízos. Não

Eu, Evo Morales, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses.

Tão fabulosa exportação de capitais não foram mais que o início de um plano ‘MARSHALLTESUMA’, para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e outras conquistas da civilização.

Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indoamericano Internacional? Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal. Financeiramente, têm sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas lí quidas, das matérias primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total, seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra.

Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue?

Alegar que a Europa, em meio milênio, não pode gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo.

Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os indoamericanos. Mas exigimos sim a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que a nos entregue inteira, como primeiro pagamento da dívida histórica.

http://www.dialogosdosul.org.br/

02, julho 2013 6:29
Por admin

Uma nova civilização se anuncia

Estamos vivendo um momento crucial para a humanidade. A sociedade liberal burguesa se desfaz nas suas contradições, na hipocrisia e no egoísmo. O modo de produção capitalista entrou em uma crise sem fim, produzida pelo excesso de acumulação de capital nas mãos de poucos, alimentado pela subversão de valores, colocando o lucro acima da vida.

O Estado é objeto de desmonte, transformado em instrumento de arrecadação para pagar juros indevidos de uma dívida pública fabricada para gerar juros e submeter nações. Os serviços públicos estão em processo de degradação, transformados em fontes de lucros indevidos. Os partidos políticos, na sua maioria, corrompidos para administrar o Estado em favor do capital, em detrimento das necessidades da população, e votar leis a favor do capital que acentuam o desmonte do próprio Estado. Essa corrupção se difunde por toda a sociedade, em especial nos seus meios de comunicação. O poder do capital cresce e o da cidadania míngua. Contra os efeitos desses fenômenos a população se levantou, com reivindicações diversas, todas contra a precariedade dos serviços públicos e a injustiça de um aparelho policial que defende mais o sta tus quo que os direitos do cidadão, até mesmo agredindo o próprio cidadão que ele deveria defender.

A mobilização do governo não se fez contra as causas que produzem o caos, mas apenas para desmobilizar com medidas tacanhas que não fizeram parte das reivindicações, priorizando uma reforma política que ninguém sabe para que, como se uma máquina podre pudesse ser consertada. Nenhuma palavra sobre o causa primeira da desordem, a dívida pública que só cresce e seus juros manipulados pelos próprios credores que colocam o Estado, não apenas do Brasil, mas também pelo mundo afora, submetido aos ditames de um grupo de investidores vorazes, que transformaram o capitalismo de modo de produção em modo de destruição, através de guerras sem fim e da degradação da sociedade pela alienação e pela pobreza. Esta nossa civilização agoniza.

Há que pensar em uma Nova Civilização fundada sobre o respeito mútuo, o amor ao próximo, a paz e a fraternidade. A experiência histórica mostra que essa civilização deve ter como instituição a República para todos, na qual, com a conscientização crescente da população, a cidadania se desenvolva rapidamente até sua plenitude, a liberdade seja limitada para cada um apenas pelo direito de liberdade do outro, e nosso trabalho seja para a realização humana e não para a acumulação particular da riqueza que gera desavenças e guerras, e escraviza os homens.

Estaremos contribuindo para agravar e ampliar nossos problemas e o sofrimento de todos se nos deixarmos levar pela discussão de questões marginais, que mais visam protelar a agonia que curar o mal. É preciso acatar plenamente as reivindicações espontâneas das manifestações populares das ruas e exigir a melhoria dos serviços públicos e a redução de seus custos. Os recursos dos tributos que pagamos ao Estado devem ser priorizados para cumprir essas exigências. Quanto aos juros, melhor é suspender seu pagamento até a auditagem rigorosa de nossa dívida pública. Suas taxas jamais deverão exceder àquelas pagas pelo governo dos Estados Unidos, país que serve de referência para nossos governantes impor-nos soluções contra nossos interesses.

Enquanto isso, combatamos a entrega de nossas riquezas ao capital estrangeiro que tanto mal nos tem feito.

Rio, 01/7/2013

Arnaldo Mourthé

28, junho 2013 8:50
Por admin

No dia 27 de junho de 2013 um grupo de estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, alunos da professora Beatriz Bissio, organizou um evento com a exibição do filme ” O dia que durou 21 anos”, seguido de um debate.

Para o debate sobre a atualidade e sobre os eventos revelados no filme, foram convidados o jornalista Paulo Canabrava e o engenheiro e historiador Arnaldo Mourthé. Tiveram também a participação da jornalista e professora Miriam Gontijo de Moraes.

Estes alunos participam do  Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a África, Ásia e as Relações Sul-Sul (NIEAAS), coordenado pela Dra. Beatriz Bissio, Professora Adjunta do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/ UFRJ).

Estamos publicando algumas fotos de evento e em breve será publicado em video com os melhores momentos.

 

24, junho 2013 1:49
Por admin

Prezado(a) amigo(a),

A solidariedade a alguém doente e à sua família pode estender-se ao velório e até por mais tempo. Pois, nem sempre podemos evitar a morte. Para isso é preciso ir mais além. Combater a doença com remédio adequado, se ela tiver cura.

O mesmo ocorre com as doenças sociais. Participar das manifestações de protesto, ou solidarizar-se com elas por serem justas, é dever das pessoas de boa vontade. Mas é preciso investigar as causas que nos levaram a essa condição de iniqüidade. Há perversão e dolo no trato das questões públicas, que penalizam a população a favor de uns poucos privilegiados. Por que a imprensa não fala sobre isso?

