Os novos barões do café (XIV) – Janio passa pelo poder como um foguete


Janio passa pelo poder como um foguete

 

Arnaldo Mourthé

 

Dotado de um carisma raro, orador competente, capaz de comover, mestre na demagogia e teatral nos gestos, Jânio Quadros fez uma carreira política meteórica. Em 1947 foi eleito suplente de vereador em São Paulo pelo Partido Democrata Cristão – PDC. Ele assumiu o cargo por força da cassação do Partido Comunista, em 1948. Em 1951 elegeu-se deputado, sendo o mais votado do estado, apesar do seu curto mandato de vereador. Em 1954 foi eleito governador e, em 1961, Presidente da República.

Jânio conseguiu capitalizar a insatisfação das pessoas com a burocracia e a morosidade do Serviço Público. No governo do estado fez uma administração volante. Ele se apresentava em todos os lugares onde soubesse haver deficiências no serviço e, em particular, no atendimento ao público. O que seria justa cruzada contra a ineficiência do Serviço Público mostrou-se demagógica, quando ele a debitou à corrupção e ao descaso do funcionalismo. Mas sua demagogia funcionou, e foi utilizada daí por diante em suas campanhas, como símbolo e como mote. Para sua candidatura à Presidência, o símbolo foi uma vassoura, para varrer os corruptos, enquanto o mote foi o ato de varrer: ...varre, varre, vassourinha, do seu jingle de campanha. Os adversários os chamavam de “bruxo”, o que lhe veio a calhar, pois aumentou a simpatia da população, sedenta de novidades e de esperanças, que só um “bruxo” poderia realizar. Sua campanha foi arrasadora. Candidato de um pequeno partido, o PTN – Partido Trabalhista Nacional, mas apoiado por uma forte coligação liderada pela UDN, ele disparou na frente dos adversários. Teve 48% dos votos, o mesmo percentual de Getúlio, em 1950, contra 28% para Lott e 23% para Ademar de Barros.

O marechal Lott era um militar severo, de conduta moral rigorosa, avesso a qualquer tipo de demagogia ou de mentira, mesmo quando lhe eram plenamente favoráveis. Era um homem que raramente se vê na política de nossos dias. Firme, reto, convicto. Eu fui testemunho de um fato que prova isso.

A UNE era uma entidade isenta de vinculação partidária. Na mesma diretoria militavam pessoas de vários partidos, que só se mantinham unidas pela isenção partidária da entidade. Mas cada dirigente, como cidadão, tinha sua opção política ou partidária. Mesmo assim, alguns jornais diziam que ela era dirigida pelos comunistas, o que não era verdade. Em 1960, um grupo de dirigentes da UNE, UBES e UME – União Metropolitana dos Estudantes, esta do Distrito Federal, agendou uma visita ao candidato Lott, para lhe prestar homenagem e apoio na eleição. Ele ainda ocupava seu imponente gabinete no Ministério da Guerra. Ele nos recebeu gentilmente, ouviu a quem fez uso da palavra, pacientemente, e no fim agradeceu nossa visita. Mas ressaltou: “Quero avisar para vocês que eu não aceito apoio de comunista”.

Não se esperava que Lott ganhasse a eleição. Era querido e respeitado pela maioria dos brasileiros, mas suas posições duras causavam estranheza.

Mas, para a Vice-Presidência, o resultado foi diferente. Engajado e hábil, João Goulart venceu Milton Campos, o gentleman, ex-governador de Minas Gerais, candidato da UDN. O imbróglio estava arrumado. Não por conta dos eleitos, Jânio e Jango. Os dois eram dialogadores com jogo de cintura. Em São Paulo foi até feita uma dobradinha eleitoral com os dois candidatos, que atendia a parte da população trabalhadora. Ela foi divulgada como Jan-Jan (Jânio e Jango) e teve grande aceitação, favorecendo os dois, em prejuízos dos outros candidatos, Lott e Milton Campos. Mas havia um grande problema pela frente, o comando da UDN, especialmente Carlos Lacerda, que não queria o PTB no governo. Na visão dos udenistas, Jango arrastaria ao poder os sindicatos e, com eles, os comunistas. Na verdade, era apenas o ódio a Getúlio Vargas e à sua política a favor da soberania nacional.

