Esculhambação geral


Esculhambação geral

Arnaldo Mourthé

            Deu a louca no governo. Agora, a esculhambação é geral. Eu já havia escrito um artigo, com o título A que veio o governo Temer?, de 05/10/2016, publicado depois no meu livro O poder no Brasil. Ele representa a minha visão sobre esse governo que está ai, e começa dizendo:

            1 – Matar o Estado com o bloqueio de gastos com serviços públicos.

            2 – Demolir a República, através da priorização dos interesses privados sobre os             públicos (do cidadão), e o descaso com a soberania nacional.

            3 – Alienar o patrimônio nacional para transferir riqueza para o setor financeiro, já        dominado pela banca internacional.

Mas a desfaçatez dos senhores do poder que, diga-se de passagem, é formado de impostores, ultrapassou em muito minha “profecia”.  O que está ocorrendo, e como está ocorrendo, não poderia passar por minha cabeça. Afinal, eu acredito ser uma pessoa normal.

Por mais que me esforce, não consigo lembrar-me de nenhum fato histórico que possa servir de paralelo a tamanho desatino. Parece um reclame, de meus tempos de infância, de “salvados do incêndio”, de loja que pegou fôgo. Quem sabe essa seja a imagem do Brasil na cabeça desses tresloucados? É o caso de convocar uma junta médica para examiná-los.

O fato, de nossos dias, que mais se assemelha ao que o governo Temer está fazendo, é de um grupo de crianças abandonadas e drogadas, vendendo na beira da estrada os frutos de um assalto, ocorrido na véspera, a um caminhão de entrega de mercadorias. praticado pelo crime organizado,

Realmente os homens de plantão no poder parecem drogados. A aparição (palavra sintomática) de Meirelles na televisão assusta. Uma cara amarrotada, cheia de sestros e rompantes, digno de alma penada, dizendo: “tem que ser feito”, “se não for agora, daqui a dois anos”, “senão o Estado vai falir”. Assim ele se refere à Reforma da Previdência. Ele só esquece que o Estado já faliu, e ele foi o principal responsável por isso, quando chefiava o Banco Central, multiplicando a dívida pública, que hoje é mãe de todas as crises no Brasil.

O mestre de cerimônia, travestido de presidente, é o mais cômico. Não sei se posa de prestidigitador, escondendo cartas do baralho, ou de mágico, tirando coelho da cartola. Mesmo um coelho tão grande quanto a Eletrobrás, que vendida daria a ele o dinheiro para devolver ao comprador, através de juros da dívida pública. Os 20 milhões de reais, que não passam de três semanas de juros pagos pelo governo.

O terceiro membro da trinca tenebrosa é o “gato angorá”, com cara de bebê chorão, cuja função é buscar com sua patinha travessa o patrimônio público da vez para  ser vendido a preço de banana. Tudo para manter aberta a sangria que mata o Estado brasileiro, do pagamento dos juros da dívida pública de mais de 400 bilhões de reais por ano.

Mas, qual é a jogada da vez? Vender 14 aeroportos, 11 linhas de transmissão, 15 terminais portuários, duas rodovias, a Casa da Moeda, 18 rodadas de licitação de petróleo e gás, a Companhia de Armazéns e Silos de Minas Gerais e a Companhia Docas do Espírito Santo. Não escapa nem a Rede de Comunicações Integrada da Aeronáutica. Tudo para apurar R$ 44 bilhões que corresponde ao pagamento de um mês e meio dos juros da dívida pública. O interessante é que nunca mencionam a dívida pública. Ela parece não existir. Será ela outro fantasma. Talvez tenham medo dos portadores dos títulos do Tesouro Nacional. Disso o Meirelles entende, pois teve uma longa escola no BankBoston.

Porque tanta pressa? Virá outra acusação comprometendo o Presidente? Terá o lobby da Wall Street falado mais grosso?            Talvez saibamos algum dia. É importante lembrar que a intervenção americana no golpe de 1964, ficou de conhecimento geral depois que os EUA abriram o sigilo sobre o papel de seu governo no golpe. Lá a Lei limita o segredo de Estado a 20 anos. Quem sabe daqui há 20 anos tudo isso seja de conhecimento público. Mas o que  seremos  de nós então, se não tomarmos medidas urgentes para impedir a destruição de nossas instituições e a derrocada de nossa Nação? A resposta a essa pergunta fica para você, caro leitor.

Não esquecer que se completam hoje 63 anos do suicídio de Getúlio Vargas, consequência de perseguições sobre ele por  sua política em defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e de nossas fontes energéticas e minerais. Ao lembrar isso, resolvi juntar  a este texto a Carta Testamento desse grande patriota.

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

Getúlio, sim, era um estadista e um patriota. Ele comandou uma revolução. Contra os ‘barões do café” e a fraude eleitoral. Venceu, sustentado nos governos do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, da Paraíba, e do nosso povo por todo o país.  Pôs-se a construir uma República, que foi derrubada pelo golpe de Estado de 1964. Caso este não houvesse ocorrido, talvez fôssemos uma grandiosa e justa nação, sustentada por nosso povo generoso e trabalhador. Mas a história foi outra. Tudo isso me impele a uma pergunta:

Prezado leitor, você aceitaria ser membro de uma boiada? Mesmo que ela tivesse sendo conduzida para o abatedouro?

Rio de Janeiro, 24/08/2017.

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