Os problemas existem e não são espontâneos. Eles foram produzidos por pessoas, ou grupos de pessoas, que representam seus próprios interesses ou a serviço de terceiros, visíveis ou clandestinos.

A solução é abrir a caixa-preta da política e dos rumos de nossa economia. Quem o fará?

Arnaldo Mourthé

19, junho 2013 10:10
Por admin

Prezado amigo (a),

A casca da alienação e do temor foi quebrada. O gigante foi sacudido. Esperemos que tenha acordado. Ficamos devemos a esta nova geração de destemidos e desprendidos, o rompimento com nossas mazelas – com destaque para a corrupção – nossos dogmas e preconceitos.

Tudo isso é apenas o início de um processo de superação de uma sociedade perversa que coloca o lucro acima da vida, desconhecendo princípios, o respeito ao próximo, a liberdade, a cidadania, a soberania da nação, a paz.

Mas como chegamos a tão lamentável situação?  O texto abaixo, extraído do meu livro “História e colapso da civilização” mostra um enfoque sintético desse fenômeno. Vamos a ele.

A luta do povo brasileiro, que conquistou a democracia e a Constituição cidadã, como a chamou Ulysses Guimarães, esbarrou nos interesses do capital financeiro que manipula o poder. A publicidade enganosa e a corrupção presidiram as reformas da Constituição, degradando as instituições e os serviços públicos, e reduzindo direitos dos cidadãos. Como consequência da política neoliberal, temos no país um desastre social. A corrupção generalizou-se, o aparelho de Estado enfraqueceu, pioraram os serviços públicos, com escolas e hospitais abaixo da crítica, a infraestrutura de transporte foi degradada e, em parte, privatizada. O Estado endividou-se sob a alegação do combate à inflação, passando a pagar juros altíssimos, manipulados pelos próprios banqueiros. No ano de 20 10 eles foram de 195 bilhões de reais. A participação do capital estrangeiro na indústria saltou de 25% para 70% em apenas duas décadas. Os problemas ambientais tornaram-se mais graves. Aumentaram a concentração de riqueza e a violência. A solidariedade e a cooperação no trabalho cederam lugar à competição desleal e às animosidades. É nesse quadro que vicejam as conspirações contra os direitos do cidadão à escola e à medicina gratuitas, ao salário digno e à organização sindical independente para defender os trabalhadores. Os partidos políticos perdem suas doutrinas, bandeiras e programas, para tornarem-se associações de interesses particulares dos seus dirigentes e atender governos dóceis aos grandes investidores.

Esse processo se dá em quase todo o mundo, numa operação gigantesca de dominação dos países. Os grandes capitalistas entregaram-se à prática de negócios escusos, tráfico de influência, corrupção e especulação, que vieram à tona na grave crise de 2008, que até hoje desmantela países, mesmo europeus, como Islândia, Grécia, Espanha, Itália e Portugal. A Islândia foi à bancarrota, e outros patinam no impasse das dívidas impagáveis. Não há mais como esconder o desastre que esse processo neoliberal está sendo para a humanidade. Sua política do dinheiro sem lastro, como paradigma de valor, é uma brutal subversão da verdade econômica e atinge os princípios humanistas dos direitos do homem e do cidadão.

O mais incrível é a passividade com que as pessoas vêem esse quadro de ignomínias. Logo a seguir, nos aprofundaremos na análise desse fenômeno e seus vários aspectos sociais, ressaltado o da alienação. A gravidade da situação gerada nos convence de que é preciso resistir. Até os governantes europeus se vergam aos interesses dos investidores em títulos públicos. Poucos são os homens lúcidos no meio de tanta perplexidade e desorientação. Um desses é o ex-presidente português Mário Soares. Ele fez uma feliz e precisa afirmação em entrevista ao jornal O Globo, publicada em 4 de novembro de 2011:

O que é extraordinário é que os dirigentes políticos atuais, aqueles que mandam ou julgam que mandam, como é o caso da senhora Merkel e do senhor Sarkozy, não mandam. Quem efetivamente manda hoje são os mercados, e não os Estados.

Estamos vivendo a fase final da nossa civilização ocidental. Outra virá. Não sabemos como nem quando virá, mas virá. É o que a história nos ensina.

Esse será um problema de todos nós. Cabe a cada um de nós fazermos nossa reflexão a respeito. Depois confrontemos todas elas. Uma solução haverá. Foi superando situações como essa que a humanidade chegou onde está.

Arnaldo Mourthé

Rio de Janeiro, 19/6/2013

07, junho 2013 3:47
Por admin

 

Lembrete à presidente Dilma Rousseff

Dizia-se que no Brasil não havia petróleo, mas ele jorrou no poço de Lobato, Bahia, em 1939.

No início dos anos 50 houve um grandioso movimento para defender nosso petróleo da cobiça estrangeira, envolvendo intelectuais progressistas e nacionalista, militares e estudantes. A palavra de ordem “O petróleo é nosso” ecoou pelos quatro cantos do Brasil, defendendo o monopólio estatal e a criação de uma empresa pública para explorá-lo. Foi criada a Petrobras em 1953.

O presidente Getúlio Vargas foi levado ao suicídio pela defesa da soberania nacional, do monopólio estatal do petróleo e pela criação da Petrobrás. Morreu, mas não cedeu a imposições do capital estrangeiro e de seus prepostos internos. Passou para a história como a maior figura brasileira do Século XX.