Jânio assume a Presidência carregando consigo a grande expectativa que ele próprio criara na campanha, de acabar com a corrupção e com os “desmazelos”, como ele mesmo dizia. Mas era preciso encontrar a corrupção, que ele alardeara, e combatê-la. Para isso ele abriu sindicância para todos os lados, constrangendo a todos os funcionários, na maior parte, zelosos, capazes e honestos. Era preciso mostrar serviço e ele usou o que melhor sabia fazer, a pirotecnia. Proibiu os biquínis nos concursos de miss, as rinhas de galo, e o lança-perfume nos bailes de carnaval. Ele demitiu os funcionários contratados nos últimos meses do governo JK, embora na forma da Lei, como também o foram as demissões. E soltou seus bilhetinhos para

todos os lados e níveis da hieraquia, de ministros a contínuos.

Na sua função precípua de presidente, Jânio lançou-se em duas vertentes antagônicas. Na área econômica adotou a política do FMI, com a Instrução 204 da Sumoc, que aboliu a Instrução 70. Com exceção para a exportação do café, foi eliminado o câmbio diferenciado, abrindo o mercado livre do câmbio para a importação de quaisquer mercadorias. O dólar teve uma alta de mais de 100%. A inflação cresceu. Com o salário congelado, outro ato de sua política econômica, o trabalhador perdeu poder de compra. Toda a economia sofreu, reduzindo o apoio político ao governo.

Por outro lado, Jânio enviou ao Congresso um projeto de lei antitruste e outro de regulamentação da exportação de lucros, e criou uma Comissão para estudar a reforma agrária. Essas medidas estavam aparentemente em contradição com sua política cambial. Fica apenas a observação, já que elas não se consumaram, mas geraram descontentamento nas áreas da sociedade a favor do capital estrangeiro e contra a reforma agrária.

Na diplomacia, ele manteve a política externa independente de Getúlio e JK, desconhecendo a Guerra Fria, pedra de toque da diplomacia dos Estados Unidos, mas foi menos comedido que seus antecessores. Jânio restabeleceu as relações diplomáticas com a URSS e com a China. Na Conferência da Organização dos Estados Americanos, realizada em Punta del Leste, em agosto de 1961, credenciou o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, como membro da delegação brasileira. Não deu certo, porque Brizola abandonou a reunião por considerar a posição oficial do Brasil submissa às imposições americanas. Voltando dessa reunião, Che Guevara foi a Brasília visitar Jânio, e recebeu a condecoração da Ordem do Cruzeiro do Sul. No mesmo dia, em 19 de agosto de 1961, o Congresso dos Estados Unidos votou a favor do bloqueio econômico contra Cuba. A condecoração de Che foi um prato feito para a língua ferina de Lacerda, seu Clube da Lanterna, e para um grupo de militares. Alguns destes quiseram devolver a mesma comenda com a qual haviam sido agraciados anteriormente, mas foram contidos por seus respectivos ministros.

Inicia-se o processo de julgamento sumário de Jânio Quadros por Lacerda e seus seguidores. Em uma reunião de estudantes em São Paulo, no dia 22, Lacerda o acusa de estar preparando um golpe, para o qual fora sondado. Ele repetiria a acusação em cadeia de rádio e televisão, no dia 24 de agosto, aniversário da morte de Getúlio. Seria uma inconsequência de Lacerda essa hostilidade? Ou seria a continuidade do espírito golpista que o animava? A segunda hipótese era a mais provável. Diante de brutal pressão, Jânio renuncia através de um bilhete ao Congresso.

 

Ao Congresso Nacional. Nesta data, e por este instrumento, deixando com o Ministro da Justiça as razões do meu ato, renuncio ao mandato de Presidente da República. Brasília, 25-8-61.

 

Nas suas alegações, Jânio denuncia interesses de grupos ou indivíduos, inclusive do exterior, que se levantaram contra ele. Nada de conclusivo. Os ministros militares convidam o presidente da Câmara Ranieri Mazzilli ao palácio e lhe dizem para assumir a Presidência. Os ministros deixam transparecer a Mazzilli que não aceitam Jango – que estava em viagem oficial à China – na Presidência. O impasse estava criado. Um novo poder já se manifestava e seria ainda mais explícito com o passar dos dias. Os golpistas voltaram a sair da casca, sempre com o objetivo de impedir o país de ter um projeto próprio, soberano. Tudo em nome da ameaça de um fantasma, o comunismo, mas na verdade para atender a um poder real que os apoiava, o dos Estados Unidos.

Rio  de Janeiro, 19/12/2016

 

 

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