As amarras da escravidão


As amarras da escravidão

Arnaldo Mourthé

Todos nós estamos cientes de que atravessamos uma grave crise, ou pior do que isso: uma condição que poucos conseguem identificar, menos ainda compreender. Mas vivemos em um mundo onde tudo tem uma causa ou mais que podem se manifestar de várias maneiras, complicando nossa compreensão da realidade. Daí nossa perplexidade e nosso sofrimento. Vamos tentar analisar essa situação, verificando alguns dos nossos problemas, que são muitos e graves.

Comecemos por uma questão que não conseguimos compreender, não por nossa incapacidade, mas por nosso desconhecimento, a crise institucional: o caos nos poderes e a incapacidade do Estado em atender-nos nas questões mais simples da segurança, da saúde, da educação. Isso se dá por diversas razões que veremos adiante, mas há uma questão central que devemos considerar, sem o que não encontraremos solução para nossos problemas. O Estado está “falido”!

Mas o Estado é soberano, como um pode falir? Não pode, mas essa é a ideia que nos foi incutida. Criaram um artifício, uma dívida pública fabricada, forjada, para nos submeter pela sangria financeira e pela inadimplência. Isso foi feito pela cumplicidade entre nossas “elites” políticas e econômicas, com forças externas. Como isso aconteceu nós veremos adiante. Vamos agora às razões do título desse artigo, “as amarras da escravidão”.

A primeira delas é a dívida pública. O brasileiro que nasce hoje herda uma dívida de R$ 20.000,00. Esse é o valor aproximado da divisão do total da dívida pelo número de nossos concidadãos. Mas a questão não se limita a isso. Seus pais têm que pagar dois reais por dias de juros, por ele e por cada um da família, como todos os outros cidadãos. Além disso, a dívida que correspondente a cada cidadão cresce mais dois reais por dia, pois o Estado não tem dinheiro para pagar todos os juros devidos, o fazendo através da emissão de mais títulos entregues aos credores, aumentando a dívida. Assim ela só cresce e, em consequência, os juros também. Enquanto o novo brasileirinho cresce, cresce também sua dívida – muito mais depressa que ele – assim como seus compromissos financeiros. O mais doloroso é que ele não tomou nenhum dinheiro emprestado e nem poderia fazê-lo por ser criança e não tem remuneração para responder por seus encargos financeiros. O brasileiro, assim, nasce e cresce como escravo. Escravidão por dívida, o que os gregos proibiram há mais de 400 anos antes de Cristo.

A segunda delas é o poder político. Este é constituído por representantes das oligarquias que dominam o país há quinhentos anos. A representação atual é obtida através do dinheiro, que compra publicidade e votos. Sobre essa questão não precisamos nos alongar. Basta ler os jornais, ver a televisão e as redes sociais, etc. O povo não é representado no Congresso, senão por um pequeno grupo de abnegados que lá chegam através de suas organizações sociais que lhes fornecem um pouco de votos. Mas esse poder é para poucos e se resume ao acesso à tribuna para protestar, nada mais que isso. Lá estão apenas para que se possa alegar que vivemos num sistema democrático.

A terceira é a sangria da economia, através da exportação dos juros e lucros do capital estrangeiro aplicado no Brasil. Ela é tão grande que não conseguimos pagar tudo com a exportação de nossos produtos, principalmente agrícolas, grãos e carnes, minérios, automóveis e outros menos importantes. Mas nossas receitas do comércio exterior são ridículas, comparadas com o capital que sai diariamente do país. O balanço de pagamentos – que envolve mercadorias, serviços e movimentos financeiros – só se fecha com a entrada de capitais que compram nosso patrimônio. Eles já dominam mais de 70% de nossa indústria, tem forte presença nos bancos, são donos de quase todas as mineradoras e controlam o agronegócio, como fornecedores de sementes, adubos, pesticidas e equipamentos. E são eles que compram seu produto, exportando-o, enquanto a fome persiste no Brasil. E muito mais. Eles têm pelo menos a metade das reservas de petróleo do Brasil e estão comprando nosso sistema elétrico. Eles pretendem dominar nossa energia, nossos rios, ou seja, nossa água, o que lhes dá força para nos dominar completamente.

A quarta amarra é a comunicação. O capital controla nossa grande mídia através da publicidade e da tecnologia. Isso faz de nossa televisão o maior inimigo da nossa Nação, do povo brasileiro. Ela oculta ou distorce a informação e nos distrai empurrando por nossa goela abaixo uma subcultura, ou outra cultura que não é a nossa, buscando nos alienar, nos desinformar e nos desenraizar da nossa terra e dos nossos valores. Assim deixamos de ser um povo capaz de defender-se por desinformação e falta de identidade. Essa amarra escraviza nossa alma, nosso discernimento e nossa vontade.

A quinta amarra é nosso consentimento a tudo isso. É nosso consentimento que permitiu que tudo isso acontecesse e continue acontecendo. Nós já não conseguimos identificar e avaliar nosso inimigo. Uma coisa é certa. Ele não é o nosso irmão que tem posições diferentes das nossas, embora nos induzam a pensar que seja. Mesmo que suas opiniões sejam opostas às nossas, ele continua como nosso irmão. Ele é um brasileiro, apenas tão alienado como nós mesmos. Opinião não é verdade, mas apenas nossa visão das coisas. Ela pode estar equivocada. Para reverter esse quadro macabro, no qual estamos inseridos, precisamos reconhecer que nossos irmãos são nossos aliados naturais. Só o perdão aos nossos irmãos que cometem erros, ou desvios, e nosso próprio autoperdão, pela mesma razão, nos permitirá encontrar o nosso caminho, nos tornando fortes, capazes de reverter essa situação que nos oprime e ameaça nos escravizar ainda mais.

Há outras amarras. Elas estão por toda parte, mas cabe a cada um de nós descobri-las, para desatá-las. Afinal, o poder está dentro de nós mesmos. Se não assumirmos esse poder jamais seremos livres, jamais gozaremos daquilo que é nosso direito natural. E assim é pelo simples fato de existirmos e de estarmos aqui, cumprindo uma missão que é nossa, de mais ninguém. Cada um de nós com a sua.

Rio de Janeiro, 13/02/2018

 

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