Jango foi deposto por manter a política de Getúlio e frear a voracidade do capital estrangeiro.

A ditadura militar, que nós combatemos, apesar dos piores desmandos e crueldades, defendeu o monopólio estatal do petróleo e desenvolveu a Petrobrás.

A Petrobras foi um dos pilares da industrialização do Brasil, prospectou o território nacional, desenvolveu estudos avançados para explorar petróleo em águas profundas, e descobriu o pré-sal, inserindo o Brasil no contexto das nações com grandes reservas de petróleo e gás.

E a senhora, presidente Dilma?

Está mesmo disposta a entregar aos gringos o pré-sal e as áreas de exploração de petróleo que restaram, depois da sua alienação a preço de banana pelos entreguistas Fernando Henrique e Lula?

Ou vai despertar a guerrilheira da COLINA e da VAR-Palmares, a quem o povo brasileiro confiou a Presidência da República?

Qual o título que a senhora levará para a história? A de entreguista ou a de guerrilheira-estadista, defensora da soberania nacional e do povo brasileiro?

A escolha é de Vossa Excelência.

Atenciosamente,

Arnaldo Mourthé

Rio de Janeiro, 07 de junho de 2013.

26, março 2013 1:08
Por admin

Fatos, crenças, mitos e lendas

 

A partir do momento em que um nosso ancestral foi capaz de produzir um instrumento para agir sobre o meio que o cercava, ele já era algo mais que um animal. Não se conduzia apenas por instintos. Possuía vontade, queria uma arma para superar outros animais ou um instrumento para potencializar sua força. Já era capaz de imaginar a forma do objeto que precisava. Sabia o que fazer para tornar realidade sua imaginação e possuía habilidade para tal. Ele já era um ser dotado de inteligência, que se manifestaria sob outras formas.

 

Em outro momento, talvez posterior ao da ferramenta, nosso ancestral buscou explicações para os fenômenos naturais, em especial sobre as tempestades com seus raios e trovões. Imagine o pavor de um ser apanhado por forte tempestade, no meio de um campo! Os raios caindo por toda parte, destruindo num golpe uma grande árvore e espalhando o fogo pela relva. Que poder seria capaz de tamanha façanha? Aquilo e outros fenômenos da natureza estavam além da sua compreensão. Mas ele poderia concluir que depois da chuva as cores das folhas ficavam mais vivas, as sementes brotavam e as plantas cresciam. Os pássaros se alegravam, assim como ele, mesmo que não fosse pelas mesmas razões. De uma coisa ele sabia, o perigo passara, seu temor desaparecera. Mais além dessas questões, em certo momento ele também se questionou sobre a existência, sua e da natureza, com todos seus encantos e perigos, e sobre a vida que dela brotava.

 

Tudo aquilo só poderia vir de um ser superior. Isso o levou a criar os deuses. No início um deus para cada fenômeno ou coisa. Depois esses deuses também responderiam por sentimentos, habilidades e virtudes, na medida em que suas experiências aumentavam. Sua inteligência teve de passar por um processo de desenvolvimento para atender a todas essas indagações, e seu cérebro tornou-se mais solicitado. A proteína obtida da caça certamente serviu para nutri-lo melhor. Seus pensamentos expandiam-se na busca de razões para a existência e suas manifestações. Cada povo criou seus mitos que se tornaram suas crenças. Mas há uma grande semelhança nessas crenças. Com informações limitadas sobre os primórdios da humanidade, não temos como afirmar como isso se deu, mas escolhemos a hipótese de ter sido pelo processo de migração e caldeamento de culturas.

 

Em estagio mais evoluído, após a revolução agrícola, esses mitos se consolidaram e deram origem às religiões, não apenas as primitivas, já que todas as grandes religiões hoje praticadas têm, na sua tradição oral, sinais bem nítidos desses mitos e crenças. Na tradição tupi-guarani, o deus maior, Tupã, o deus Sol, desceu à Terra e criou tudo que existe, até mesmo as estrelas que ele colocou no céu. A deusa maior era Araci, a deusa Lua. A tradição Veda também tinha como deuses originais esses dois astros.

 

Segundo as tradições antigas, havia duas dinastias, uma solar e outra lunar, ou seja, alguns se consideravam descendentes do Sol e outros, da Lua. Em outras palavras, eram as forças positivas e as negativas, encerrando conceitos religiosos opostos.

Os que cultuavam o Sol consideravam o Deus do Universo representante do sexo masculino e traziam consigo tudo de mais puro da tradição védica.

Dedicavam-se à ciência do fogo sagrado e da oração, mantinham a noção esotérica do Deus Supremo, respeitavam profundamente a mulher, veneravam os antepassados e a monarquia patriarcal.

Por sua vez, os cultores das forças lunares atribuíam à divindade o sexo feminino e adoravam a natureza cega, em suas manifestações inconscientes, violentas e inclinadas à idolatria e à magia negra (54).

 

No entanto, a doutrina védica tem centenas de milhões de seguidores e está cada vez mais considerada e reverenciada pela nova onda espiritualista que emerge da crise da nossa civilização decadente. Isso mostra que todas as crenças devem ser respeitadas. Elas representam estágios de compreensão das comunidades humanas, contribuíram na construção de sociedades sólidas e ajudaram suas populações nos momentos mais difíceis, consolando-as e dando-lhes ânimo, pela fé e pela esperança em dias melhores.

 

Na tradição escandinava o principal deus é Tor:

 

Tor cruzava os céus numa carruagem puxada por dois bodes. E quando ele agitava seu martelo, produziam-se raios e trovões. … Quando troveja e relampeja, geralmente também chove. E a chuva era vital para os camponeses da era dos vikings. Assim, Tor era adorado como deus da fertilidade (35).

 

Todos os povos, de todos os continentes, têm suas tradições, suas crenças, lendas e mitos. Esse é um passado comum da humanidade no seu processo de desenvolvimento. Alguns tentam minimizar esse passado comum, outros teimam em desconhecê-lo, mas isso só faz deles seres insensíveis que tentam esconder a história, por razões que não revelam.

 

Quando expomos as dificuldades de explicar fenômenos da civilização antiga, algumas questões se nos colocam. Mesmo se deixarmos de lado as contradições das lendas e nos atermos apenas às construções monumentais, vem-nos à mente, com insistência, a hipótese de ter existido outra civilização, ou outras, que não deixaram provas cabais de sua existência, mas indícios. Ainda não conseguimos explicar, por exemplo, as façanhas da engenharia que está por trás de grandes obras da Antiguidade. Apesar dos potentes e sofisticados equipamentos de que dispomos, não temos como transportar e colocar no seu lugar com extrema precisão as pedras gigantescas, com cerca de mil toneladas, que fazem parte do embasamento do Templo de Heliópolis, em Baalbek, no Líbano (ver Google Earth).

 

Apesar de nossos imensos navios e das gigantescas máquinas das mineradoras; dos aviões que cruzam os céus em todas as direções a cada minuto; da rede mundial de computadores; de termos imagens e vozes vindas de todos os recantos da Terra em tempo real; de enviarmos o homem à Lua e sondas em várias direções do espaço; da capacidade de destruição dos artefatos nucleares em estoque serem cem vezes maior que a necessária para destruir o próprio planeta, seria difícil para nós construir algumas obras do mundo antigo.

 

Mas quando entramos no terreno das lendas e da mitologia, as coisas ganham um grau de complexidade muito maior. É onde encontramos a crença arraigada por milhares de anos. Não é fácil dizer, apesar dos documentos cada vez mais abundantes, que a maioria das lendas do mundo antigo se origina na antiga Suméria. Os preconceitos sobre suas origens estão profundamente arraigados em algumas culturas. Mas elas podem ter origem mais antiga ainda. Mesmo as do Velho Testamento, como as de Enoque, de Noé, e até algumas passagens de Moisés, como a do peixe seco que se lança nas águas do mar e nada garbosamente. Essa é parte de epopeia de Gilgamesh na sua inútil procura pela vida eterna, na busca da Árvore da Vida, da Água da Vida ou da Fonte da Eterna Juventude.

 

Os mitos e as lendas que surgiram daí estão até hoje navegando pelas mentes de quase todos nós. Alguns têm seus fundamentos nas úteis lições e na apologia das virtudes que divulgam. Eles e elas têm sua lógica e não afrontam os interesses das pessoas comuns. Crer neles ou nelas não causa dano a ninguém e pode até causar prazer pelo encanto que possuem. Do contrário não resistiriam ao tempo. Mas persistem também histórias que são nocivas aos interesses mais caros das pessoas, mesmo refutadas a cada dia pelos fatos. Isso ocorre porque interesses poderosos conseguem manipular a mente das pessoas. A filosofia e a ciência não foram suficientes para desfazer crenças infundadas. Nem as pregações amorosas e a favor da verdade, dos grandes líderes religiosos da Antiguidade, como Krishna, Lao-tsé, Buda e Jesus, o foram. Jesus disse a seus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, ou seja, a liberdade pode ser alcançada pelo conhecimento da verdade. Mas quem liga para isso?

 

Há duas razões principais para a permanência da ilusão de alguns mitos nocivos nas mentes das pessoas. Eles são defendidos por várias instituições, em especial religiosas e financeiras, pois lhes são convenientes, enquanto ajudam a manter um manto de ignorância que sustenta hierarquias privilegiadas e classes dominantes que vivem da espoliação. Essas últimas atuam para que a educação não vá além do necessário para ensinar a executar as tarefas de seu interesse, nos termos de suas tecnologias e organizações sociais, ambas impostas sutilmente à sociedade. A escola deles não é feita para ensinar as pessoas a buscar a verdade e a viver com fraternidade. Ela o é para aceitar o status quo e para adestrar o trabalhador, em vez de libertá-lo.

 

Alguém pode argumentar que a ciência prosperou. É verdade, pois a ciência é instrumento fundamental para conhecer as leis da natureza, para melhor utilizá-la na produção de bens e serviços. Mas ela não é totalmente livre, pois depende de recursos para suas experiências cada vez mais custosas. Sua orientação é voltada para o desenvolvimento de tecnologias dos interesses dominantes, muitos dos quais destrutivos. Mesmo assim a ciência avança. Mas muitas de suas descobertas são negligenciadas quando contrariam esses interesses, não importa a razão.

 

Mas a grave crise da civilização que se aproxima ajudará a levantar a cortina de obscurantismo que dificulta uma atitude realmente científica, ou verdadeiramente religiosa, que coloque como condição fundamental a liberdade para buscar a verdade. Sem considerar as diversas hipóteses que visam levantar o véu da ignorância, que turva a mente humana e dificulta as pessoas a trilharem o caminho da liberdade, não haverá verdade, nem liberdade. Vamos ajudar a levantar esse véu oferecendo espaço a algumas hipóteses que merecem nossa atenção.

 

Zecharia Sitchin, em seu livro A escada para o Céu, faz um relato interessante sobre o início da civilização, seus mistérios, contradições e mitos, e conclui que ela foi criada por povos de outro planeta, onde os humanos entravam como força de trabalho. Os deuses que vieram dos céus seriam astronautas vindos de um planeta do sistema solar, Murdok, o décimo segundo planeta, segundo ele, que teria uma órbita elíptica bastante longa. Seu ano corresponderia a 3.600 anos da Terra. Por essa razão ele seria desconhecido dos astrônomos. Seria isso verdade? Não sabemos dizer. De qualquer modo não devemos deixar de considerá-la enquanto a ciência não der explicações racionais para os fenômenos dos deuses fundadores da Suméria e do Egito, e de suas dinastias, dos feitos espetaculares da engenharia dessas civilizações e dos seus conhecimentos astronômicos. Assim como dos diversos ciclos planetários que aparecem no calendário maia. As civilizações antigas, aparentemente, não possuíam aparelhos óticos nem conhecimentos matemáticos suficientes para detectar os ciclos dos astros e planetas e seus efeitos sobre as pessoas e a natureza, como seus escritos demonstram. Mas há outras hipóteses. A mais discutida é a da civilização de Atlântida, revelada por Platão em um dos seus escritos.

 

Platão teve os seus conhecimentos de Crítias, o Jovem, que, por sua vez os recebeu de seu avô, Crítias, o Velho, o qual, por intermédio de Drópides, teve ensejo de conhecer as anotações feitas por Sólon, durante a sua viagem no Egito, … de um ancião, escrivão do Templo de Saís e o qual, por sua vez, se referiu a material documentário bem mais antigo, a textos em hieróglifos asiáticos.

[…] Diante da foz que vós costumais chamar de Colunas de Hércules, havia uma ilha, cuja extensão era maior daquela da Ásia e da Líbia juntas e, a partir de lá, era então possível fazer a travessia para as outras ilhas e, daquelas ilhas, para todo o continente, situado defronte daquele mar e circundando-o, o qual, a justo título, leva esse nome (85).

 

Naquela época não se conhecia o continente americano referido no texto, e não se tinha referência de nenhuma travessia do Atlântico, o que vem dar credibilidade ao relato de Platão. A não ser que tomemos como verdade outra lenda, de datação desconhecida, de que os fenícios teriam aportado no norte das terras hoje brasileiras. De qualquer modo, desde o relato de Platão, dezenas de milhares de livros trataram do assunto, o que mostra quanto interesse ele despertou. Entre esses autores está Francis Bacon, que em 1638 escreveu Nova Atlantis.

 

Também o famoso clarividente americano Edgard Cayce descreveu a Atlântida durante um de seus sonhos autoinduzidos.

 

A descrição de Cayce sobre a Atlântida – ou ao menos o que foi colhido de suas declarações durante o sono – é de uma civilização avançada que caiu em tentação. Empregando palavras que parecem curiosamente aplicáveis ao presente, ele indica como uma civilização tecnologicamente adiantada (aparentemente com aviões, lasers e outras máquinas modernas) virou as costas a Deus e se afundou nas delícias do materialismo. Então, em uma série de cataclismos provocados pela má utilização das forças da natureza, seu paraíso insular entrou em erupção e submergiu, como diz Platão, nas profundezas do oceano Atlântico. Esta, em resumo, é a história sobre a destruição da Atlântida como coletada por pesquisadores a partir das mensagens e publicada pelos filhos em um pequeno livro intitulado “Edgar Cayce on Atlantis” (40).

 

Há também referências em diversas publicações a que o Egito, o México e o Caribe teriam sido colônias de Atlântida, de onde teriam vindo os conhecimentos de astronomia e cosmologia dos egípcios e dos maias, cujo calendário é o mais perfeito dos conhecidos.

 

No conjunto dessas questões polêmicas, que não podem ser provadas nem desmentidas cabalmente, podemos destacar as mensagens de alguns espíritas e outros espiritualistas que consideram a crença no demônio uma corruptela da história verdadeira de Lúcifer. Este seria um ser de grande importância na hierarquia cósmica, que propusera e executara uma experiência de mutação genética com o ser humano, tornando-o mais agressivo, com o intuito de prepará-lo para enfrentar situações de grande adversidade. O resultado teria gerado uma humanidade violenta e, em consequência, a necessidade de mudar a sua rota. Para consertar o malfeito teriam sido enviados à Terra outros seres de grande expressão. Seria essa a razão da presença entre os humanos de alguns seres extraordinários como Buda e Cristo?

 

Todas essas questões são hipóteses e teses que estão por aí ao alcance de todos, em livrarias e na internet, e que são colocadas no campo nebuloso dos mitos. Elas são negligenciadas pelos poderes das mais diversas instâncias, políticas, científicas ou religiosas. Para esses notáveis, só vale o sagrado de cada um deles. Tudo o mais é blasfêmia e heresia, como o foram hipóteses científicas comprovadas, combatidas furiosamente pelos guardiões da fé, como as de Copérnico sobre a translação da Terra em torno do Sol, que levou Galileu Galilei ao Tribunal da Inquisição e Giordano Bruno à fogueira. Muito depois, Darwin passou pela penitência da heresia, já então sem fogueira, por sua Teoria da Evolução das Espécies, que a cada dia é comprovada por novas descobertas no campo da biologia.

 

Mas, se estamos fazendo pesquisas sobre a história da humanidade e a evolução do pensamento humano, como podemos desconhecer essas hipóteses que até hoje preocupam, entusiasmam ou encantam tantas pessoas? A cada povo pertencem suas crenças, seus mitos, suas religiões, sua filosofia, e sua ciência. Também não podemos fingir que essas questões não ocupam mentes privilegiadas. Seria ajudar a ocultar o que já se pesquisou e se descobriu. Nem desconhecer as dúvidas que açoitam os historiadores e as alternativas que eles oferecem às lendas e aos mitos que vagam por aí.

 

Afinal, é preciso examinar todas as possibilidades, romper o bloqueio que supostas autoridades estabelecem em relação ao que lhes desagrada. Ao mesmo tempo desmascarar a propaganda que fazem do que lhes interessa, sem qualquer compromisso com a verdade. Para nós, o objetivo deve ser apenas a verdade, no passado ou no presente. Essa postura certamente nos ajudará a encontrar as soluções que precisamos para superar esse momento nebuloso e tormentoso por que passamos. Para nós, as hipóteses devem ser consideradas, em termos, até que se prove que são verdadeiras ou falsas.

 

Devemos considerar até mesmo a hipótese de que o fim do mundo está próximo e que só se salvarão os 144.000 eleitos pelo Senhor, que seriam todos de um só povo ou de uma só comunidade religiosa. Esse mito provém de dois outros, o do Apocalipse, magistralmente relatado na Bíblia e atribuído a São João, e o do pecado original, advindo de Adão e Eva. Este último marcou a teologia creditada a Santo Agostinho, segundo a qual todo homem nasce em pecado que só será perdoado pela graça divina através da Igreja. Mas qual igreja? Hoje são inúmeras, com as divisões da Igreja Cristã no último milênio. Quais seriam então os eleitos? Da mesma forma que esses mitos são difundidos por pregações e em milhões de livros por todo o mundo, podemos questionar esse Senhor ou seus representantes na Terra. Como é possível tamanha discriminação que repudia toda a humanidade em prol de uns poucos eleitos, todos da mesma cultura ou religião, numa demonstração de elitismo muito além da ousadia de qualquer nobreza. Se o leitor prestar atenção, encontrará mais mitos nos dias de hoje que na Antiguidade. Os daqueles tempos, pelo menos, traziam alento e esperança, enquanto muitos dos atuais produzem graves danos à vida e à paz.

 

No final deste livro voltaremos a falar dessa questão, em abordagem feita à luz do avanço das experiências da humanidade, da filosofia, da ciência nos campos da física e do cosmos, e dos novos fenômenos que intrigam ou que ameaçam as populações. Destacam-se os cataclismos naturais, cada vez mais frequentes e mais graves, que os cientistas procuram compreender, mas ainda não sabem explicar. Mas há também as obras do homem no campo da economia e das instituições, feitas à imagem e semelhança dos novos magos dos séculos XX e XXI. Esses não transformam ferro em ouro, mas fazem dinheiro do nada, enquanto transformam em nada nossas vidas e nosso trabalho. Em lugar da civilização do nada deveríamos pensar na civilização do todo. Naquela que fará uso da abundância para a felicidade e não para conflitos e sofrimentos. Que fará da fraternidade e do respeito ao próximo o cimento para tornar as relações humanas mais harmoniosas e construtivas.

 

O futuro da humanidade depende do nosso nível de conhecimento e de compreensão de tudo que se passa, seja na natureza ou no cosmos, seja na sociedade ou na mente das pessoas. Mas o que mais nos preocupa é a história tortuosa que o homem constrói. Suas deformações produzem a destruição da sociedade e da vida que a natureza produz e sustenta. Os mitos dos antigos consolavam e davam segurança. No seu íntimo eles pensavam que seus deuses os protegiam contra o destrutivo e o desconhecido. Isso lhes dava alento, esperança e capacidade de resistência às hostilidades. Os mitos de hoje são fraudulentas ilusões para submeter vontades e aniquilar o amor-próprio e a esperança no futuro. Os de ontem foram conquistas, precárias como tudo que é humano, mas conquistas. Os de hoje são grilhões, que escravizam, ou armas, que destroem.

 

11, dezembro 2012 1:23
Por admin

A crise em Portugal
Advertência para nós e para o mundo

Arnaldo Mourthé

Nossa primeira surpresa em Portugal, minha e de Marília, quando lá chegamos no dia 23/11/2012, depois da nossa última visita há 25 anos, foi a distância que percorremos no aeroporto antes de chegarmos ao controle de passaportes. Meu deslocamento mais longo a pé em um aeroporto até então fora no México, uma cidade de mais de 20 milhões de habitantes, enquanto Lisboa tem um pouco mais de 2 milhões. Eu não sabia, mas era um indicador das grandes obras que foram implantadas no país no processo de integração de Portugal na CEE, depois na União Européia. De fato, Portugal tem hoje uma infra-estrutura impecável, para um país de 10,5 milhões de habitantes.

Nosso primeiro contato pessoal foi com o taxista que nos levou ao hotel. Pessoa educada, prestativa, que não me deixou colocar as malas no carro. Ele mesmo o fez, com a maior gentileza. No deslocamento fomos conversando. As pequenas perguntas e respostas de praxe sobre a viagem e de onde éramos. Ele estava interessado em saber mais sobre o Brasil, decantado país “aonde a crise não chegou”, segundo ele e muitos outros com quem conversamos. Sem que falássemos em crise – nossa viagem era de turismo – ele disse que estava diante de um dilema. Era arquiteto, mas já não conseguia trabalho por conta da crise. O Brasil seria uma opção. Ele teve um convite para Angola, mas não aceitara. A razão que alegara era ficar longe da família. Os contatos se multiplicaram, quase todos levavam ao mesmo assunto, a crise.

Ao darmos um endereço a outro taxista, ele justificou não conhecê-lo por ser novo naquela atividade. Ele é comerciante de móveis, que ficara com a empresa do pai, onde ele trabalha há trinta anos, desde sua fundação. Com a crise os clientes sumiram e ele disse aos familiares que seria obrigado a fechá-la, depois de já ter despedido seus sete empregados. Ficaram apenas ele e sua mulher. Um cunhado seu, taxista, pediu-lhe para não fechar a firma. Para isso conseguiu-lhe aquele taxi de uma empresa com o qual ele complementa seus rendimentos, mantendo a loja aberta. Em Fátima Marília foi comprar algo em uma loja da rodoviária e ouviu a dona dizer a outra mulher que já completara 65 anos, mas não poderia vender sua loja, pois, se parasse, não poderia manter sua família.

As exceções foram um taxista que nada falou, outro que alegou que as manifestações contra medidas governamentais era coisa de “comunistas que não queriam trabalhar”, e um funcionário do restaurante do hotel que disse não haver crise para ele. Mas esse tinha consciência que essa condição era para ele e outros que trabalhavam na área de turismo, florescente em Portugal, que francamente merece ser visitado, por uma série de razões positivas.

Para mim aquela era a sexta viagem a Portugal. A primeira havia sido em 1979, quando voltávamos para o Brasil depois de quase dez anos de exílio. Daquela feita, tivemos a oportunidade de assistir a comemorações dos cinco anos da Revolução dos Cravos em clima alegre e descontraído, de um povo que soube usufruir da liberdade depois de mais de quarenta anos sob a ditadura salazarista. Ficamos empolgados, já que voltávamos esperançados com a anistia e o próximo fim da ditadura militar no Brasil. Seria esse o clima que o Brasil viveria? Tudo era festa, além, é claro, do trabalho duro, tanto para os portugueses quanto para nós, da construção de uma sociedade que imaginávamos republicana e democrática. Daquela feita, passei em Portugal dois meses, tendo a oportunidade de conhecer muita coisa, sobretudo manter boas relações com muit os portugueses.

Não há dúvidas que tanto Portugal quanto o Brasil, avançaram depois de superadas as respectivas ditaduras. Mas nem tudo seriam sonhos. Os nossos problemas nós pensamos conhecer. Os portugueses também pensam o mesmo sobre os deles. Mas eles estão muito mais conscientes do que nós. Eles sabem que a crise lhes pegou e estão lutando para superá-la, ou livrarem-se dela, enquanto muitos brasileiros parecem viver alhures, cegos, ou fingindo de cegos, para o que se passa no nosso país, o que nos coloca não apenas na rota do tsuname, mas também despreparados para enfrentá-lo. Mas isso é questão para outra narrativa ou discussão. Assim, voltemos às observações sobre Portugal.

Dado o longo período que nos separava da última visita ao país, nossa preocupação não era conhecer coisas novas, mas revisitar aquilo que mais apreciamos nas visitas anteriores. A primeira coisa foi ir à Baixa, o que fizemos no dia em que chegamos descendo a Avenida da Liberdade, junto à qual estávamos hospedados. Fomos, no dia seguinte, visitar um amigo que mora em uma aldeia perto de Fátima, que tivemos a oportunidade de conhecer. Numa visita a pé à Cidade Alta, em Lisboa, onde colocamos à prova nosso preparo físico, fomos surpreendidos por uma chuva, que nos obrigou a ficar algum tempo debaixo de um pequeno toldo de um restaurante que ainda não estava aberto ao público. Por um momento a chuva diminuiu e pudemos continuar nossa caminhada, não sem entrar na primeira loja de quinquilharia que vendia guarda-chuvas. A loja estava vazia. Poderia ser por conta da chuva, mas não só. Nossa entrada foi festejada pelo casal, já sexagenário, que ali trabalhava. Disseram que a crise para eles era grave. O senhor, português de boa cepa, que cultiva a honestidade em todo e qualquer tipo de relação, disse-me para substituir o guarda-chuva que peguei por outro. Este não presta, vai acabar logo, disse. Não nos conhecia, mas para ele freguês é freguês, tem que ser bem tratado e não pode ser tapeado, mesmo que não volte mais.

Interessante é a sua maneira de ver a crise. Dizia: o dinheiro sumiu. Parece que ele foi roubado e o esconderam em alguns buracos por aí, que eu ainda não encontrei. Enquanto sua senhora sorria, e nós também, ele se animou e completou. Que roubaram, roubaram, porque ele sumiu! Depois que a Europa adotou a moeda única, os países menos capitalizados e com menos tecnologia, portanto com produtividade menor, tiveram desvantagem na concorrência. As empresas estrangeiras entraram neles e foram dominando a atividade econômica, cm imensos recursos. A partir de 2008, com a recessão, os capitais iniciam seu retorno às origens, retirando postos de trabalho e dinheiro da circulação. O lojista tinha razão, o dinheiro sumiu. Só não foi colocado em esco nderijos como ele descreveu, mas voltou para casa, mais gordo com os lucros que obteve no hospedeiro. Quando concordei com ele, foi isso que lhe disse.

Mas nossa andança continuou. Fomos descendo a Rua do Arco de S. Mamede, até alcançarmos a Rua São Bento. A chuva havia parado e o sol brilhava, quando observamos que havia uma grande movimentação de pessoas descendo aquela rua. Seguimos na mesma direção. A algumas quadras à frente, notamos a presença de policiais e barreiras para carros. Havia uma manifestação mais abaixo, onde estimei a presença de cerca de vinte mil pessoas, em frente à Assembléia da República. Estava sendo voltada a Lei do Orçamento de 2013. Mas por que tanta gente protestando contra uma lei orçamentária? Ela não tratava apenas do orçamento, mas também do corte nos valores da aposentadoria e de outros direitos dos funcionários públicos e de autarquias e aumenta tributos, para ajustar o orçamento aos ditames da tróica, União Européia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional. Ali podemos ouvir alguns discursos das lideranças corporativas e comentários de pessoas. Marília ouviu uma manifestação indignada de uma senhora aposentada que dizia: …estou aqui porque os meus filhos, apesar de estarem trabalhando não estão recebendo e eu preciso ajudá-los. Se cortarem na minha aposentadoria com é que ficamos. Interpretamos que ela se referia a atrasos no pagamento dos salários dos filhos. O problema é que se reclamam correm o risco de ficarem desempregados sem esperança de outro emprego.

Era sobre aquele evento e outros anteriores que um dos taxistas com quem conversamos se referia, ao dizer que eram comunistas que não queriam trabalhar. Eu lhe observei que a manifestação era de cerca de vinte mil pessoas. Se fossem todas comunistas, os comunistas estariam muito fortes. Ele não comentou. De fato, eram funcionários que defendiam a manutenção de seus direitos, que estão sendo usurpados não apenas em Portugal. Lá estavam comunistas, socialistas, verdes e muitos outros com ou sem militância política. Na Espanha e na Grécia o problema social é muito mais grave. Pudemos constatar que o desemprego em Portugal é de 16,3%, sendo que para os jovens esse percentual já ultrapassa 31%. Na Espanha a taxa geral é de 26,2%, sendo para juventude de mais de 50%, e na Grécia a taxa g eral é de 25,4%. Portugal perdeu mais de 700 mil postos de trabalho desde a crise de 2008. Espanha e a Grécia têm taxas de desemprego correspondentes à dos Estados Unidos durante a crise de 1929, que foi de 27%, com 15 milhões de desempregados. A tragédia foi maior nos Estados Unidos porque, praticamente, lá não havia leis trabalhistas para proteger os trabalhadores, ao contrário da Europa do pós-guerra.

Voltando à questão portuguesa, pudemos perceber que, a votação da lei orçamentária para 2013, aprovada pela maioria governamental da Assembléia da República, com apenas uma defecção, e rejeitada pela unanimidade da oposição, mostra que o estamento político de Portugal está fortemente polarizado. Os governistas buscam justificar as barbaridades que estão cometendo, com um argumento ridículo: para afastar um mal maior. Já a oposição trabalha para levar a decisão a julgamento por inconstitucionalidade junto ao Tribunal Constitucional. Membros influentes do PS vêem a necessidade de derrubar o governo do primeiro ministro Pedro Passos Coelho, antes que ele degrade ainda mais as condições sociais de Portugal, levando para o caminho já percorrido pela Grécia e pela Espanha. O PCP a ssume a mesma postura. A dificuldade está na composição de uma oposição unitária, já que na cúpula comunista há sérias restrições a uma aliança com os socialistas. Mas isso são seqüelas de enfrentamentos anteriores, que a gravidade da situação social se encarregará de minimizar.

Essa condição de polarização reflete o estado de espírito da sociedade, mas também influi nela, polarizando-a ainda mais, na medida em que oferece uma oportunidade aos prejudicados de manifestarem-se e lutar por seus direitos, enquanto uma elite ganha dinheiro como nunca e cultua “o bom viver” da grande burguesia internacional. Em Lisboa estão presentes, se não todas, mais de 90% das grifes européias de luxo. A tendência é o acirramento do confronto, mesmo porque a permanecer a atual política econômica do governo português, a situação social será tão grave que poderá produzir revolta geral.

Mas qual a natureza desse confronto? No que pudemos assimilar do que vimos e ouvimos, há duas visões que sintetizam as duas partes polarizadas. A de que a economia deve servir às pessoas e à evolução da humanidade, e a de que são as pessoas devem servir à economia e ao lucro, mesmo que isso conduza à tragédia social.

Nota do autor: Este artigo é apenas o primeiro de uma série que submeteremos à discussão sobre as contradições e extravagâncias que dominam a sociedade chamada moderna, que caminha a passos largos para o impasse. Cabe-nos encontrar um caminho para o re-ordenamento desse mundo de fantasias e mentiras que se esfacela à semelhança de um circo que pega fogo, enquanto o palhaço tenta distrair as pessoas para que elas não percebam a tragédia que se aproxima.

Rio de Janeiro, 09/12/2012.

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